{"id":1293,"date":"2009-12-18T21:31:10","date_gmt":"2009-12-18T23:31:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/o-romance-oculto-bate-na-cela"},"modified":"2009-12-21T00:56:09","modified_gmt":"2009-12-21T02:56:09","slug":"o-romance-oculto-bate-na-cela","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-romance-oculto-bate-na-cela","title":{"rendered":"O ROMANCE OCULTO BATE NA CELA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A literatura \u00e9 uma luz sobre os pr\u00f3prios limites. N\u00e3o os limites do escritor, mas a da arte que n\u00e3o faz concess\u00f5es, que n\u00e3o se d\u00e1 o luxo das apar\u00eancias, e \u00e9 trabalhada longe do que sustenta uma criatura, os sentimentos, especialmente a piedade. \u00c9 a \u00fanica forma de n\u00e3o trair sua mat\u00e9ria-prima, o humano em queda, a maldi\u00e7\u00e3o do existir que leva sempre a um \u00fanico desenlace. Produzir literatura \u00e9 assumir a consci\u00eancia de que a humanidade, a qual se dedica, n\u00e3o \u00e9 um jogo de armar que pode ser recomposto pela palavra. \u00c9 o que nos diz Urariano Mota em Os Cora\u00e7\u00f5es Futuristas, um romance lan\u00e7ado em 1999 no Recife pela Editora Baga\u00e7o e que obteve pouca repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Como a cr\u00edtica ainda n\u00e3o se manifestou, deixando assim espa\u00e7o livre para uma an\u00e1lise que, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias, n\u00e3o possui ainda espa\u00e7o de interlocu\u00e7\u00e3o com seus pares, arrisco dizer que este \u00e9 o mais importante romance dos \u00faltimos vinte anos. O per\u00edodo n\u00e3o \u00e9 escolhido para fazer sombra a autores consagrados, com obras igualmente significativas, mas para caracterizar o confronto desta obra com as artimanhas do sistema que hoje nos rege (com reflexos pesados na exclus\u00e3o de autores). Pois os princ\u00edpios instaurados pelo regime de 1964 (endividamento externo crescente, alinhamento total aos EUA, concentra\u00e7\u00e3o de renda, manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica e aumento explosivo da mis\u00e9ria e da viol\u00eancia) foram vitoriosos pelas armas entre 1969 e 1973 (per\u00edodo a que se refere a maior parte do romance) e estabeleceram-se, a partir de 1985, como institui\u00e7\u00e3o, legitimada por todas as correntes pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O romance de Urariano, com uma trama que se estende at\u00e9 o final do s\u00e9culo passado, \u00e9 um dos livros que nos lembram o quanto ainda vivemos sob o tac\u00e3o do autoritarismo, disfar\u00e7ado agora numa representa\u00e7\u00e3o, a democracia, que foi exigida nas ruas, mas serviu apenas de pretexto para o continu\u00edsmo. Diante de t\u00e3o completa derrota, a literatura volta-se para a porta da caverna o;nde reside. L\u00e1, procura vislumbrar o clar\u00e3o filtrado pelo tempo, que poder\u00e1 dar alguma pista sobre o que realmente acontece no Brasil agora destru\u00eddo na armadilha onde foi apanhado. Estamos presos, mas algo raspa a parede da cela pelo lado de fora. Antes de nos dar esperan\u00e7a, esse ru\u00eddo nos avisa onde estamos e nos pergunta porque continuamos confinados.<\/p>\n<p>Por que Os cora\u00e7\u00f5es futuristas \u00e9 importante? Longe das compara\u00e7\u00f5es entre talentos ou protagonistas liter\u00e1rios, Urariano Mota assume seu posto de autor pelo mergulho (por ter escolhido o mais alto penhasco de onde se atira), pelo v\u00f4o (porque instaura a morada completa, \u00e9tica e filos\u00f3fica, de personalidades condenadas ao esquecimento) e pelo f\u00f4lego (por encontrar oxig\u00eanio no sufoco que permanece). Faz isso sem jamais pagar o tributo ao aned\u00f3tico, ou ao regional ou mesmo \u00e0 nacionalidade (porque \u00e9 de outra t\u00eampera o fogo de que se alimenta), tenta\u00e7\u00f5es a que os escritores brasileiros costumam deixar-se levar para romper o cerco da condena\u00e7\u00e3o do of\u00edcio. Urariano n\u00e3o deixa-se enlear pela Hist\u00f3ria (esse fragmento nobre da Mem\u00f3ria), nem pelo espet\u00e1culo (as baladas do leitor em busca de enredos f\u00e1ceis), nem pelo circo de vaidades (o autor sendo festejado pelo que aparenta). Ele procura outro caminho, mais \u00e1rduo, ao resgatar a miss\u00e3o fundadora da literatura. N\u00e3o \u00e9 outro o motivo de se apontar o narrador do livro como o personagem mais poderoso, j\u00e1 que tem a exata no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o pode servir-se dos seres criados (Samuel, Jo\u00e3o, Carlos, Canhoto, Vev\u00ea) como se fossem uma pizza. Esse fundamento n\u00e3o se entrega \u00e0 mediunidade, o deixar-se levar pelas caricaturas e pelas cenas que saltam aos olhos de um escriba quando ele se mete a estocar as feridas do tempo.<\/p>\n<p>Urariano n\u00e3o finge que n\u00e3o \u00e9 um criador, que est\u00e1 apenas contando uma hist\u00f3ria. Ele posta-se no lugar sagrado a que aspirou, o de reger (para demonstrar que n\u00e3o existe partitura ign\u00f3bil quando escolhemos o humano, seja ele de onde for), o de construir (porque a arquitetura n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a da natureza, mas uma racionalidade) e o de desvelar (com o olhar cru do gado morto que, depois de perder a carca\u00e7a, mant\u00e9m-se aceso como um fogo f\u00e1tuo). Ele sabia onde estava se metendo, mas n\u00e3o tinha outra escolha. A \u00e9tica \u00e9 a pior das condena\u00e7\u00f5es. A ela o escritor de verdade submete-se e em seus bra\u00e7os frios entrega a sua vida.<\/p>\n<p>A\u00c7\u00c3O &#8211; Vamos pegar a mais doce das armadilhas da literatura, a a\u00e7\u00e3o. O que chamam de a\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fuga pela porta dos fundos (e talvez seja por isso que h\u00e1 sempre tiroteio nas cozinhas nos filmes descart\u00e1veis). No lugar de a\u00e7\u00e3o, Urariano prefere relatar a condena\u00e7\u00e3o. Os jovens na faixa dos vinte anos na ditadura M\u00e9dici est\u00e3o condenados pelo que s\u00e3o (pobres, mulatos, negros) vivem (desemprego, exclus\u00e3o social e econ\u00f4mica), mas n\u00e3o pela sua ess\u00eancia. O tutano de cada personagem, entretanto, n\u00e3o s\u00e3o suas leituras ou m\u00fasicas favoritas. Mas sim a intera\u00e7\u00e3o que fazem entre si, apesar das conversas datadas. Importa o que eles realmente sugerem ao narrador, que tateia o tempo todo (e que nessa pesquisa deixa um lastro luminoso para o leitor). A reflex\u00e3o dos personagens em seus debates obedece \u00e0 \u00e9tica do autor: n\u00e3o podem deixar de ser superficiais num primeiro momento, mas tornam-se instrumentos para o que vai sendo aos poucos dilacerado no decorrer do livro. Quando j\u00e1 n\u00e3o existe mais perspectiva de refresco para a roda viva onde est\u00e3o todos metidos, o romance chega ao n\u00facleo do drama. No pipocar das primeiras execu\u00e7\u00f5es, estampadas nos jornais, a segunda parte do livro insurge-se contra o canto de sereia da primeira parte.<\/p>\n<p>ORIGEM &#8211; A execu\u00e7\u00e3o da menina que se declarava subversiva e do garoto que fazia o v da vit\u00f3ria para sentinelas armados, s\u00e3o a p\u00f3lvora por onde se incendeia a obra. N\u00e3o \u00e9 a\u00e7\u00e3o, \u00e9 impacto de bala. N\u00e3o existe movimento quando j\u00e1 houve o desfecho. N\u00e3o existe fuga se voc\u00ea perdeu a guerra dentro do seu cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda quando a luz da entrada da caverna \u00e9 puro veneno. A a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se imp\u00f5e pelo evento, mas pela constata\u00e7\u00e3o. Somos ent\u00e3o respons\u00e1veis pela morte desses meninos, n\u00f3s, os que n\u00e3o lutamos o suficiente e que continuamos de m\u00e3os amarradas? Constru\u00edram em nome deles toda uma gigantesca mentira feita de indeniza\u00e7\u00f5es e palavras ocas como liberdade. N\u00e3o h\u00e1 liberdade se voc\u00ea foi \u00e0 luta mas voltou para jantar. Nem se voc\u00ea foi para o ex\u00edlio e foi anistiado para apertar a m\u00e3o dos tiranos. Ainda pulsa a vida que poderia ter sido e ela est\u00e1 em n\u00f3s, como um c\u00e3o feroz de olho na presa. Ao escritor cabe abra\u00e7ar o que foi jogado fora, recuperar pela linguagem o que os tiros aniquilaram. Urariano foi t\u00e3o fundo que n\u00e3o por acaso reencontra o fundador da l\u00edngua na sua busca. N\u00e3o que preste homenagem a Cam\u00f5es, mas traz dele os poemas que instauram esse clima de perdi\u00e7\u00e3o e luta diante do mesmo destino que afoga os meninos torturados e mortos.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Urariano mant\u00e9m no fio afiado da \u00e9tica. \u00c9 com essa l\u00edngua herdada, que traz na origem o peso da maldi\u00e7\u00e3o de estar vivo, que ele fala de Brasil e de Pernambuco. Mas nem por isso pode ser considerado um escritor confinado \u00e0s fronteiras da na\u00e7\u00e3o, nem identificado de maneira ortodoxa com sua Recife, que neste romance salta aos olhos como um drag\u00e3o vomitado pelas \u00e1guas do rio. O escritor pertence a outro territ\u00f3rio. Nele, extrai o que nos incomoda, mas ao mesmo tempo pode nos salvar, desde que n\u00e3o viremos as costas para ele, nem o tratemos com o desd\u00e9m dos fracos, os que n\u00e3o se entregam aos contempor\u00e2neos por pregui\u00e7a ou vaidade. Ler Os Cora\u00e7\u00f5es Futuristas \u00e9 entender o que a literatura \u00e9 capaz de fazer, neste tempo em que ela parecia perdida, como algu\u00e9m muito querido que sai de nossas m\u00e3os e \u00e9 levado pela correnteza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance &#8220;Os cora\u00e7\u00f5es futuristas&#8221;, de Urariano Mota, com uma trama que come\u00e7a nos anos da ditadura M\u00e9dici e se estende at\u00e9 o final do s\u00e9culo passado, \u00e9 um dos livros que nos lembram o quanto ainda vivemos sob o tac\u00e3o do autoritarismo, disfar\u00e7ado agora numa representa\u00e7\u00e3o, a democracia, que foi exigida nas ruas, mas serviu apenas de pretexto para o continu\u00edsmo. Diante de t\u00e3o completa derrota, a literatura volta-se para a porta da caverna o\u00adnde reside. (Publicado no jornal de literatura Rascunho, de maio de 2005).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1293"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1293"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1540,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1293\/revisions\/1540"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}