{"id":1283,"date":"2009-12-18T21:26:45","date_gmt":"2009-12-18T23:26:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1283"},"modified":"2009-12-18T21:26:45","modified_gmt":"2009-12-18T23:26:45","slug":"o-folego-o-fole-o-sopro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-folego-o-fole-o-sopro","title":{"rendered":"O F\u00d4LEGO, O FOLE, O SOPRO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>Fala o fole da sanfona\/ fala a flauta pequenina\/ que o melhor vai vir agora\/ que desponta a bailarina\/Que seu corpo \u00e9 de senhora\/que seu rosto \u00e9 de menina\/Quem chorava j\u00e1 n\u00e3o chora\/quem cantava desafina\/ que a dan\u00e7a s\u00f3 termina\/ quando a noite for embora (Sidney Miller, em O Circo).<\/em><\/p>\n<p><strong>TORNO <\/strong>&#8211; Romance \u00e9 f\u00f4lego e embocadura. Um n\u00e3o sobrevive sem outro, assim como n\u00e3o se estabilizam numa obra sem a argamassa do talento, material perec\u00edvel que poderia secar ao relento por falta de uso. O talento pode parecer fonte generosa de literatura, mas sendo argamassa tamb\u00e9m d\u00e1 trabalho, pois \u00e9 feito de insumos b\u00e1sicos, esses sim fartos. Como a \u00e1gua e o cal (que o exagero das compara\u00e7\u00f5es pode sugerir sensibilidade e lucidez), eles ganham tessitura pr\u00f3pria se forem misturados corretamente numa criatura ao nascer, ou quando se desenvolvem nos terrenos banhados pela Gra\u00e7a. Ao contr\u00e1rio da poesia, que \u00e9 ar puxado para dentro e existe mesmo em respira\u00e7\u00e3o curta, o romance expira o mundo que inventa e com ele divide a loteria de permanecer ou sumir do mapa. O romance sai e \u00e9 trabalhado por esse fole cultivado no torno duro do exerc\u00edcio, ferramenta que pode desafinar se n\u00e3o for bem torneada, e quebrar se n\u00e3o estiver \u00e0 altura do esfor\u00e7o feito pelo autor.<\/p>\n<p><strong>ABISMO<\/strong> &#8211; Por sua forma\u00e7\u00e3o e grandeza, Tailor Diniz est\u00e1 no avesso desse tipo de met\u00e1fora para seu of\u00edcio. Entretanto, por op\u00e7\u00e3o deste texto que aborda seu romance in\u00e9dito, A Vampira do Lago, ele n\u00e3o escapa ao destino dos romancistas: ganha f\u00f4lego ao desenhar o canal por onde sair\u00e1 seu sopro, e tem o cuidado, como todo escritor de grande porte, de deixar bem azeitadas as aberturas do seu teto, a realidade por onde entra o alimento que declara a guerra. Ciente da gravidade da tarefa, ele cultiva o talento n\u00e3o como jardim, mas como canteiro de obras. Seu edif\u00edcio \u00e9 org\u00e2nico, feito da palavra certa, da descri\u00e7\u00e3o completa, da rede fina e eficiente tecida em fios de civilizada compet\u00eancia. Um trabalho t\u00e3o bem acabado que dispensa o elogio da resenha e nos obriga ao abismo do ensaio.<\/p>\n<p><strong>TRAMA<\/strong> &#8211; A composi\u00e7\u00e3o das falas em A Vampira do Lago \u00e9 uma obra admir\u00e1vel de engenharia liter\u00e1ria porque nos engana o tempo todo. Primeiro, porque o depoimento pessoal \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o objetiva, se n\u00e3o dos fatos, pelo menos da geografia escolhida, o norte do Rio Grande do Sul rodeado por represas e traumatizado pela expropria\u00e7\u00e3o das hidrel\u00e9tricas. Essa objetividade serve para nos encantar por termos acesso a lugares que nunca visitamos e ficam se descortinando nos m\u00ednimos detalhes na nossa frente. Mas serve tamb\u00e9m para nos enredar na trama que se desenrola na pequena cidade de Novas Trigais e assim nos confundir na viagem para impactar no desfecho. Artimanha de escritor, poder\u00e3o dizer, mas \u00e9 mais do que isso. \u00c9 den\u00fancia mesmo, pois a descri\u00e7\u00e3o da paisagem \u00e9 nossa principal fonte de equ\u00edvocos. E \u00e9 den\u00fancia porque esses equ\u00edvocos condenam os homens desse lugar que, apesar de viverem num territ\u00f3rio expropriado pela tecnologia, insistem em enxergar o mundo ditado pelo ch\u00e3o que n\u00e3o existe mais, pelo menos n\u00e3o existe da mesma forma com que foi descrita desde tempos remotos.<\/p>\n<p><strong>RITUAIS<\/strong> &#8211; Em segundo lugar, a presen\u00e7a do narrador tradicional, que aparece em cap\u00edtulos alternados ao depoimento pessoal, serve para nos colocar diante de outra armadilha: a de que estamos seguindo o entrecho com a certeza emitida pelos contadores de hist\u00f3rias. Essa \u00e9 mais uma den\u00fancia, pois os causos contados est\u00e3o enlameados pela linguagem xucra n\u00e3o do tradicionalismo (pode at\u00e9 parecer, na maior parte dos casos), mas pela maneira com que esse tradicionalismo \u00e9 trabalhado pela divis\u00e3o de classes. S\u00e3o os poderosos que se apropriam da linguagem crioula, adonando-se assim dos festejos e dos rituais c\u00edvicos, j\u00e1 que esses s\u00e3o reitera\u00e7\u00f5es de poder. Mas isso \u00e9 desmascarado nas bordas dessa viv\u00eancia, no bordel onde se desenrola o cap\u00edtulo mais impressionante &#8211; quando h\u00e1 orgasmo e assassinato, pederastia e sedu\u00e7\u00e3o, gargalhada e esc\u00e2ndalo. \u00c9 ali, neste cap\u00edtulo feito de fogo, espinha dorsal por onde o leitor pode montar com seguran\u00e7a para sentir a f\u00faria do animal em que o romance se transforma, que Tailor Diniz alcan\u00e7a o perfil raro desse esp\u00e9cime em extin\u00e7\u00e3o, o grande romancista, que por algum tempo foi colocado no passado, mas que sobrevive porque essa \u00e9 uma arte que a humanidade conquistou e jamais vai abrir m\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>TR\u00d3IA<\/strong> &#8211; As falas coadjuvantes, que nos ajudam a montar no cavalo colocado festivamente na Tr\u00f3ia da nossa percep\u00e7\u00e3o desatenta, s\u00e3o tamb\u00e9m murais do tosco mundo onde vivemos. Os textos da imprensa falada e escrita desse Brasil profundo, crivados de lugares comuns como um S\u00e3o Sebasti\u00e3o exasperado de dor, s\u00e3o como barcos \u00e0 deriva que cruzam as d\u00e9cadas parecendo que v\u00e3o afundar, mas que mant\u00e9m-se \u00e0 tona com todas as suas mis\u00e9rias. Por n\u00e3o ser um catequista nem um moralista medieval, Tailor Diniz traduz esses textos para o encanto do seu romance, que pode ser comparado a um andor em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1guas profundas do lago, l\u00e1 onde jaz enterrado nosso maior tesouro, o que perdemos para sempre nesta vida ingrata.Quando o leitor se der conta, ser\u00e1 tarde demais. Sucumbir\u00e1 diante desse artefato de cobre que acaba de esfriar depois de uma temporada no alto forno. Ficar\u00e1 mudo diante do tombo preparado pelo autor, que encarna o poder aparentemente mais fr\u00e1gil neste pampa dominado pela barb\u00e1rie, mas que se revela o mais afiado, o mais profundo, o mais eficaz e o \u00fanico que tem chances de permanecer: o das criaturas que v\u00eaem com olhos livres, que sentem sem as amarras da cultura, que observam sem participar da brutalidade e que por isso sofrem o destino para onde foram carregadas. Essas Ana Terras viajadas, essas \u00edndias despertas, esses garotos sem esporas. Essas flores prec\u00e1rias do pampa dominado pelo esterco.<\/p>\n<p><strong>\u00c1RVORE<\/strong> &#8211; Quando desaparecerem as bandeiras, as cornetas, os tambores e toda a tralha das li\u00e7\u00f5es mal apreendidas da Hist\u00f3ria, este romance vai continuar sendo \u00e1rvore no deserto, a que promete sombra mas nos banha de luz, a que promete \u00e1gua mas nos deixa sedentos, a que promete morrer mas sobrevive com seus galhos torcidos, sua estrutura perfeita e sua voz, inaud\u00edvel quando n\u00e3o h\u00e1 o vento da leitura ou da edi\u00e7\u00e3o, mas poderosa no dia em que brotar da terra como um pren\u00fancio de tempestade. Para quem tiver medo diante dessa promessa, \u00e9 bom lembrar que Tailor Diniz \u00e9 dono de circo, onde os palha\u00e7os atiram machados nas costas dos outros para escandalizar os inocentes, e as bailarinas dan\u00e7am sobre o trap\u00e9zio mortal apenas para marcar o ritmo da orquestra e do trajeto da lua no rasgo da lona. O sangue que jorra tamb\u00e9m parece ser artificial, apesar do gosto espesso, do cheiro l\u00fagubre, e desses corpos esquecidos de bru\u00e7os e degolados at\u00e9 o osso. S\u00f3 que no meio da festa existe sempre uma \u00e1ria cantada por um tenor an\u00f4nimo, uma orquestra de c\u00e2mara com violinos inveross\u00edmeis e um apresentador s\u00f3brio, elegante, prudente, impiedoso e ir\u00f4nico, que jamais vai nos dizer o quanto sofreu ou viveu antes de estar aqui, diante de n\u00f3s, comandando o espet\u00e1culo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A composi\u00e7\u00e3o das falas em A Vampira do Lago, romance in\u00e9dito de Tailor Diniz,\u00e9 uma obra admir\u00e1vel de engenharia liter\u00e1ria porque nos engana o tempo todo. 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