{"id":1291,"date":"2009-12-18T21:30:24","date_gmt":"2009-12-18T23:30:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1291"},"modified":"2009-12-20T20:42:11","modified_gmt":"2009-12-20T22:42:11","slug":"o-jornalismo-como-escola","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-jornalismo-como-escola","title":{"rendered":"O JORNALISMO COMO ESCOLA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea assumir todas as tarefas do jornalismo, da pauta ao fechamento, da reportagem \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, da coluna \u00e0 primeira p\u00e1gina, do caderno cultural ao notici\u00e1rio pol\u00edtico, da nota ao caderno especial, voc\u00ea est\u00e1 apto a colocar todo esse conhecimento n\u00e3o apenas nos redutos da not\u00edcia, mas em todo o espectro da comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 melhor aprendizado, por ser completo, \u00e1rduo e complicado.<\/p>\n<p><strong>UM RIO EM NOSSA VIDA<\/strong> \u2013 O jornalismo, como eu entendo e tive a oportunidade de me envolver, \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o humanista completa, pois aprofunda os princ\u00edpios cl\u00e1ssicos da conviv\u00eancia humana. \u00c9 preciso \u00e9tica, seriedade, talento e suor. \u00c9 um trabalho de equipe, que depende do repasse cont\u00ednuo de conhecimentos, pois a difus\u00e3o do que se aprende viabiliza o trabalho e a sobreviv\u00eancia de todos. N\u00e3o faz sentido, portanto, uma reda\u00e7\u00e3o dividida pela vaidade ou o oportunismo. Compartilhar \u00e9 o verbo principal de um grupo de pessoas que se dedica a refletir, descobrir, prospectar e intervir na realidade. Para que ocorra a forma\u00e7\u00e3o completa do jornalista numa reda\u00e7\u00e3o, deve-se garantir o fluxo das fun\u00e7\u00f5es, o rod\u00edzio de cargos, a comunh\u00e3o de interesses, a admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua, a cr\u00edtica fundamentada, baseada em tudo o que a experi\u00eancia formata n\u00e3o s\u00f3 no presente, como a heran\u00e7a de gera\u00e7\u00f5es passadas, que deixaram seu rastro de luz em inumer\u00e1veis trabalhos. Por mais complexa que seja a atividade jornal\u00edstica, ela obedece a alguns vetores principais que garantem o bom funcionamento e a desenvoltura das reda\u00e7\u00f5es. \u00c9 assim em todos os setores: o r\u00e1dio ainda define muita coisa na televis\u00e3o e as revistas e jornais ainda seguem o que foi formatado h\u00e1 tempos, apesar das moderniza\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>A divis\u00e3o por setores do notici\u00e1rio, os editoriais entre as primeiras p\u00e1ginas, a manchete principal, os cabe\u00e7alhos, a se\u00e7\u00e3o de cartas, o espa\u00e7o nobre das grandes reportagens (cada vez mais raras) s\u00e3o defini\u00e7\u00f5es que cruzam os tempos, significando que a heran\u00e7a, longe de ser uma velharia, \u00e9 uma garantia da continuidade de solu\u00e7\u00f5es que funcionam. Por isso insisto tanto em linhagem no jornalismo, aquele rio de talento e experi\u00eancia que passa pelo jornalismo ao longo do tempo e beneficia as novas gera\u00e7\u00f5es, que antes ou durante o desenvolvimento do seu trabalho, entram em contato com o que h\u00e1 de melhor do que foi feito antes deles.<\/p>\n<p><strong>S\u00cdNTESE<\/strong> &#8211; \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o do jornalista veterano repassar o que sabe para quem est\u00e1 chegando. N\u00e3o se deve deitar na experi\u00eancia, nem vender caro suas li\u00e7\u00f5es. O fundamental \u00e9 a transpar\u00eancia desse processo, para que haja recep\u00e7\u00e3o completa e retorno dos mais jovens. Ao mesmo tempo, o veterano acaba aprendendo muito nessa sintonia, porque a meninada sempre traz muita bagagem boa e n\u00e3o apenas entusiasmo ou inexperi\u00eancia. Dar aten\u00e7\u00e3o a quem chega \u00e9 tamb\u00e9m um ato de humildade: reconhecer que o sabido \u00e9 um presente de quem estava ali quando chegamos, e que nunca se sabe o suficiente, j\u00e1 que o aprendizado \u00e9 para todos, o tempo todo. No fundo, as coisas mais importantes s\u00e3o as mais simples, mas a simplicidade \u00e9 uma s\u00edntese que demanda muita reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Depurar a experi\u00eancia num conjunto de claro de informa\u00e7\u00f5es sobre o exerc\u00edcio profissional n\u00e3o deve ser motivo de exposi\u00e7\u00e3o numa vitrina, mas um acervo exposto ao aprimoramento. A partir disso, quando mais nos aprofundamos nas tarefas jornal\u00edsticas, mais poderemos intervir em outras \u00e1reas. Numa assessoria de imprensa, por exemplo, fazer o servi\u00e7o focado na informa\u00e7\u00e3o e no atendimento ao que os leitores precisam \u00e9 algo que trazemos do jornalismo. No marketing, a sobriedade do jornalismo serve de contraponto ao que a divulga\u00e7\u00e3o traz de superficial ou oportunista. A reda\u00e7\u00e3o de artigos na comunica\u00e7\u00e3o empresarial bebe no que o trabalho dos editorialistas tem de melhor. Numa editora, a formata\u00e7\u00e3o de livros pode obedecer (n\u00e3o obrigatoriamente) ao que a criatividade desenvolvida numa reda\u00e7\u00e3o soube ensinar. E assim por diante.<\/p>\n<p><strong>OS MESTRES<\/strong> &#8211; Com Mino Carta aprendi como fazer uma revista a partir do ponto zero, entre muitas outras coisas. Com Tarso de Castro, do que \u00e9 capaz um caderno cultural e o que pode-se conseguir apostando em pessoas desconhecidas. Com Macedo Miranda, Filho, aprendi a editar textos de revista. Com H\u00e9lio Nascimento, o cl\u00e1ssico cr\u00edtico de cinema de Porto Alegre, a profundidade poss\u00edvel de se alcan\u00e7ar em poucas linhas de resenha. Com Wagner Carelli, a for\u00e7a da imagina\u00e7\u00e3o e das id\u00e9ias pr\u00f3prias. Com Reginaldo Fortuna, a import\u00e2ncia do cruzamento entre o cl\u00e1ssico e o moderno, n\u00e3o s\u00f3 no departamento de arte, mas tamb\u00e9m na reda\u00e7\u00e3o e na fotografia. Com Samuel Wainer, a adapta\u00e7\u00e3o veloz dos recursos escassos ao que se pretende transmitir. Com Cl\u00e1udio Abramo, a dignidade de um diretor de reda\u00e7\u00e3o, o poder da \u00e9tica e a capacidade de um ve\u00edculo impor-se pela postura do seu conte\u00fado. Com M\u00facio Borges da Fonseca, a necessidade de planejar uma edi\u00e7\u00e3o sem abrir m\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o de trabalhar. Com Caco Barcellos, o despreendimento da coragem, um atributo pessoal que nele adquire uma intensidade que nem de longe podemos sonhar. Com Leonid Strelaiev, a fidelidade total ao talento a servi\u00e7o da revela\u00e7\u00e3o \u2013 o que \u00e9 nele n\u00e3o um ornamento, mas um princ\u00edpio de vida, que leva radicalmente at\u00e9 o fim, coisa que tamb\u00e9m n\u00e3o ouso chegar perto, mas que me serve como par\u00e2metro. De todos eles, recebi, como a praia recebe o mar. E a partir desse ponto, procuro devolver \u00e0s \u00e1guas da nossa profiss\u00e3o tudo que aprendi, s\u00f3 pelo prazer de ver os navios partirem novamente, em dire\u00e7\u00e3o ao infinito.<\/p>\n<p><strong>O C\u00cdRCULO DA EDI\u00c7\u00c3O<\/strong> &#8211; Definir o perfil de uma edi\u00e7\u00e3o significa implantar um sistema circular, o\u00adnde a mat\u00e9ria de capa &#8220;pauta&#8221; o que vem a seguir, costura a maioria das p\u00e1ginas, desdobra-se em combina\u00e7\u00f5es afins, cruza refer\u00eancias para complementar leituras e consegue assim impacto e profundidade. As havaianas que est\u00e3o na capa e foram reproduzidas como um selo ao longo da edi\u00e7\u00e3o da Carta Capital desta semana s\u00e3o um exemplo dessa arquitetura, que apresenta-se com a l\u00f3gica de uma constru\u00e7\u00e3o, sem cair na redund\u00e2ncia comum das edi\u00e7\u00f5es feitas sem planejamento.<\/p>\n<p><strong>COER\u00caNCIA<\/strong> &#8211; Para conseguir esse resultado, \u00e9 preciso que a equipe esteja sintonizada, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. H\u00e1 m\u00e1gica tamb\u00e9m, pois o que poderia ser apresentado de maneira dispersa, \u00e9 colado de prop\u00f3sito pelo diretor de reda\u00e7\u00e3o e os editores. \u00c9 claro que h\u00e1 a previs\u00e3o de que essa \u00e9 a abordagem adotada, mas acontece tamb\u00e9m a incr\u00edvel coer\u00eancia da edi\u00e7\u00e3o, que ao estocar in\u00fameros vetores, des\u00e1gua no fechamento impondo-se com uma s\u00edntese que parecia oculta no in\u00edcio do trabalho. Nesta Carta Capital n\u00famero 269, o foco \u00e9 a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda do Brasil, o\u00adnde um p\u00e9 de havaiana de pobre faz par com outra, de milion\u00e1rio. O <em>apartheid<\/em> social e financeiro rebate na cobertura do encontro do FMI no Brasil, e encontra farto material te\u00f3rico na deslumbrante entrevista medi\u00fanica de Karl Marx. Tudo faz sentido quando h\u00e1 rigor e, neste caso, engajamento: o lado do jornalista \u00e9 o da fidelidade aos fatos e a realidade brasileira \u00e9 expl\u00edcita na sua injusti\u00e7a di\u00e1ria e violenta. N\u00e3o h\u00e1 como fugir do sol, que atravessa a peneira. A edi\u00e7\u00e3o aprofunda-se na coer\u00eancia ao exigir tamb\u00e9m seriedade na edi\u00e7\u00e3o de livros, quando Jos\u00e9 o\u00adnofre, o texto maior, garimpa ouro ao falar sobre <em>O Ver\u00e3o em Baden-Baden<\/em>, de Leonid Ts\u00edpkin (que eu desconhecia). A fragilidade das estrelas do entretenimento, a falta de compet\u00eancia nos transplantes de \u00f3rg\u00e3os e tecidos e o perigo do alcoolismo funcionam assim como complemento (sem ficar em segundo plano) do vetor escolhido para costurar a edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso determina\u00e7\u00e3o e compet\u00eancia para conseguir esse tipo de resultado, que ao longo das edi\u00e7\u00f5es torna-se cada vez mais apurado. Por isso uma reuni\u00e3o de pauta \u00e9 um encontro de decis\u00f5es coletivas, de combina\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias, de reflex\u00e3o, e n\u00e3o apenas uma opera\u00e7\u00e3o tapa-buraco. O espa\u00e7o a ser ocupado nas p\u00e1ginas que ainda est\u00e3o em branco \u00e9 uma responsabilidade muito grande para ser deixado ao vento do que se entende por not\u00edcia. Ou \u00e0 deriva de interesses maiores, interfer\u00eancias que surgem de fora do jornalismo. A excel\u00eancia do of\u00edcio \u00e9 a medida de todas as coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea assumir todas as tarefas do jornalismo, da pauta ao fechamento, da reportagem \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, da coluna \u00e0 primeira p\u00e1gina, do caderno cultural ao notici\u00e1rio pol\u00edtico, da nota ao caderno especial, voc\u00ea est\u00e1 apto a colocar todo esse conhecimento n\u00e3o apenas nos redutos da not\u00edcia, mas em todo o espectro da comunica\u00e7\u00e3o. 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