{"id":1275,"date":"2009-12-18T21:21:41","date_gmt":"2009-12-18T23:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1275"},"modified":"2009-12-20T23:52:50","modified_gmt":"2009-12-21T01:52:50","slug":"kurosawa-viver-no-apocalipse","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/kurosawa-viver-no-apocalipse","title":{"rendered":"KUROSAWA, VIVER NO APOCALIPSE"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Akira Kurosawa n\u00e3o precisou imaginar o fim do mundo. Foi testemunha da trag\u00e9dia quando, levado pelo irm\u00e3o, viu no que se transformou Hiroxima depois da bomba. O Apocalipse n\u00e3o \u00e9, portanto, uma profecia que vai se cumprir, mas o territ\u00f3rio que ele precisou palmilhar e enxergou de perto, n\u00e3o s\u00f3 como o Outro que v\u00ea, mas como o pr\u00f3prio que \u00e9 calcinado junto com seus semelhantes. Seu cinema s\u00e3o os passos dados no limite extremo da aniquila\u00e7\u00e3o total. Ele est\u00e1 confinado nesse n\u00facleo da bola de fogo.<\/p>\n<p>Seu olhar n\u00e3o pode simplesmente reduzir-se \u00e0 resist\u00eancia ou \u00e0 den\u00fancia, que s\u00e3o ilus\u00f5es do humanismo desmascarado pelo horror. Nem pode mais separar realidade de pesadelo, j\u00e1 que ambos convivem dentro e fora dele. O Mestre caminha enquanto o mundo explode e coloca, no centro do drama, o que acontece ou pode acontecer quando o destino se cumpre e n\u00e3o h\u00e1 mais esperan\u00e7a. Kurosawa \u00e9 a solid\u00e3o do cinema diante da maldi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, os espectadores, somos os improv\u00e1veis sobreviventes da cat\u00e1strofe que ele revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi assim que enxerguei a vida enquanto o mundo se despedia.<\/p>\n<p><strong>ZUMBIS<\/strong> &#8211; <em>Viver<\/em> \u00e9 exatamente o filme mais did\u00e1tico de Kurosawa. Feito nos anos 50 e em preto-e-branco, narra a fase terminal de um funcion\u00e1rio p\u00fablico desenganado pelo c\u00e2ncer, que decide virar a mesa da sua reparti\u00e7\u00e3o corrupta e enfrentar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que queria destruir uma pra\u00e7a. A clarivid\u00eancia e a coragem que se manifestam pela consci\u00eancia da morte servem para fazer um minucioso relat\u00f3rio da vida sem sentido a que fomos condenados, como zumbis enredados pelos poderes, amarrados como alimento de abutres. Num andamento pesado, o chefe daquele departamento descobre as verdadeiras liga\u00e7\u00f5es com seus semelhantes, tanto na fam\u00edlia quanto no emprego. V\u00ea ent\u00e3o que n\u00e3o tem nada e nunca foi nada. \u00c9 como se Kurosawa, sabendo como o mundo acaba, resolva pesquisar os motivos da destrui\u00e7\u00e3o, a vida que era vista como pac\u00edfica e que em nenhum momento se diferencia do momento da explos\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>ESP\u00d3LIO<\/strong> &#8211; Ele mostra que o big-bang \u00e9 uma s\u00edntese para o\u00adnde confluem as sociedades humanas antes e depois do impacto. \u00c9 como se <em>Ran<\/em> ou <em>Os Sete Samurais<\/em> revelassem os antecedentes rumo ao desfecho, que se cumpre, <em>Sonhos<\/em> o flagrante do evento e <em>Viver<\/em> seu descenso, ou melhor, o que veio depois (o Jap\u00e3o derrotado, pobre e burocr\u00e1tico) mas que se reporta \u00e0 bomba num movimento pelo avesso, na contra-m\u00e3o do tempo. H\u00e1 tr\u00eas momentos do Apocalipse: <em>Ran<\/em> (e toda a sua linhagem de guerra sem fim que \u00e9 fruto do \u00f3dio seminal da esp\u00e9cie a partir da fam\u00edlia); <em>Sonhos<\/em>, que \u00e9 o relat\u00f3rio ao vivo do xeque-mate nuclear; e <em>Viver<\/em>, que seria o esp\u00f3lio da explos\u00e3o, mas como nas velhas projetoras que faziam o filme andar de tr\u00e1s para diante, mostra como o p\u00f3s-Apocalipse a ele se dirige de maneira inapel\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>DESPERD\u00cdCIO<\/strong> &#8211; Em cada filme citado, sempre h\u00e1 lugar para qualquer um dos passos finais. N\u00e3o s\u00e3o apenas os antecedentes que existem em <em>Ran<\/em>, pois l\u00e1 est\u00e1 a mortandade no campo de batalha, numa seq\u00fc\u00eancia intermin\u00e1vel, que \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o dos corpos destru\u00eddos vistos por Kurosawa na cidade destru\u00edda. Em <em>Sonhos<\/em>, h\u00e1 algo mais do que a cena do remorso (o comandante que enfrenta os fantasmas da tropa massacrada sob o seu comando); a dos dem\u00f4nios que berram quando lhes nascem os chifres; o passeio pelo cen\u00e1rio da queda, a pintura de Van Gogh; ou a sedu\u00e7\u00e3o da Morte numa peregrina\u00e7\u00e3o na neve. H\u00e1 o para\u00edso que assoma no velho moinho na beira da \u00e1gua limpa, o anci\u00e3o que acena com a sabedoria, a terra intocada pela barb\u00e1rie. Existe a\u00ed o que apostamos ser esperan\u00e7a, mas \u00e9 apenas mais um desdobramento do olhar do Mestre.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que tenhamos alguma chance e encontramos enfim a paz (em <em>Sonhos<\/em>) o reconhecimento (em <em>Dodeskaden<\/em>) ou a justi\u00e7a (em <em>Viver<\/em> ou em <em>Os sete samurais<\/em>). Vemos o passo al\u00e9m do extremo, o resultado do julgamento final, o \u00faltimo reduto do Apocalipse, que \u00e9 a contradit\u00f3ria promessa de salva\u00e7\u00e3o depois da condena\u00e7\u00e3o de todos. \u00c9 quando o cinema, representa\u00e7\u00e3o do mundo, acaba, e levamos para casa um pacote de possibilidades. Acreditamos ser a seguran\u00e7a da eternidade, mas \u00e9 um presente da lucidez de Kurosawa: fazemos parte do Apocalipse e encar\u00e1-lo de frente \u00e9 a \u00fanica a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel quando todas as chances foram desperdi\u00e7adas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Akira Kurosawa n\u00e3o precisou imaginar o fim do mundo. Foi testemunha da trag\u00e9dia quando, levado pelo irm\u00e3o, viu no que se transformou Hiroxima depois da bomba. O Apocalipse n\u00e3o \u00e9, portanto, uma profecia que vai se cumprir, mas o territ\u00f3rio que ele precisou palmilhar e enxergou de perto, n\u00e3o s\u00f3 como o Outro que v\u00ea, mas como o pr\u00f3prio que \u00e9 calcinado junto com seus semelhantes. Kurosawa \u00e9 a solid\u00e3o do cinema diante da maldi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, os espectadores, somos os improv\u00e1veis sobreviventes da cat\u00e1strofe que ele revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi assim que enxerguei a vida enquanto o mundo se despedia.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[87,93,96,94,98,92,99,86,88,91,89,97,95,66,85,84,90],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1275"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1275"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1275\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1931,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1275\/revisions\/1931"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}