{"id":1281,"date":"2009-12-18T21:25:30","date_gmt":"2009-12-18T23:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1281"},"modified":"2009-12-21T20:12:55","modified_gmt":"2009-12-21T22:12:55","slug":"a-palavra-que-ninguem-enterra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-palavra-que-ninguem-enterra","title":{"rendered":"A PALAVRA QUE NINGU\u00c9M ENTERRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Tocaia na seca: as surpresas do novo romance de Moacir Japiassu <\/em><\/p>\n<p>Linguagem \u00e9 territ\u00f3rio livre, mas n\u00e3o deveria estar aberta a certas liberdades. Se o lugar escolhido para moradia for a Para\u00edba, as palavras precisam seguir a orienta\u00e7\u00e3o ditada pela sabedoria da terra, e cuidar principalmente da tocaia. Um tiro pela culatra \u00e9 o que menos aguarda um \u00edndio que se aventure na seca abra\u00e7ada \u00e0 areia. O que mais assusta \u00e9 a desventura de ver sua catedral de palha &#8211; a percep\u00e7\u00e3o que at\u00e9 o momento se alimenta do mundo &#8211; sofrer o rev\u00e9s de um p\u00e9 de vento. Mas para quem \u00e9 estrangeiro, e queira visitar essas paragens, nada mais resta do que tratar o assunto com as hip\u00e9rboles do seu espanto, j\u00e1 que o n\u00e3o-nordestino sofre de escassez de entendimento quando se trata de abra\u00e7ar a Terra do Sol.<\/p>\n<p>Um advent\u00edcio, especialmente se for criado nas lonjuras sulistas, quando lhe bate a luz excessiva na cara cai na tenta\u00e7\u00e3o de lembrar o \u00f3bvio, de que o caminho escolhido para a Cria\u00e7\u00e3o do mundo foi o verbo, o romance do G\u00eanesis. Deus, prudente, preferiu aliar o testemunho por escrito aos seus gigantescos atos. N\u00e3o fosse assim, quem garantiria cr\u00e9dito ao seu desmesurado esfor\u00e7o? E, melhor: n\u00e3o fosse pela palavra, quem poderia garantir que a encomenda fosse entregue no endere\u00e7o certo? Pois n\u00e3o bastava inventar, era preciso inventar escrevendo. E assim foi feito o primeiro Livro, do qual todos os outros s\u00e3o apenas imagem e semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>O viajante traz na bagagem os arquivos a que est\u00e1 acostumado e quando depara com a Para\u00edba, por exemplo, \u00e9 capaz de desistir da empreitada, pois tudo o que v\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 amarr\u00e1-lo a semelhante paisagem, j\u00e1 que nada ali tem seu feitio, a n\u00e3o ser o idioma, termo mais apropriado do que l\u00edngua, que serve para diversas licenciosidades. \u00c9 agarrado ao idioma que o viajante entra na Para\u00edba, guiado por Moacir Japiassu, que tem, com qualquer viajante, uma identifica\u00e7\u00e3o plena. Pois ele tamb\u00e9m, um confesso paraibano auto-exilado, serviu-se da viv\u00eancia estrangeira para depurar sua cria\u00e7\u00e3o e entrou de volta n\u00e3o com a curiosidade dos turistas, nem com a condescend\u00eancia dos que se iludem com os grandes centros, mas com a gana do combatente que volta para algum tipo de desforra.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que se diga: n\u00e3o se trata de vingan\u00e7a, pois nenhum esp\u00edrito mau sobrevive ao fogo do amor pelo lugar que nos viu nascer e crescer. Mas porque o escritor est\u00e1 empenhado em uma miss\u00e3o intransfer\u00edvel: a de resgatar o que perdeu, tornando essa heran\u00e7a t\u00e3o viva para os outros como foi para ele um dia; e t\u00e3o maior do que qualquer mundo presente.<\/p>\n<p>Todos que est\u00e3o ao redor de um possu\u00eddo incorporam as raz\u00f5es da advert\u00eancia e confidenciam a quantidade de perigos que sugere esse estado. Mas quem \u00e9 possu\u00eddo n\u00e3o pela desraz\u00e3o, mas pela Cria\u00e7\u00e3o obstinada, sabe que n\u00e3o pode voltar atr\u00e1s. Ele precisa, como Japiassu fez, colocar em a\u00e7\u00e3o o moto cont\u00ednuo de sua febre, composto de uma biblioteca afundada no ermo; um assobiador que \u00e9 misto de virtuose, intelectual e torturador; um senhor de engenho do mando e do cutelo, dono de escravaria jagun\u00e7a; outro senhor de engenho solteir\u00e3o e cheio de remorso; uma sogra carola e terr\u00edvel; uma esposa ap\u00e1tica; uma professorinha na flor do vi\u00e7o e tentada pela esperteza; mais um padre que faz cruzada contra a jogatina. O sez\u00e3o de Japiassu n\u00e3o se contenta, por\u00e9m, em dispor esses personagens entre o canavial e a choupana, entre a igreja e a varanda, entre povoados que, no escuro, como ele diz, aglomeram as casas com medo da escurid\u00e3o. Seu del\u00edrio o leva para mais longe.<\/p>\n<p>Ele precisa descobrir, portanto inventar, o engenho de duas guerras acavaladas e isso s\u00f3 pode ser feito se for um leitor compulsivo de tudo o que as armas fizeram nesta na\u00e7\u00e3o, onde todos pensam que sabem, mas poucos sabem o que pensam. A revolta de Princesa, no interior da Para\u00edba, a cavaleiro da revolu\u00e7\u00e3o de 30, movimento nacional visto aqui pelo prisma revelador do Nordeste, s\u00e3o os espa\u00e7os hist\u00f3ricos da sua incurs\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria m\u00edtica do Pa\u00eds, ao que nossos pais nos contavam e nenhum livro oficial de Hist\u00f3ria dava cr\u00e9dito. Como as guerras, no Brasil, convivem com as vers\u00f5es que as negam, cabe \u00e0 literatura desencavar o rebento retido nessa gravidez tardia, que envenena o corpo do Brasil disforme, prenhe de gaiatices sobre revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O paradoxo \u00e9 que o material de Japiassu \u00e9 exatamente essa humanidade sinistra e ao mesmo tempo galhofeira, que \u00e9 protagonista nos fatos e algoz nas vers\u00f5es. O campo de a\u00e7\u00e3o de um escritor fica duplamente minado e agora podemos entender quando Japiassu fala do trabalho que deu reescrever cap\u00edtulos inteiros, adaptando a linguagem do narrador \u00e0 fala das personagens. Esse trabalho \u00e9 fruto do ex\u00edmio talento aliado \u00e0 persist\u00eancia sertaneja, j\u00e1 que Japiassu d\u00e1 um boi para adiar a escrita de um livro (seus grandes romances s\u00f3 sa\u00edram nos \u00faltimos anos, depois de d\u00e9cadas de milit\u00e2ncia na imprensa) e uma boiada para sair dele com a consci\u00eancia do dever cumprido. O funcionamento desse mundo, que ele resgata inventando, passa pela cuidado extremo com o detalhe, como o levantamento minucioso de cada pe\u00e7a musical cl\u00e1ssica, por exemplo; ou as pistas deixadas pelas revolu\u00e7\u00f5es incompreendidas, entre trechos de jornais, manchetes, documentos; ou mesmo o cruzamento entre o clima da terra e o \u00e2nimo das pessoas, a geografia e a anatomia. Faz tudo isso usando muitas vezes a linguagem dos brutos: o sexo tem tratamento frontal (mas \u00e9 praticado de todos os lados), os xingamentos especializam-se na demoli\u00e7\u00e3o das biografias, o fedor antecipa o tiroteio e assim por diante. E cuida em definir-se pelo pudor dos verdadeiros criadores &#8211; ningu\u00e9m fica sabendo se Isa\u00edas, o assobiador, \u00e9 filho do padre Saba\u00f3 (se Isa\u00edas n\u00e3o sabe, porque o autor vai lhe devassar esse segredo)? Tudo intercalado (para evitar pomposidades) pela gargalhada expl\u00edcita &#8211; rea\u00e7\u00e3o comum do leitor em v\u00e1rias passagens do livro.<\/p>\n<p>Sua galeria de personagens inclui tantas figuras fundamentais, que elenc\u00e1-las numa resenha parece ser o relat\u00f3rio do viajante iludido em levar o romance como lembran\u00e7a. O jornalista do jornal Imprensa \u00e0s Suas Ordens, c\u00famplice do assassinato do presidente Jo\u00e3o Pessoa, ilumina as origens de um conterr\u00e2neo tornado ilustre, Assis Chateaubriand; o Jos\u00e9 Am\u00e9rico recriado aqui revela o lado desconhecido da Revolu\u00e7\u00e3o de 30, com suas contradi\u00e7\u00f5es no bojo da luta; o conde cafet\u00e3o e a soprano l\u00edrica amante do pol\u00edtico poderoso s\u00e3o um ensaio sobre os bastidores de um movimento que ainda guarda in\u00fameros enigmas. N\u00e3o satisfeito, Japiassu ainda brinda o leitor com os antecedentes de toda a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social do Nordeste ao colocar em praticamente dois par\u00e1grafos (p\u00e1ginas 185 e 186) as origens da Rep\u00fablica por meio de ilustres figuras da transi\u00e7\u00e3o, vindas do Imp\u00e9rio. Parece um confeito no bolo da noiva, mas \u00e9 mais uma bala nesse rifle recheado.<\/p>\n<p>Estamos longe de ver no concerto de Japiassu apenas uma obra did\u00e1tica, j\u00e1 que ele compartilha do caos que representa sem d\u00f3. Mas ele mant\u00e9m a majestade do Maestro que ensina ao impor sua reg\u00eancia. Seu romance reinventa a import\u00e2ncia do seu autor, assim como estabelece um novo par\u00e2metro na terra calcinada da literatura brasileira. O autor, imbu\u00eddo da sua miss\u00e3o e do seu destino, avisa que os mortos n\u00e3o foram enterrados, nem o ser\u00e3o t\u00e3o cedo. Que os enterrados vivos mordem. Que os exclu\u00eddos da Hist\u00f3ria sempre voltam. Que Deus, mesmo para os anti-clericais, est\u00e1 vendo tudo. E que a puni\u00e7\u00e3o ser\u00e1 severa se tentarem ignorar mais este acontecimento cultural, que refor\u00e7a a necessidade de o Brasil criar grandes livros, e n\u00e3o apenas literatura descart\u00e1vel.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento conta ainda, na apresenta\u00e7\u00e3o, com um texto de Wagner Carelli, que n\u00e3o por acaso \u00e9 o seu editor: Carelli escreve como poucos e guia-se pelo pr\u00f3prio talento para sintonizar os seus editados. Carelli define o livro como um \u00e9pico &#8220;capaz de ser poderoso como um sinfonia de Mahler &#8211; mas que se l\u00ea r\u00e1pida, clara e deliciosamente como uma partitura de Mozart&#8221;. No posf\u00e1cio, brilha a an\u00e1lise de Jos\u00e9 N\u00eaumanne, que enriquece a leitura com sua cultura certeira e empresta a este resenhista sua mais preciosa met\u00e1fora, a da tocaia sertaneja.<\/p>\n<p>Diante de um homem como Moacir Japiassu, ungido pelo dom da Cria\u00e7\u00e3o e apoiado pela cavalaria andante do talento, \u00e9 prudente n\u00e3o exceder-se na conversa, j\u00e1 que se trata de um soldado marcado pela guerra. Diante de um escritor como ele, quem tem ju\u00edzo cala e escuta. E quem tiver respeito, apresenta armas.<strong><em>Concerto para Paix\u00e3o e Desatino &#8211; Romance de uma Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira<\/em> &#8211; <\/strong><em>Moacir Japiassu (Editora Francis, 350 p\u00e1ginas, apresenta\u00e7\u00e3o de Wagner Carelli, posf\u00e1cio de Jos\u00e9 N\u00eaumanne)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paradoxo \u00e9 que o material de Moacir Japiassu, em seu romance Concerto para paix\u00e3o e desatino \u00e9 essa humanidade sinistra e ao mesmo tempo galhofeira, que \u00e9 protagonista nos fatos e algoz nas vers\u00f5es. O campo de a\u00e7\u00e3o de um escritor fica duplamente minado e agora podemos entender quando Japiassu fala do trabalho que deu reescrever cap\u00edtulos inteiros, adaptando a linguagem do narrador \u00e0 fala das personagens. Esse trabalho \u00e9 fruto do ex\u00edmio talento aliado \u00e0 persist\u00eancia sertaneja, j\u00e1 que Japiassu d\u00e1 um boi para adiar a escrita de um livro (seus grandes romances s\u00f3 sa\u00edram nos \u00faltimos anos, depois de d\u00e9cadas de milit\u00e2ncia na imprensa) e uma boiada para sair dele com a consci\u00eancia do dever cumprido.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1281"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1281"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1281\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1588,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1281\/revisions\/1588"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}