{"id":1295,"date":"2009-12-18T21:33:44","date_gmt":"2009-12-18T23:33:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=1295"},"modified":"2009-12-20T23:56:09","modified_gmt":"2009-12-21T01:56:09","slug":"andar-e-ser-observado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/andar-e-ser-observado","title":{"rendered":"ANDAR \u00c9 SER OBSERVADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Todo mundo sabe como John Wayne anda. \u00c9 o caminhar mais imitado do cinema. As pernas possuem vida pr\u00f3pria e h\u00e1 um ritmo diferente no gesto que ele imprime ao tronco. Parece que anda meio de lado, como a espreitar inimigos. Ao mesmo tempo, \u00e9 um andar franco, desassombrado, grandalh\u00e3o. Robert Mitchum tem outro tipo de passo. As pernas v\u00e3o a reboque da sua vontade de andar, fazendo com que seu corpo (encimado por formid\u00e1vel cara de sonso) flutue enquanto os p\u00e9s palmilham territ\u00f3rios h\u00e1 v\u00e1rios segundos deixados para tr\u00e1s. Aprender a andar, para quem sai do ber\u00e7o, j\u00e1 \u00e9 assumir uma identidade. Pelo ritmo, pela postura assumida no caminhar de qualquer um, \u00e9 poss\u00edvel dizer quem ele \u00e9. Por isso atores como John Travolta costumam modificar o passo para criar personagens. Mas quem encontra o passo certo (contundente, personal\u00edssimo) diante da observa\u00e7\u00e3o alheia, n\u00e3o abre m\u00e3o dele, seja o papel que for desempenhado.<\/p>\n<p>BICHO &#8211; Quando aprendemos a andar, descobrimos que essa a\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo acompanhada com aten\u00e7\u00e3o redobrada. O mundo adulto volta os olhos para voc\u00ea, na expectativa e ao mesmo tempo pressionando-o para que voc\u00ea se saia bem da empreitada. \u00c9 importante que uma crian\u00e7a ande, o que ir\u00e1 amenizar o trabalho dado aos adultos. \u00c9 tamb\u00e9m sinal de sa\u00fade f\u00edsica, de coordena\u00e7\u00e3o motora e, infelizmente, de precocidade (a pressa em fazer o nen\u00ea andar \u00e9 que inventa as pernas tortas de tanta gente).<\/p>\n<p>Andar, portanto, \u00e9 ser observado, o que torna essa atividade t\u00e3o fundamental no teatro e no cinema. \u00c9 preciso chamar a aten\u00e7\u00e3o para o personagem a ser criado. Atrair a aten\u00e7\u00e3o alheia \u00e9 fazer a criatura andar. O passo do terror \u00e9 conhecido: p\u00e9 ante p\u00e9, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esfor\u00e7o de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente tr\u00eamulo, ou tr\u00f4pego. A com\u00e9dia usa o andar para compor o riso na cabe\u00e7a da plat\u00e9ia. Buster Keaton \u00e9 duro, com pernas e quadris em movimento burocr\u00e1tico. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palha\u00e7o distorcido pelas luzes do circo. H\u00e1 o andar impercept\u00edvel dos ladr\u00f5es. N\u00e3o se iluda: se voc\u00ea for roubado, n\u00e3o escutar\u00e1 nada. Se escutar, voc\u00ea tem uma chance, o ladr\u00e3o \u00e9 ruim de bola.<\/p>\n<p>O andar furioso \u00e9 curto, apressado. O andar sensual \u00e9 a base bamba de um templo majestosamente curvo. O passo de ganso \u00e9 o nazismo impondo seu tac\u00e3o no mundo. O do marreco s\u00e3o as pernas tortas que pretendem ter um andar militar, mas n\u00e3o conseguem. O andar na ponta dos p\u00e9s te surpreende. O andar duro do salto alto nesta primavera fria \u00e9 um pedido de passagem na cal\u00e7ada estreita. O andar cria espa\u00e7os imagin\u00e1rios diante da c\u00e2mara. \u00c9 uma ferramenta que n\u00e3o pode cair em si, como os ombros. Quando Jos\u00e9 Wilker gira, ele est\u00e1 decidindo que n\u00e3o quer mais estar ali, que vai inventar outro cen\u00e1rio para o seu Giovani se movimentar. Bruna Lombardi como Diadorim andava como se estivesse caindo, o mesmo tipo de passo de Rom\u00e1rio quando se retira do campo. Andar \u00e9 o bicho mais humano que podemos criar.<\/p>\n<p><strong>CHARME <\/strong>&#8211; O andar dos anos cinq\u00fcenta, aprendido nas matin\u00eas, era bem espec\u00edfico em Uruguaiana. Na cal\u00e7ada larga, sab\u00edamos que mil olhos voltavam-se para n\u00f3s. T\u00ednhamos plat\u00e9ia, era preciso caprichar. Havia uma dan\u00e7a comandada pelos ombros e pelo tronco, que se revezavam no impulso para frente. Nesse bambol\u00ea estranho havia o charme de passar a m\u00e3o no topete ou jogar a cabe\u00e7a para tr\u00e1s para acertar o cabelo ca\u00eddo. Uma leve raspadinha com a sola do sapato no ch\u00e3o era admiss\u00edvel, desde que n\u00e3o se exagerasse na dose. Isso dava a impress\u00e3o que atrair\u00edamos garotas tontas com nossa performance. Mas no fim nos reun\u00edamos em grupos nos postes, carros estacionados (j\u00e1 que n\u00e3o t\u00ednhamos carros) para ver olhar o que realmente interessava: o andar das gurias, que costumavam levantar a sola dos p\u00e9s para ganharem altura enquanto iam para frente, ao mesmo tempo em que viravam o rosto para n\u00f3s, felizardos daquela \u00e9poca sem igual. Andar, naquele caso, era observar. Mas quem andava na nossa frente voltava os olhos para nos ver parados. Nunca foi t\u00e3o bom ser plat\u00e9ia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atrair a aten\u00e7\u00e3o alheia \u00e9 fazer a criatura andar. O passo do terror \u00e9 conhecido: p\u00e9 ante p\u00e9, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esfor\u00e7o de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente tr\u00eamulo, ou tr\u00f4pego. A com\u00e9dia usa o andar para compor o riso na cabe\u00e7a da plat\u00e9ia. Buster Keaton \u00e9 duro, com pernas e quadris em movimento burocr\u00e1tico. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palha\u00e7o distorcido pelas luzes do circo.Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Todo mundo sabe como John Wayne anda. \u00c9 o caminhar mais imitado do cinema. As pernas possuem vida pr\u00f3pria e h\u00e1 um ritmo diferente no gesto que ele imprime ao tronco. Parece que anda meio de lado, como a espreitar inimigos. Ao mesmo tempo, \u00e9 um andar franco, desassombrado, grandalh\u00e3o. Robert Mitchum tem outro tipo de passo. As pernas v\u00e3o a reboque da sua vontade de andar, fazendo com que seu corpo (encimado por formid\u00e1vel cara de sonso) flutue enquanto os p\u00e9s palmilham territ\u00f3rios h\u00e1 v\u00e1rios segundos deixados para tr\u00e1s. Aprender a andar, para quem sai do ber\u00e7o, j\u00e1 \u00e9 assumir uma identidade. Pelo ritmo, pela postura assumida no caminhar de qualquer um, \u00e9 poss\u00edvel dizer quem ele \u00e9. Por isso atores como John Travolta costumam modificar o passo para criar personagens. Mas quem encontra o passo certo (contundente, personal\u00edssimo) diante da observa\u00e7\u00e3o alheia, n\u00e3o abre m\u00e3o dele, seja o papel que for desempenhado.<\/p>\n<p>BICHO &#8211; Quando aprendemos a andar, descobrimos que essa a\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo acompanhada com aten\u00e7\u00e3o redobrada. O mundo adulto volta os olhos para voc\u00ea, na expectativa e ao mesmo tempo pressionando-o para que voc\u00ea se saia bem da empreitada. \u00c9 importante que uma crian\u00e7a ande, o que ir\u00e1 amenizar o trabalho dado aos adultos. \u00c9 tamb\u00e9m sinal de sa\u00fade f\u00edsica, de coordena\u00e7\u00e3o motora e, infelizmente, de precocidade (a pressa em fazer o nen\u00ea andar \u00e9 que inventa as pernas tortas de tanta gente).<\/p>\n<p>Andar, portanto, \u00e9 ser observado, o que torna essa atividade t\u00e3o fundamental no teatro e no cinema. \u00c9 preciso chamar a aten\u00e7\u00e3o para o personagem a ser criado. Atrair a aten\u00e7\u00e3o alheia \u00e9 fazer a criatura andar. O passo do terror \u00e9 conhecido: p\u00e9 ante p\u00e9, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esfor\u00e7o de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente tr\u00eamulo, ou tr\u00f4pego. A com\u00e9dia usa o andar para compor o riso na cabe\u00e7a da plat\u00e9ia. Buster Keaton \u00e9 duro, com pernas e quadris em movimento burocr\u00e1tico. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palha\u00e7o distorcido pelas luzes do circo. H\u00e1 o andar impercept\u00edvel dos ladr\u00f5es. N\u00e3o se iluda: se voc\u00ea for roubado, n\u00e3o escutar\u00e1 nada. Se escutar, voc\u00ea tem uma chance, o ladr\u00e3o \u00e9 ruim de bola.<\/p>\n<p>O andar furioso \u00e9 curto, apressado. O andar sensual \u00e9 a base bamba de um templo majestosamente curvo. O passo de ganso \u00e9 o nazismo impondo seu tac\u00e3o no mundo. O do marreco s\u00e3o as pernas tortas que pretendem ter um andar militar, mas n\u00e3o conseguem. O andar na ponta dos p\u00e9s te surpreende. O andar duro do salto alto nesta primavera fria \u00e9 um pedido de passagem na cal\u00e7ada estreita. O andar cria espa\u00e7os imagin\u00e1rios diante da c\u00e2mara. \u00c9 uma ferramenta que n\u00e3o pode cair em si, como os ombros. Quando Jos\u00e9 Wilker gira, ele est\u00e1 decidindo que n\u00e3o quer mais estar ali, que vai inventar outro cen\u00e1rio para o seu Giovani se movimentar. Bruna Lombardi como Diadorim andava como se estivesse caindo, o mesmo tipo de passo de Rom\u00e1rio quando se retira do campo. Andar \u00e9 o bicho mais humano que podemos criar.<\/p>\n<p>CHARME &#8211; O andar dos anos cinq\u00fcenta, aprendido nas matin\u00eas, era bem espec\u00edfico em Uruguaiana. Na cal\u00e7ada larga, sab\u00edamos que mil olhos voltavam-se para n\u00f3s. T\u00ednhamos plat\u00e9ia, era preciso caprichar. Havia uma dan\u00e7a comandada pelos ombros e pelo tronco, que se revezavam no impulso para frente. Nesse bambol\u00ea estranho havia o charme de passar a m\u00e3o no topete ou jogar a cabe\u00e7a para tr\u00e1s para acertar o cabelo ca\u00eddo. Uma leve raspadinha com a sola do sapato no ch\u00e3o era admiss\u00edvel, desde que n\u00e3o se exagerasse na dose. Isso dava a impress\u00e3o que atrair\u00edamos garotas tontas com nossa performance. Mas no fim nos reun\u00edamos em grupos nos postes, carros estacionados (j\u00e1 que n\u00e3o t\u00ednhamos carros) para ver olhar o que realmente interessava: o andar das gurias, que costumavam levantar a sola dos p\u00e9s para ganharem altura enquanto iam para frente, ao mesmo tempo em que viravam o rosto para n\u00f3s, felizardos daquela \u00e9poca sem igual. Andar, naquele caso, era observar. Mas quem andava na nossa frente voltava os olhos para nos ver parados. Nunca foi t\u00e3o bom ser plat\u00e9ia.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1295"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1511,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1295\/revisions\/1511"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}