{"id":1273,"date":"2009-12-18T21:20:51","date_gmt":"2009-12-18T23:20:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1273"},"modified":"2009-12-20T22:54:48","modified_gmt":"2009-12-21T00:54:48","slug":"wim-wenders-o-voo-do-flaneur","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wim-wenders-o-voo-do-flaneur","title":{"rendered":"WIM WENDERS, O V\u00d4O DO FL\u00c2NEUR"},"content":{"rendered":"<p><em>Nei Ducl\u00f3s<\/em><\/p>\n<p>Os anjos de <strong>Asas do Desejo (<\/strong>e sua seq\u00fc\u00eancia<strong>, T\u00e3o longe, t\u00e3o perto)<\/strong>, de Wim Wenders, s\u00e3o uma radicaliza\u00e7\u00e3o da figura do fl\u00e2neur, encarnado por Baudelaire: o cara que andava pelo avesso da cidade transformada subitamente pelas for\u00e7as do capital, que entregava-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o e \u00e0 reflex\u00e3o nas largas avenidas que brotaram junto com os edif\u00edcios e as multid\u00f5es. H\u00e1 um componente nost\u00e1lgico nesse personagem not\u00f3rio da Hist\u00f3ria da Cultura, que teria resgatado, em plena metr\u00f3pole, o modo de viver do campo, inconformado com a avassaladora presen\u00e7a das m\u00e1quinas e a desumaniza\u00e7\u00e3o dos habitantes. Os anjos de Wenders, testemunhas da pequenez e da imensid\u00e3o das criaturas que contemplam, expressam-se, como Baudelaire, pelo po\u00e9tico (a nostalgia da linguagem antes da demoli\u00e7\u00e3o mercantil do discurso) e mapeiam as situa\u00e7\u00f5es que envolvem os seres que est\u00e3o sob os seus cuidados.<strong>CHANCE<\/strong> &#8211; Mas se o fl\u00e2neur hist\u00f3rico (inaugurador da modernidade)\u00a0\u00e9 ruptura diante do capitalismo nascente, e uma tentativa de resgate da harmonia perdida, os anjos da p\u00f3s-modernidade s\u00e3o o sofrido olhar diante da decad\u00eancia urbana, desse desmaio abissal que \u00e9 Berlim reconduzida \u00e0 unidade depois da guerra que a cortou ao meio. H\u00e1 necessidade agora de o flaneur interferir na cena que observa, sob pena de tornar-se o \u00e1rido esp\u00edrito que gerou o abismo. Os anjos ent\u00e3o se humanizam, e vertem sangue para aproveitar a chance: agora que o sistema d\u00e1 sinais de cansa\u00e7o, \u00e9 hora de pousar nele o que h\u00e1 de mais profundo, a materializa\u00e7\u00e3o do sonho cevado na exclus\u00e3o secular.<strong>ABANDONO<\/strong> &#8211; Outro fl\u00e2neur de Wim Wenders \u00e9 o personagem mudo desse filme que foi feito para nos derrubar, o incompar\u00e1vel <strong><em>Paris, Texas<\/em><\/strong>. Ele vaga pelo deserto em busca do amor perdido. Voltou enfim ao campo e nele procura encontrar o que n\u00e3o possu\u00eda mais na cidade. Guia-se por um paradoxo: um nome feliz de cidade encravada no grot\u00e3o da Am\u00e9rica. Vaga sem nenhuma chance de encontrar o que procura e \u00e9 por isso que h\u00e1 aquele blues tocado pela guitarra feita com os nossos nervos. A guitarra chora a impossibilidade e temos certeza que ali, naqueles momentos antol\u00f3gicos do cinema maior, nunca fomos t\u00e3o s\u00f3s. O abismo dessa figura \u00e9 o horizonte sem fim que se distancia a cada passo.\u00c9 no fundo o ser que perdeu a capacidade de se expressar (porque h\u00e1 um abismo entre o homem e o esquema que deveria sustent\u00e1-lo) e que sai em busca da palavra perdida. Encontra-a corrompida, exposta na vitrina do mercado. Mas ele procura recuperar a fala (a sua vida) e \u00e9 com a palavra prostitu\u00edda que precisa recompor-se. Essa \u00e9 uma das f\u00e1bulas desse artista que nos comove pela compaix\u00e3o (esses ausentes desesperados que despencam na paisagem) , que nos convoca pelo sussurro (esse poema que ningu\u00e9m escuta), que nos leva at\u00e9 a amurada e l\u00e1 nos aponta o ch\u00e3o distante, para o\u00adnde ir\u00e1 nosso corpo sem sentido.Lan\u00e7amos, ent\u00e3o, tudo o que somos, no ar, para ter certeza se ainda contamos com alguma densidade. Vamos ao encontro de n\u00f3s mesmos. Deixaremos, com Wim Wenders, de sermos o flaneur conformado com o olhar infinito. Se tivermos sorte, haver\u00e1 sangue quando acordarmos no ch\u00e3o da cidade condenada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os anjos de Wim Wenders, testemunhas da pequenez e da imensid\u00e3o das criaturas que contemplam, expressam-se, como Baudelaire, pelo po\u00e9tico (a nostalgia da linguagem antes da demoli\u00e7\u00e3o mercantil do discurso) e mapeiam as situa\u00e7\u00f5es que envolvem os seres que est\u00e3o sob os seus cuidados. Mas se o fl\u00e2neur hist\u00f3rico (inaugurador da modernidade) \u00e9 ruptura diante do capitalismo nascente, e uma tentativa de resgate da harmonia perdida, os anjos da p\u00f3s-modernidade s\u00e3o o sofrido olhar diante da decad\u00eancia urbana, desse desmaio abissal que \u00e9 Berlim reconduzida \u00e0 unidade depois da guerra que a cortou ao meio.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[104,101,103,109,112,111,110,108,107,100,102,105,106],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1273"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1932,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1273\/revisions\/1932"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}