{"id":129,"date":"2005-05-15T14:42:02","date_gmt":"2005-05-15T16:42:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=129"},"modified":"2012-04-08T09:36:19","modified_gmt":"2012-04-08T12:36:19","slug":"2001-o-filme-feito-no-futuro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/2001-o-filme-feito-no-futuro","title":{"rendered":"2001: O FILME FEITO NO FUTURO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Todos os futuros s\u00e3o datados (os dos anos 40 e 50 s\u00e3o de rolar de rir), menos o de 2001, Uma odiss\u00e9ia no espa\u00e7o, a obra-prima de Stanley Kubrick. Assim como n\u00e3o faz parte daqueles futuros imagin\u00e1rios que ficam obsoletos e revelam mais a \u00e9poca em que foram feitos do que qualquer outra coisa, 2001 \u00e9 um filme que pertence ao futuro real, ao qual chegaremos um dia de fato, mas que ainda est\u00e1 longe de acontecer. Visto assim de maneira t\u00e3o radical, posso afirmar que 2001, por estar fixo \u00e0 nossa espera, n\u00e3o deve ter sido feito em 1968, como contam. Ele ainda est\u00e1 por acontecer como obra. Trata-se da \u00fanica prova viva de que o Tempo existe como percep\u00e7\u00e3o e jamais como barreira. Kubrick vislumbrou sua saga no momento em que evadiu-se da sua \u00e9poca e decidiu visitar o Mist\u00e9rio. \u00c9 por isso que o filme encerra tantos enigmas, porque eles se apresentam primeiro para o diretor que n\u00e3o consegue decifrar a todos, para s\u00f3 depois assombrarem os espectadores, que podem enlouquecer de tanto ver.<\/p>\n<p><strong>Respira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na varanda, agora mais refrescante depois de alguns ventos e chuvinhas esparsas, converso com daniduc, o dude, que nos deu a honra de uma visita para matar as saudades. Ele relembra os minutos iniciais do filme, de tela escura; e, depois, da explos\u00e3o na cabine da nave, uma cena completamente sem som. Relembro a longa seq\u00fc\u00eancia que tem como acompanhamento sonoro apenas a respira\u00e7\u00e3o do astronauta. Nunca o superespet\u00e1culo ser\u00e1 t\u00e3o radical. Kubrick antecipou-se, criando o paradigma da est\u00e9tica da humanidade integrada ao espa\u00e7o: lentid\u00e3o, vestes brancas, objetos flutuantes em infinitos espa\u00e7os vazios. Ele chegou a contratar algu\u00e9m para fazer a trilha sonora antes de colocar o Dan\u00fabio Azul na memor\u00e1vel cena da chegada do especialista na esta\u00e7\u00e3o orbital. A assepsia visual, a imposi\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel de imagens definitivas no imagin\u00e1rio humano, al\u00e9m do grande impacto do lend\u00e1rio teodolito como um mensageiro de intelig\u00eancias superiores, fazem parte do acervo desse futuro que nos aguarda. Quando enfim decolarmos da Terra, viveremos em Kubrick, que descobriu nesse corte umbilical o nascimento de uma nova humanidade, voltada para as estrelas. Para realizar seu feito, resgatou o salto dado desde o osso empunhado como arma at\u00e9 o v\u00f4o interplanet\u00e1rio, o corte mais profundo da hist\u00f3ria de todo o cinema. Aquele osso na m\u00e3o do homin\u00eddio transforma o gesto em a\u00e7\u00e3o criadora sem limites. Como poderia Kubrick ter chegado a tanto se estivesse preso naquela \u00e9poca limitada, que virou cult por compara\u00e7\u00e3o com o que veio depois (o apocalipse cultural)?<\/p>\n<p><strong>Teodolito<\/strong><\/p>\n<p>Se o teodolito foi uma imposi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de engolir nas primeiras sess\u00f5es em que nos dedicamos ao filme, imaginem aquele final lis\u00e9rgico, em que ultrapassamos J\u00fapiter e entramos na grandeza real do universo. Aquela viagem de \u00e1cido at\u00e9 os confins at\u00e9 hoje nos atinge como uma insuport\u00e1vel bad trip. Tudo acaba numa cena tradicional, que d\u00f3i de t\u00e3o branca, em que o astronauta, transformado num matusal\u00e9m, tenta ver o\u00adnde se encontra e v\u00ea apenas a si mesmo (destaque no cen\u00e1rio branco) viajando pelo corpo em decad\u00eancia at\u00e9 o imposs\u00edvel, at\u00e9 o renascimento. Para chegar at\u00e9 esse supremo desamparo, ele precisou lutar contra a m\u00e1quina inteligente (pesadelo dos atuais filmes hollywoodianos), desmont\u00e1-la, emudec\u00ea-la, subjug\u00e1-la, venc\u00ea-la. N\u00e3o \u00e9 o del\u00edrio da rob\u00f3tica como o de Spielgerg em Intelig\u00eancia Artificial, ou o do tamb\u00e9m conservador Ridley Scott em Blade Runner, em que o n\u00e3o-humano vence. Essa \u00e9 a maldi\u00e7\u00e3o de 2001: por saber exatamente a for\u00e7a e a dimens\u00e3o do que se op\u00f5e ao humano, \u00e9 nele que se deposita todo o filme. O grande vazio que cercam objetos, pessoas e a\u00e7\u00f5es n\u00e3o significa apenas a aus\u00eancia de mat\u00e9ria. \u00c9 para destacar que o humano \u00e9 o centro dessa trama. \u00c9 a pessoa que preenche todos os espa\u00e7os e tudo mais \u00e9 sup\u00e9rfluo, o resto s\u00e3o os instrumentos da a\u00e7\u00e3o poderosa da humanidade consciente.<\/p>\n<p><strong>Impacto<\/strong><\/p>\n<p>Para saber, \u00e9 preciso ver o que n\u00e3o foi ainda codificado. Codificar n\u00e3o \u00e9 saber, essa j\u00e1 \u00e9 uma fase posterior ao saber. O conhecimento \u00e9 esse impacto inicial em que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma refer\u00eancia, em que voc\u00ea est\u00e1 nu diante do cosmo. Nesse instante, voc\u00ea sabe. Depois, arquiva, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 sabendo. Em Kubrick, saber n\u00e3o \u00e9 compreender, \u00e9 enxergar. O que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea conhece. E o que voc\u00ea v\u00ea realmente (ou deve ver) \u00e9 o que est\u00e1 \u00e0 parte do que te cerca. Por isso voc\u00ea cruza o sistema solar em busca de uma resposta. E quando parece encontrar alguma coisa, ela n\u00e3o faz sentido. Voc\u00ea estende a m\u00e3o e o segredo se revela na sua gigantesca indecifra\u00e7\u00e3o. Porque voc\u00ea \u00e9 a chave, \u00e9 em voc\u00ea que o mundo se desfaz para recome\u00e7ar no instante seguinte, que \u00e9 agora. Nada existe fora de voc\u00ea. Por isso Kubrick acerta, por n\u00e3o trair esse passo fundamental que \u00e9 o humano, seja em que tempo for. Ele apostou certo e sua obra ent\u00e3o desprendeu-se dos seus dedos como um osso ancestral que vira uma nave sem governo. Kubrick descobriu a dobra do tempo, e do futuro nos observa, com seu olhar vazado por todas as rotas errantes da poeira estelar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os futuros s\u00e3o datados (os dos anos 40 e 50 s\u00e3o de rolar de rir), menos o de 2001, Uma odiss\u00e9ia no espa\u00e7o, a obra-prima de Stanley Kubrick. 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