{"id":1285,"date":"2009-12-18T21:27:50","date_gmt":"2009-12-18T23:27:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1285"},"modified":"2009-12-21T00:49:46","modified_gmt":"2009-12-21T02:49:46","slug":"vozes-do-silencio-uma-singular-literatura-plural","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vozes-do-silencio-uma-singular-literatura-plural","title":{"rendered":"VOZES DO SIL\u00caNCIO &#8211; UMA SINGULAR LITERATURA PLURAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Estranha literatura a de C\u00edcero Galeno Lopes. Funda-se numa impossibilidade: a de um narrador (um diferente para cada conto) que nunca \u00e9 interrompido. \u00c9 uma forma de identificar-se com a narrativa cl\u00e1ssica que gerou, no s\u00e9culo passado, Riobaldos e Blaus. Hoje sabemos que ningu\u00e9m deixa ningu\u00e9m falar. Vivemos numa civiliza\u00e7\u00e3o de dissid\u00eancias, de estrid\u00eancias entre mon\u00f3logos. Toda a narrativa \u00e9 interrompida &#8211; porque o Outro n\u00e3o existe mais. Na literatura, \u00e9 a cr\u00edtica &#8211; ou melhor o seu sil\u00eancio e insensibilidade &#8211; que corta a narrativa ao meio, impede que o escritor ultrapasse o livro de estr\u00e9ia ou o condena ao limbo. O talento e o of\u00edcio da escrita, no Brasil, tem sempre um p\u00e9 na vala comum do sil\u00eancio em torno.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 de outros sil\u00eancios que se alimenta C\u00edcero, que ajudam a aumentar a densidade da estranheza de sua literatura. Primeiro, a dos despossu\u00eddos. O povo brasileiro vive calado, sentado ou trabalhando, \u00e0 beira do fogo ou da janela, apertado nas grandes cidades, desconfort\u00e1vel onde quer que esteja. N\u00e3o fala, mas nestes livros &#8211; Conto e Contraponto e A Curva da Estrada (ambos pela Editora Movimento) &#8211; o povo n\u00e3o p\u00e1ra de narrar. Para quem? Para um ouvinte imagin\u00e1rio. O truque de Sim\u00f5es Lopes Neto, abra\u00e7ado mais tarde por Guimar\u00e3es Rosa, inventa uma oposi\u00e7\u00e3o entre o narrador analfabeto &#8211; que se manifesta, pela m\u00e3o do autor, num narrador de linguagem sofisticada (por ser recria\u00e7\u00e3o de um palavreado arcaico que encontra novas subst\u00e2ncias no fazer popular) &#8211; e o ouvinte letrado (que torna-se, agora por obra deste autor, num arrogante for\u00e7ado a escutar).<\/p>\n<p>O mon\u00f3logo assim ganha contornos de depoimento policial, de resposta a inquiri\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, de argumenta\u00e7\u00e3o de personagens que est\u00e3o no limite e que usam a fala como \u00faltimo recurso de sobreviv\u00eancia. Mas a contund\u00eancia (irm\u00e3 da estranheza) n\u00e3o vem desses personagens do povo &#8211; todos sofredores e ao mesmo tempo cientes de que o conhecimento repassado pela experi\u00eancia \u00e9 superior \u00e0 posi\u00e7\u00e3o falsamente privilegiada do ouvinte. O impacto nasce da m\u00faltipla arma\u00e7\u00e3o do autor, que omite o leitor verdadeiro &#8211; &#8220;o senhor leia&#8221; \u00e9 um aviso para o ouvinte fict\u00edcio e n\u00e3o para quem est\u00e1 com o livro na m\u00e3o &#8211; e cobre de sombra a ele pr\u00f3prio, o escritor do conto (nunca autobiogr\u00e1fico).<\/p>\n<p>Como ultrapassamos a era da inoc\u00eancia, sabemos que C\u00edcero \u00e9 quem tece a artimanha e por isso deve sofrer a desconfian\u00e7a: onde est\u00e1 a sinceridade, se o povo que fala \u00e9 fict\u00edcio (lembra o povo brasileiro, real, que cala) , se o poder de quem ouve n\u00e3o se manifesta (lembra as hierarquias, reais, onipresentes), se a linguagem usada \u00e9 inveross\u00edmel (porque resgata falas reais por meios de linhagens liter\u00e1rias), se o livro est\u00e1 alicer\u00e7ado em impossibilidades?<\/p>\n<p>C\u00edcero importa-se com outra coisa, j\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 disposto a fingir pseudo verdades. Ele se preocupa em denunciar os in\u00fameros sil\u00eancios. Primeiro, o do autor que se apresenta sem se mostrar. Segundo, o dos narradores que cansaram de escutar (falam porque passaram a vida de boca fechada) . Terceiro, o do ouvinte com a l\u00edngua amarrada, sem poder interferir na narrativa, tendo que aceitar o papel de vil\u00e3o em todas as hist\u00f3rias. Quarto, a do leitor, que n\u00e3o se identifca com ningu\u00e9m. Nas duas pontas, autor e leitor s\u00e3o os fantasmas de uma realidade que revela seus clones, narrador e ouvinte.<\/p>\n<p>Denunciar muitos sil\u00eancios por meio de algumas palavras escolhidas \u00e9 a maneira que C\u00edcero encontra de n\u00e3o revelar o Mesmo, mas a diversidade, o Outro oculto. Para isso tece redes improv\u00e1veis, que n\u00e3o servem para fisgar peixes, mas parceiros. Ele \u00e9 como um pescador aposentado que vai para a pra\u00e7a, coloca seu banquinho, amarra a rede ainda por fazer na \u00e1rvore e vai dando ponto com n\u00f3. Dali a pouco algu\u00e9m se abanca. A roda do conv\u00edvio forma um nicho de narrativas, que v\u00e3o e vem, se soltam, se amarram mais adiante. Todos falam, todos escutam. Mas o vento leva na cacunda a sabedoria que ali se acumula. Os personagens dessa roda n\u00e3o se importam. No dia seguinte o autor estar\u00e1 ali, de novo, colocando o conto, apontando o ponto. O que vale \u00e9 a qualidade do fogo, o sabor do amargo, a lembran\u00e7a que traz cada baforada do crioulo.<\/p>\n<p>Dali a pouco a rede fica pronta. C\u00edcero volta para casa e desamarra cada um dos n\u00f3s, para recome\u00e7ar tudo depois. O que vale \u00e9 o im\u00e3 entre cora\u00e7\u00f5es humanos, a conversa em espiral &#8211; seja ela rebuscada, artificial, obl\u00edqua, eficiente, m\u00e1gica ou marginal. Importa o entrecruzamento de vozes, agora transfiguradas em letras impressas, mas vivas. Elas s\u00e3o como uma cole\u00e7\u00e3o de insetos que fingem-se de mortos e, quando ningu\u00e9m est\u00e1 vendo, escapam da caixa para espiar a lua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estranha literatura a de C\u00edcero Galeno Lopes. Funda-se numa impossibilidade: a de um narrador (um diferente para cada conto) que nunca \u00e9 interrompido. \u00c9 uma forma de identificar-se com a narrativa cl\u00e1ssica que gerou, no s\u00e9culo passado, Riobaldos e Blaus. Hoje sabemos que ningu\u00e9m deixa ningu\u00e9m falar. Vivemos numa civiliza\u00e7\u00e3o de dissid\u00eancias, de estrid\u00eancias entre mon\u00f3logos. Toda a narrativa \u00e9 interrompida &#8211; porque o Outro n\u00e3o existe mais. 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