{"id":1289,"date":"2009-12-18T21:29:34","date_gmt":"2009-12-18T23:29:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1289"},"modified":"2009-12-20T23:32:38","modified_gmt":"2009-12-21T01:32:38","slug":"o-leitor-nem-imagina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-leitor-nem-imagina","title":{"rendered":"O LEITOR NEM IMAGINA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\n\u00c9 costume abrir reportagens ou artigos apostando na ignor\u00e2ncia de quem l\u00ea ou na sua incapacidade de imaginar qualquer coisa. Isso tamb\u00e9m se estende aos personagens da mat\u00e9ria. O jornalista que comete essa gafe &#8220;n\u00e3o imagina&#8221; que informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode servir de demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, nem que a articula\u00e7\u00e3o do pensamento n\u00e3o pode ser vista como uma exclusividade de quem escreve, ou que o leitor n\u00e3o merece ser tratado como um indigente mental.<\/p>\n<p><strong>F\u00d3RMULAS <\/strong>\u2013 Uma das constru\u00e7\u00f5es escolhidas \u00e9 &#8220;Fulano jamais poderia imaginar que&#8230;&#8221; \u00c9 uma conclus\u00e3o vazia colocada no in\u00edcio de um texto jornal\u00edstico, o que \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o, pois como voc\u00ea pode concluir antes de propor? Normalmente, o rep\u00f3rter n\u00e3o pergunta se o Fulano imaginou ou n\u00e3o. N\u00e3o se trata de um fato, mas de solu\u00e7\u00e3o de linguagem, de pseudo-cria\u00e7\u00e3o. Outra coisa recorrente \u00e9 o &#8220;leitor desavisado&#8221;. Como voc\u00ea pode garantir que o leitor n\u00e3o est\u00e1 prevenido? Acho que n\u00e3o existem leitores desavisados, eles est\u00e3o bem conscientes que est\u00e3o lendo a mat\u00e9ria, super atentos aos seus erros e normalmente informados sobre o assunto. Pois informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 m\u00e3o \u00fanica, \u00e9 algo compartilhado. N\u00e3o existe, portanto, motivos para arvorar-se numa ascend\u00eancia sem base.<\/p>\n<p>Mais uma: o rep\u00f3rter prop\u00f5e uma pergunta que em tese demandaria uma resposta \u00f3bvia. Ent\u00e3o ele tasca: &#8220;Certo?&#8221; E depois surge com sua magn\u00edfica interven\u00e7\u00e3o: &#8220;Errado!&#8221;. Com perd\u00e3o da palavra, acho esse tipo de coisa de uma babaquice total. Sempre me irrito com isso. Por que n\u00e3o fala logo em vez de tentar criar suspense e demarcar bem o territ\u00f3rio do g\u00eanio que escreve e o bobalh\u00e3o que l\u00ea? Na televis\u00e3o, esses lugares comuns s\u00e3o um assombro de redund\u00e2ncia. Sem falar no dedinho apontado para o telespectador e o sarrinho impl\u00edcito que h\u00e1 quando se referem ao &#8220;sof\u00e1&#8221;. Com o se o telespectador quisesse apenas folgar, estivesse ali no sof\u00e1 \u00e0 merc\u00ea dos jornalistas que levam sua comidinha informativa na boca. Quando falam em sof\u00e1, tenho urtic\u00e1ria. Depois da inven\u00e7\u00e3o do zap, as pessoas que aparecem na TV deveriam ter mais compostura.<\/p>\n<p><strong>ESCUTAR<\/strong> &#8211; Fala-se muito que o jornalista precisa escutar, que todo mundo precisa ouvir, mas n\u00e3o dizem como. Escutar \u00e9 uma atividade em desuso. As pessoas falam ao mesmo tempo e est\u00e3o sempre pensando no que v\u00e3o dizer, por isso fecham-se em copas. O que h\u00e1 s\u00e3o falsas express\u00f5es de aten\u00e7\u00e3o, enquanto o pensamento voa longe. Numa sociedade de escravos como a nossa (em que todo mundo \u00e9 senhor) escutar \u00e9 encarado como um ato passivo de servid\u00e3o. O escravo escutava o feitor de cabe\u00e7a baixa e nem abria a boca. Para insurgir-se contra essa heran\u00e7a at\u00e9 hoje vigente \u2013 o da servid\u00e3o absoluta em plena ditadura \u2013 as pessoas se revoltam abrindo o bico a toda hora. Escutar \u00e9 como escrever um texto, \u00e9 compartilhar com o leitor, ou com quem fala, de algo que \u00e9 comum \u00e0 humanidade. Para escutar \u00e9 preciso limpar a mente de todo pensamento, exercitar-se em entender o que o Outro est\u00e1 dizendo, abrir-se com vontade, apostando que voc\u00ea vai aprender com ele, ou tamb\u00e9m como uma forma de boa educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se deve cair na armadilha de ficar repetindo o que o outro diz simplesmente para esvaziar a frase dele de qualquer poder, para checar se o interlocutor est\u00e1 dizendo agora o que disse o\u00adntem ou h\u00e1 alguns minutos.<\/p>\n<p>Escutar \u00e9 um exerc\u00edcio \u00e9tico. \u00c9 preciso, por isso, deixar de tentar completar as frases do Outro, como se voc\u00ea fosse um servi\u00e7o digital autom\u00e1tico, como se a pessoa que fala n\u00e3o tem mais nenhuma surpresa para voc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>APROPRIA\u00c7\u00c3O DA FALA<\/strong> &#8211; Muita gente s\u00f3 escuta se consegue apropriar-se da fala. Funciona assim: um diz e o outro boceja. De repente, algo parece ser muito interessante. Finge-se que n\u00e3o se est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o, mas da\u00ed a pouco a pessoa vem e aplica exatamente o que foi dito. Como se o Outro jamais tivesse dito nada. Se voc\u00ea reclamar, a\u00ed mesmo que n\u00e3o ser\u00e1 escutado. E se voc\u00ea espernear, fica com fama de reclam\u00e3o. Isso acontece todo o dia. Sinal de que vivemos no meio do desprezo \u00e0 pessoa humana, como acontece em todos os setores da atual ditadura civil em que nos encontramos. O rapaz que foi assassinado depois de derrubar o radar, diz uma testemunha, levou o tiro de algu\u00e9m que nem mostrou arrependimento. &#8220;Matou como se tivesse matado um passarinho&#8221; disse a testemunha. Pois n\u00e3o escutar e apropriar-se da fala alheia \u00e9 tamb\u00e9m um crime contra as pessoas. Gente da elite intelectual faz parte da ditadura quando se apropria da fala dos outros. S\u00e3o os mesmos que desmoralizaram o termo Direitos Humanos no Brasil, deixando que a direita tome conta desse assunto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 costume abrir reportagens ou artigos apostando na ignor\u00e2ncia de quem l\u00ea ou na sua incapacidade de imaginar qualquer coisa. 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