{"id":1277,"date":"2009-12-18T21:22:33","date_gmt":"2009-12-18T23:22:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1277"},"modified":"2009-12-21T11:08:26","modified_gmt":"2009-12-21T13:08:26","slug":"o-cotovelo-de-vidro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-cotovelo-de-vidro","title":{"rendered":"O COTOVELO DE VIDRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>I &#8211; O telegrama<\/em><\/p>\n<p>Ainda existem telegramas. Recebi um o\u00adntem, que dizia: &#8220;cheguei procure hotel centro quarto 93&#8221;. Sem assinatura. Ou melhor, com um &#8220;pseud\u00f4nimo&#8221;: Argeu Teodomiro Santiago, que \u00e9 o verdadeiro nome do Cabo Ad\u00e3o. Gelei. O misterioso militar enfim tinha dado as caras. Ia ter de me explicar. Logo agora, perto do lan\u00e7amento do meu romance.<\/p>\n<p>SAFAN\u00c3O NO ELEVADOR &#8211; Arranjei duas horas para sair de o\u00adnde estava. Como o tr\u00e2nsito ficou pior depois do Carnaval, decidi pegar um \u00f4nibus, sen\u00e3o iria gastar uma fortuna em taxi. Cruzei a ponte nova e desovei na rua Butant\u00e3, o\u00adnde fiquei \u00e0 merc\u00ea do barulho do motor (que ocupa lugar dentro do ve\u00edculo, junto com os passageiros, uma solu\u00e7\u00e3o da engenharia marota escravagista), e do calor infernal. Em 20 minutos cruzei a Faria Lima. Subi penosamente a Teodoro Sampaio e depois de uma l\u00e9gua de tempo, aportei na Consola\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m estava tudo engarrafado. S\u00f3 depois de uma hora e meia cheguei na rua Aurora, o\u00adnde se hospedava aquele sujeito que eu citava tanto e que mal conhecia. Meu tempo j\u00e1 estava praticamente esgotado. Mas aquele encontro n\u00e3o podia ser adiado (n\u00e3o sei porqu\u00ea, lembrei fac\u00e3o faiscando ao sol, barulho de rifle, canhoneio). Pisei na sujeira da cal\u00e7ada &#8211; a mesma de milhares de anos atr\u00e1s &#8211; e me arrisquei na portaria do hotel barato, que despencava em tudo, inclusive no vetusto elevador movido a manivela e que ringia \u00e0 menor aproxima\u00e7\u00e3o. Subi at\u00e9 o novo andar, n\u00e3o sem antes levar um susto no s\u00e9timo, quando a pouca luz se foi e o elevador, movido a vapor, estacionou para sempre. Como estava munido de toda paci\u00eancia do mundo, aguardei. S\u00f3 depois notei que o bicho subiu dois andares quando tudo ainda estava escuro. Algu\u00e9m puxava o dito pelo cangote. Desconfiei quem poderia ser.<\/p>\n<p>LEN\u00c7O BRANCO &#8211; Mas a porta abriu e eu n\u00e3o enxergava ningu\u00e9m. Acendi um f\u00f3sforo depois de algumas tentativas frustradas, pois costumo guardar os palitos usados dentro da caixa. Fui queimando os dedos por um dos corredores, mas tive de voltar. Era no outro lado, o que dava para uma janela min\u00fascula, gradeada, que lan\u00e7ava uma luz fosca do dia l\u00e1 fora, abafado e com nuvens pesadas. Finalmente consegui que um dos \u00faltimos f\u00f3sforos iluminasse o n\u00famero 93, que estava torto, carcomido em seu metal de nenhuma categoria. Fui bater, mas uma chama atr\u00e1s de mim chamou a aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; 1893, disse uma apari\u00e7\u00e3o, que se confundia numa dobra do corredor. A guerra da degola!<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Argeu! exclamei, no susto.<\/p>\n<p>O outro empertigou-se. N\u00e3o gostava de ser tratado como civil. Usava ainda farda da Brigada Militar, no tempo em que essa tropa era um ex\u00e9rcito bem municiado e em a\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>&#8211; Cabo Ad\u00e3o, \u00e0s suas ordens, se n\u00e3o for inc\u00f4modo me chamar assim, disse.<\/p>\n<p>Vi ent\u00e3o o reflexo da luz que entrava filtrada pela janela do corredor nos bot\u00f5es outrora dourados da sua farda amarela. Notei tamb\u00e9m que a vestimenta estava limpa, quase passada e que para completar o quadro faltava apenas um capacete. Mas o que se destacava era o imenso len\u00e7o branco pendurado no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre fui chimango, disse. O senhor n\u00e3o tem nada contra os blancos, tem, senhor escritor? Ou prefere os maragatos como aquele&#8230;<\/p>\n<p>(deu uma cuspidinha de lado)&#8230;<\/p>\n<p>-&#8230;teu &#8220;general&#8221; (sua entona\u00e7\u00e3o pedia aspas) Hon\u00f3rio de Lemos.<\/p>\n<p>&#8211; Sou isento, cabo Ad\u00e3o, disse, me aproximando. Para mim tanto faz.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 quem sabe. Mas \u00e9 bom lembrar que teu tio Waldemar era do nosso lado. Usava tamb\u00e9m len\u00e7o branco naquelas guerras todas.<\/p>\n<p>Talvez por isso cabo Ad\u00e3o me tratasse com um pouco mais de considera\u00e7\u00e3o do que Hon\u00f3rio. Mas uma d\u00favida me ocorreu:<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9, Hon\u00f3rio me falou que o tio tinha lhe curado de um bala\u00e7o na paleta.<\/p>\n<p>BALA\u00c7O &#8211; Cabo Ad\u00e3o sorriu-se todo. Mostrava com isso que sabia mais, apesar de eu ter tido encontro cara a cara com Hon\u00f3rio, como est\u00e1 descrito no meu novo romance.<\/p>\n<p>&#8211; Ele foi nosso prisioneiro e a bala era minha. Te assustaste?<\/p>\n<p>O branco de susto da minha cara contrastava com o ambiente. J\u00e1 estava cansado daquelas apari\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; O que o traz a S\u00e3o Paulo, cabo Ad\u00e3o?<\/p>\n<p>O militar fechou a cara em sua posi\u00e7\u00e3o de sentido (coisa que fazia sempre, jamais relaxava).<\/p>\n<p>&#8211; O senhor me convocou. Vim cuidar dos que querem faltar ao lan\u00e7amento do seu romance.<\/p>\n<p>Meti a m\u00e3o na cabe\u00e7a. Por que eu invento essas coisas?<\/p>\n<p>&#8211; Era brincadeira, rapaz&#8230;Ningu\u00e9m pode ser obrigado a ir!<\/p>\n<p>Cabo Ad\u00e3o fechou mais ainda a cara. N\u00e3o acreditava em e-mail, n\u00e3o admitia defec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o gostava de ser convocado em v\u00e3o. Estava, ainda, em guerra.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que o senhor me convocou \u00e0 toa?<\/p>\n<p>&#8211; Foi meu jeito de dizer que gostaria de ver todo mundo l\u00e1. Usei uma met\u00e1fora da fronteira.<\/p>\n<p>Cabo Ad\u00e3o intensificou sua cara de estranhamento. Vi que tinha enorme ruga vertical em cima do olho, que atravessava at\u00e9 o topo da testa preta-mulata, olhos amarelos-terra, sombrancelhas finas, rosto meio ovalado e puxado, como se um \u00edndio tivesse la\u00e7ado uma escrava fugida. Me olhava desconfiado, mas n\u00e3o perdia o respeito:<\/p>\n<p>&#8211; Estarei de plant\u00e3o. Pode deixar que, para os mais renitentes, eu entrego pessoalmente o convite.<\/p>\n<p>Que enrascada! Imaginei algum pobre convidado, recebendo tarde da noite o papel timbrado da editora pela m\u00e3o do guerreiro que fatalmente colocaria o p\u00e9 no v\u00e3o da porta que se abririria, s\u00f3 para garantir a presen\u00e7a. Falei:<\/p>\n<p>&#8211; Estamos ainda confirmando data, hora e local. E ainda n\u00e3o imprimimos o convite.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o faz mal. Eu espero.<\/p>\n<p>E desembrulhou um pacote amassado, marrom, o\u00adnde tinha uma boa quantidade de fumo de corda e com sua faca que tirou da cintura, de tr\u00e1s,come\u00e7ou a fazer um palheiro.<\/p>\n<p>Quando acendeu, lembrei de outro parente meu, o tio Antenor. O pescador de beira de rio. O cara-massada. O sem-dentes contador de causos. O pai de dezenas de filhos e marido de v\u00e1rias esposas. O rei do desalinho. Tio Antenor agora era apenas lembran\u00e7a, palavra que o rio Uruguai sopra, prometendo novas apari\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Escuta aqui, disse Cabo Ad\u00e3o, meio sem cerim\u00f4nia ( o que n\u00e3o era do seu feitio). De que trata afinal o teu livro?<\/p>\n<p>E me olhou com aquele rosto impenetr\u00e1vel, parede de sombra em meio \u00e0 escurid\u00e3o do corredor do hotel, ereto como um marechal, concentrando naquele perfil toda a majestade perdida de um povo. Fiquei, por alguns instantes, completamente mudo antes de responder.<\/p>\n<p><em>II &#8211; O len\u00e7o branco<\/em><\/p>\n<p>A casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os ventos podiam fazer esc\u00e2ndalo na vizinhan\u00e7a, mas nossas portas n\u00e3o batiam. Copa e cozinha eram a mesma pe\u00e7a, e a sala um cotovelo todo ajanelado que dava para a praia de S\u00e3o Jos\u00e9, cidade grudada a Florian\u00f3polis. L\u00e1 mergulhei mais uma vez na literatura, enquanto a fam\u00edlia compartilhava esse trabalho e um espa\u00e7o privilegiado de areia, mar e \u00e1rvores que davam lim\u00f5es, ameixas e bananas.<\/p>\n<p>LUA DE PRATA &#8211; Sentei em frente \u00e0 Olivetti rodeado pela paisagem: pescador que embocava seu fino e comprido barco no rastro do sol rec\u00e9m nascido, lua grande de prata que subia, fazendo ru\u00eddo silencioso de lua cheia. Resgatei o tempo em que estive perto dali dez anos antes, sa\u00eddo de Porto Alegre, quando me reuni com alguns amigos para dividir a mesma casa. O que n\u00e3o esperava era o papel que coube a cada um no texto, que saiu assim, de primeira, como dizem em Uruguaiana. As mem\u00f3rias tornaram-se apenas insumo e ponto de partida.Os personagens ganharam vida pr\u00f3pria e me conduziram para in\u00fameras revela\u00e7\u00f5es. Descobri nossa extrema precariedade, fruto de dupla exclus\u00e3o. Primeiro, est\u00e1vamos fora do mercado (isso em 1972, \u00e9poca em que acontecia a hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m em 1981, quando escrevi aquele relato ficcional, o que diz tudo sobre a crise permanente que se abate sobre nossa profiss\u00e3o). Segundo, est\u00e1vamos fora das decis\u00f5es do centro do pa\u00eds. Praticamente fugimos para a ilha, nossa descoberta daquele tempo, mal imaginando que um dia aquilo iria virar moda, n\u00e3o s\u00f3 entre ga\u00fachos, mas tamb\u00e9m entre paulistas, e agora, mais do que nunca, um im\u00e3 para povos do mundo inteiro. A revela\u00e7\u00e3o maior foi deixar que cada personagem mostrasse a integridade espec\u00edfica de vidas diferentes da minha. Mesmo o personagem que \u00e9 baseado em mim ganhou uma forma totalmente diversa do que eu imaginava. Isso significou um al\u00edvio para a carga que ca\u00eda nas minhas costas. Por meio daquelas pessoas irreais descobri um pouco mais do que somos. Podem chamar de psican\u00e1lise, mas prefiro literatura mesmo. Naquele cotovelo de vidro, escrevi inteira a primeira parte do romance Universo Baldio.<\/p>\n<p>SENTIDO &#8211; Cabo Ad\u00e3o ouviu meu relato acima na sua postura habitual, a de sentido. Fiquei curioso com a maneira cerimoniosa com que me tratava, como se me devesse algo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que o senhor \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio, Cabo Ad\u00e3o? E o que me intriga \u00e9 que certamente \u00e9 muito mais velho do que eu mas aparenta ter trinta anos no m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>O militar tinha colocado parte do seu rosto fora da sombra enquanto acendia outro palheiro, j\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de descansar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s, da Brigada, somos preparados para tudo, disse. E tratamos todos com o maior respeito. Somos legalistas, por isso usamos o len\u00e7o branco. Defendemos o governo, seja quem for. Prefiro o tac\u00e3o do Estado do que a degola das revolu\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>E me olhou, quase de maneira desafiadora. Seu rosto mulato quase escuro de \u00edndio de cabe\u00e7a ovalada tinha no alto um curt\u00edssimo pixaim bem cuidado. Sobrancelhas muito finas, boca firme, falava como quem emitia ordens, mas, paradoxo total, num tom de quem s\u00f3 obedecia.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor se sente em d\u00edvida comigo, cabo Ad\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Devo favores ao seu tio que me salvou na guerra de um monte de ferimentos. E fui amigo do teu pai. Mas o que devo mesmo s\u00e3o as palavras que ouvi do teu tio no dia em que fui humilhado por um tenentinho l\u00e1 no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Lembrei ent\u00e3o da hist\u00f3ria que Waldemar Ortiz contava quando eu era pequeno. De que um anspe\u00e7ada (aquele militar que fica entre o soldado e o cabo), por ser analfabeto, recebeu uma reprimenda no Rio, em plena revolu\u00e7\u00e3o de 30, diante da tropa. Waldemar perfilhou-se e respondeu ao oficial. Disse o velho tio:<\/p>\n<p>&#8211; Esse homem lutou comigo em quatro revolu\u00e7\u00f5es. Merece mais respeito. Na hora de matar, ningu\u00e9m perguntou se sabia ler.<\/p>\n<p>Isso foi dito, claro, depois que a tropa tinha dispersado, um frente ao outro. Mas Cabo Ad\u00e3o tinha escutado tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 da sua fam\u00edlia manda e n\u00e3o pede, disse cabo Ad\u00e3o.<\/p>\n<p>Fez um longo sil\u00eancio, recolheu-se novamente para o canto. Eu estava cansado de ficar de p\u00e9 naquele corredor, cercado por ru\u00eddos de elevador e teto velho.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem um lugar para a gente sentar e conversar? perguntei.<\/p>\n<p>Cabo Ad\u00e3o apagou o palheiro num velho cinzeiro abandonado no canto. Acocou-se para fazer isso. Depois levantou-se, de cabe\u00e7a erguida, como sempre:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ficar de p\u00e9. N\u00e3o \u00e9 hora de descansar. Me conte agora sobre a segunda parte do romance, aquela em que aparece o caudilho.<\/p>\n<p>Dito isso, olhou mais uma vez ao redor, como se estivesse escutando o barulho da espada do general Hon\u00f3rio raspando algum andar acima, o\u00adnde certamente se aquartelava a tocaia dos maragatos.<\/p>\n<p><em>III &#8211; Rumo ao rio Pinheiros<\/em><\/p>\n<p>Cansados do sufoco no corredor do hotel da rua Aurora, sa\u00edmos, o militar Argeu e eu, do centro de S\u00e3o Paulo a bordo de um caid\u00edssimo Jardim Maria Luiza, que poderia nos deixar no Largo da Batata. De l\u00e1, rumar\u00edamos para o rio Pinheiros, o\u00adnde o \u00ednclito personagem queria ver as margens daquilo que um dia foi um rio e hoje \u00e9 alguma coisa perto do esgoto. Ele aproveitou a viagem para falar o que achava do &#8220;Doutor&#8221; Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>SALA E COZINHA &#8211; &#8220;O senhor sabia&#8221;, falei ao cabo Ad\u00e3o, que sentava ao meu lado, no fundo do despencado coletivo, sem que ningu\u00e9m se desse conta da sua presen\u00e7a&#8230;&#8221;que pouco se sabe sobre essas guerras que ensang\u00fcentaram o pa\u00eds de 1893 a 1930? Por que ser\u00e1 que acontece isso?&#8221; O brigadiano tocou a ponta do len\u00e7o branco num gesto t\u00edpico e olhou para fora (o caos do barulho, cal\u00e7adas p\u00f4dres, gente demolida, cansada de ter pressa).<\/p>\n<p>&#8211; Lembro que eu voltava para casa e enfrentava o ponto de interroga\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, que n\u00e3o entendia minha aus\u00eancia por tantos meses. Precisava contar tudo em detalhes para tentar convencer mulher e filhos. Mas n\u00e3o adiantava. J\u00e1 corria a vers\u00e3o de que n\u00e3o havia guerra, apenas escaramu\u00e7as, coisas sem import\u00e2ncia, inven\u00e7\u00e3o dos homens para ficar longe de casa e churrasquear de gra\u00e7a. Naquele tempo, a informa\u00e7\u00e3o vinha a cavalo ou no m\u00e1ximo telegrama. O que pegava mesmo era o boca-a-boca. O pior \u00e9 que eu vinha \u00e0s vezes de uma batalha como a do Ibirapuit\u00e3, no Alegrete, em 1923, quando morreram pelo menos 200. O pasto ficou vermelho. Nem sei como escapei daquilo. A metralha do Lulu Aranha era imparcial: ceifava todo mundo. Aquilo foi a guerra. Vi atos de coragem que nunca mais se repetiram. O general Flores da Cunha dando uma carga de cavalaria em cima da ponte foi uma coisa tremenda. Se acham quie isso tudo foi um passeio, pior para os historiadores.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que estes s\u00e3o esp\u00e9cies de patr\u00f5es dos fatos: s\u00f3 cuidam das grandes linahs e tend\u00eancias, do atacado da hist\u00f3ria, da parte te\u00f3rica, e deixam o varej\u00e3o \u00e0 merc\u00ea dos contadores de hist\u00f3rias das prov\u00edncias. Ou se t\u00eam acesso \u00e0s fontes, n\u00e3o l\u00eaem direito. Ao contr\u00e1rio dos ingleses, que cuidam de tudo. Para algu\u00e9m falar de f\u00e1brica por l\u00e1, tem de sujar a m\u00e3o de graxa. Aqui, n\u00e3o. Expulsam os fatos para a cozinha e ficam na sala falando asneira.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tenha calma, disse o Cabo Ad\u00e3o. O senhor tem falado coisas sobre Getulio Vargas que nem sempre \u00e9 verdade. O velho caudilho tinha seus m\u00e9ritos e um deles foi pacificar o Rio Grande. Juro que se n\u00e3o fosse ele eu tinha passado o Hon\u00f3rio na faca.<\/p>\n<p>MORTANDADE &#8211; Uma gargalhada ouviu-se l\u00e1 na frente do \u00f4nibus.Lembrei meu encontro do Hon\u00f3rio na Mooca, como est\u00e1 descrito no romance que lan\u00e7o dia primeiro de abril. Seria ele?<\/p>\n<p>&#8211; Mas o velho pagou pelos seus erros, que foram muitos. Confesso que fiquei impressionado quando ele driblou americanos, nazistas e fascistas, na \u00e9poca em que eles se dedicavam \u00e0 mortandandade m\u00fatua. Mas ao mesmo tempo inventou um monte de novos coron\u00e9is, deu sopa para o azar. Acabou dando um tiro no cora\u00e7\u00e3o, pois um guerreiro jamais deixa seu destino nas m\u00e3os alheias. Foi um ato de guerra o 24 de agosto de 1954. Meteu uma bala no peito para n\u00e3o deixar colocarem a m\u00e3o nele. Homem de valor. Mas sua heran\u00e7a \u00e9 p\u00edfia. Esse tal de Brizola \u00e9 um trapalh\u00e3o. Abra\u00e7ou-se com tudo que \u00e9 inimigo. \u00c9 por isso que o teu trabalhismo \u00e9 uma causa perdida.<\/p>\n<p>Silenciei. Costumava ser um ouvido atento e uma l\u00edngua afiada. Diante de uma fonte como aquela, nada tinha a dizer. Estava cansado demais.<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed, insistiu o cabo Ad\u00e3o (j\u00e1 est\u00e1vamos perto do fim da linha). Do que trata a segunda parte do teu romance?<\/p>\n<p>Falei a hist\u00f3ria do cara que estava aborrecido na metr\u00f3pole e encontrou o fantasma de Hon\u00f3rio. Cabo Ad\u00e3o n\u00e3o se impressionou muito. Contei mais detalhes. Ele ficou escutando. T\u00ednhamos descido do \u00f4nibus e chegamos na ponte da Eus\u00e9bio Matoso. Descemos at\u00e9 a beira do rio. Cabo Ad\u00e3o acocou-se e olhou para a \u00e1gua imunda.O cheiro era insuport\u00e1vel. De repente amea\u00e7ou levantar-se diante do ruflar de asas de uma gar\u00e7a. Ao mesmo tempo, seu ouvido captou, longe (vi pelo gesto brusco da cabe\u00e7a) o tchibum de uma capivara.<\/p>\n<p>&#8211; Tem ainda capincho e gar\u00e7a nesta jo\u00e7a, disse ele. Nem tudo est\u00e1 perdido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os ventos podiam fazer esc\u00e2ndalo na vizinhan\u00e7a, mas nossas portas n\u00e3o batiam. Copa e cozinha eram a mesma pe\u00e7a, e a sala um cotovelo todo ajanelado que dava para a praia de S\u00e3o Jos\u00e9, cidade grudada a Florian\u00f3polis. 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