{"id":1271,"date":"2009-12-18T21:19:51","date_gmt":"2009-12-18T23:19:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1271"},"modified":"2009-12-20T21:34:21","modified_gmt":"2009-12-20T23:34:21","slug":"a-arte-dos-encaixes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-arte-dos-encaixes","title":{"rendered":"A ARTE DOS ENCAIXES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO romance de estr\u00e9ia do joinvilense Rodrigo Schwarz, <em>A Ilha dos C\u00e3es (Bertrand Brasil, 128 p\u00e1gs., R$ 23<\/em>), se presta a v\u00e1rias met\u00e1foras. Podemos escolher duas. Uma est\u00e1 na cena de <em>Os Fuzis,<\/em> de Ruy Guerra, em que dois soldados de olhos vendados tentam recompor, cada um, a pr\u00f3pria arma. Eles disp\u00f5em apenas de pe\u00e7as espalhadas sobre a mesa, que precisam ser identificadas pelo tato e encaixadas pela experi\u00eancia. Prova de coragem: quem for mais r\u00e1pido e eficiente pode apontar para o advers\u00e1rio. \u00c9 um jogo mortal que, no livro, coloca frente a frente o autor e o leitor reais, e os autores fict\u00edcios entre si. Sobram, nesse jogo, como plat\u00e9ia virtual, os n\u00e3o-leitores imaginados, os que perderam a oportunidade de ler as narrativas, que se encaixam numa segunda met\u00e1fora: a da marioska, o jogo das bonecas russas de madeira, ocas por dentro e de tamanhos variados, em que a maior pode guardar as menores no seu interior.<\/p>\n<p>A boneca maior \u00e9 o embate entre a Hist\u00f3ria can\u00f4nica e a sua impossibilidade, aquela que poderia ter acontecido. Ou seja: no lugar do mundo definido pela hegemonia europ\u00e9ia sobre as civiliza\u00e7\u00f5es americanas, o romance prop\u00f5e que os grandes descobrimentos fracassaram e os astecas conseguiram desenvolver seu imp\u00e9rio sem a interfer\u00eancia dos europeus. E no lugar de sir Richard Burton, o expedicion\u00e1rio das civiliza\u00e7\u00f5es perdidas e das l\u00ednguas desconhecidas, um Richard Burton que jamais chegou \u00e0 Inglaterra depois que partiu de sua estadia em solo brasileiro, quando foi diplomata em Santos. Por determina\u00e7\u00e3o do autor, essa matriz \u00e9 a vit\u00f3ria de uma fic\u00e7\u00e3o, a liter\u00e1ria, que finge ser Hist\u00f3ria, sobre a outra, a hist\u00f3rica, que finge ser definitiva.<\/p>\n<p>\u00c9 uma insurg\u00eancia que tem apoio em especula\u00e7\u00f5es de alguns historiadores. Aqui, pelo exagero, poderia chocar, n\u00e3o fosse o desplante com que o autor aborda essa transgress\u00e3o, num texto que escorre sem ser a\u00e7\u00facar, e prende pela liberdade que inventa e n\u00e3o pelo esfor\u00e7o da verossimilhan\u00e7a. A seguran\u00e7a de Rodrigo permite at\u00e9 que ele use conceitos da Hist\u00f3ria aceita, colocando assim, pelo uso da linguagem, as duas vers\u00f5es cara a cara, para que possamos identific\u00e1-las pelo avesso.<\/p>\n<p>A segunda boneca encerra um naufr\u00e1gio e o ref\u00fagio do her\u00f3i numa ilha deserta. Robinson Cruso\u00e9 \u00e9 Burton, autor do livro que n\u00e3o encontrar\u00e1 leitores. Seu Sexta-feira \u00e9 Nikolai, o marujo catarinense cego que ganhou esse nome russo pelo contato que o pai teve com os eslavos no porto de S\u00e3o Francisco. A trag\u00e9dia de Burton \u00e9 n\u00e3o ter nem em Nikolai um leitor. Consegue dele apenas a pior das manifesta\u00e7\u00f5es, a cr\u00edtica. A excessiva proximidade entre leitor e escritor leva \u00e0 indiferen\u00e7a, jamais \u00e0 possibilidade de um retorno gratificante. Mas n\u00e3o \u00e9 pelo manuscrito que os dois acabam se reconciliando, e sim pela conversa, quando se v\u00eaem a bra\u00e7os com a pr\u00f3pria precariedade, que os identifica. Rodrigo, aqui, aponta para uma celebra\u00e7\u00e3o: a de que um escritor pode chegar ao pr\u00f3ximo n\u00e3o no territ\u00f3rio do livro, mas por meio do livro, usado, involuntariamente, como isca para a conviv\u00eancia. O que vale n\u00e3o \u00e9 a literatura, mas a sobreviv\u00eancia. N\u00e3o se trata de papel, mas de humanidade.<\/p>\n<p>As cascas do jogo descem ainda em novas camadas. H\u00e1 uma heran\u00e7a, o livro inacabado de um guerreiro viking, que aportou no imp\u00e9rio asteca de Montezuma pela derrota e que guardava o segredo de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida no gelo e a t\u00e9cnica de uma arte, a de fazer barcos que cruzassem o mar. O calhama\u00e7o \u00e9 encontrado por Nikolai, o cego, e apropriado por Burton. Este, dedica-se a contar a hist\u00f3ria de um escriba a servi\u00e7o de Montezuma, que teria vindo at\u00e9 a ilha para resgatar a rainha ca\u00edda em desgra\u00e7a e tamb\u00e9m para escrever um livro. Os livros que se superp\u00f5em na marioska s\u00e3o apenas fragmentos e servem como as pe\u00e7as da arma desmontada, que precisam ser recompostas pela leitura que os personagens fazem entre si, reflexo da leitura mais \u00e0 tona, a que fazemos do livro de Rodrigo.<\/p>\n<p>Schwarz reporta o desespero do escritor, que precisa criar sem pensar em quem l\u00ea, como ato \u00faltimo, sabendo que vai naufragar na pr\u00f3xima temporada, quando o mundo l\u00e1 fora continuar ignorando a sua arte. \u00c9 o del\u00edrio comum de todo escritor brasileiro, \u00e0 merc\u00ea das tempestades do mercado editorial, sem a sintonia com um ambiente que deveria lhe prestar reconhecimento, e que acaba apenas lhe dedicando hostilidade. Seu truque para romper esse cerco foi obedecer ao que parece ser uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, mas \u00e9 pura inven\u00e7\u00e3o. O tiro de miseric\u00f3rdia permitido pela solu\u00e7\u00e3o do enigma est\u00e1 sempre a cargo do leitor, j\u00e1 que o autor disp\u00f4s as pe\u00e7as, montou-as do seu jeito e abandonou a mesa. Ele aguarda o desfecho de quem l\u00ea, que tanto pode atingir quem escreve quanto enriquec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O autor permite que o leitor trabalhe a obra como se este fosse um virtuose, que produza o som sugerido pelos gestos dele, o maestro. A ousadia poderia levar a uma combina\u00e7\u00e3o cerebral de recursos liter\u00e1rios, mas felizmente ela se encaixa na linhagem da modernidade inaugurada por Cervantes, o da aventura que, em vez de vestir, desmonta, em que os leitores fazem parte da obra, j\u00e1 que n\u00e3o conseguem despregar os olhos do que est\u00e1 escrito. Tanto isso \u00e9 verdade que n\u00e3o nos damos conta do territ\u00f3rio que nos circunda. Acreditamos piamente ser uma ilha, mas tudo indica que ela possa ser outra coisa. Assim como acreditamos ser esse um romance, mas pode ser apenas uma demonstra\u00e7\u00e3o da arte de encaixes ao ar livre, numa rua qualquer, de um mundo que perdeu o rosto, mas que, diante do art\u00edfice, poder\u00e1 se reencontrar.<\/p>\n<p>No momento em que estamos prontos para zarpar dali, quando fechamos a \u00faltima p\u00e1gina, notamos que algo se mexe embaixo dos nossos p\u00e9s. \u00c9 aquilo que chamamos terra, mas que se revela um monstro. Essa surpresa nos leva para outra impossibilidade: talvez n\u00e3o seja o nosso destino descobrir totalmente o que seja este livro. O que vale \u00e9 a viagem e os mist\u00e9rios que Rodrigo Schwarz nos obriga a decifrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance de estr\u00e9ia do joinvilense Rodrigo Schwarz, A Ilha dos C\u00e3es (Bertrand Brasil, 128 p\u00e1gs., R$ 23), se presta a v\u00e1rias met\u00e1foras. Podemos escolher duas. Uma est\u00e1 na cena de Os Fuzis, de Ruy Guerra, em que dois soldados de olhos vendados tentam recompor, cada um, a pr\u00f3pria arma. Eles disp\u00f5em apenas de pe\u00e7as espalhadas sobre a mesa, que precisam ser identificadas pelo tato e encaixadas pela experi\u00eancia. 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