{"id":132,"date":"2005-05-15T14:44:05","date_gmt":"2005-05-15T16:44:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=132"},"modified":"2009-12-21T20:29:48","modified_gmt":"2009-12-21T22:29:48","slug":"os-atores-em-david-lean","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-atores-em-david-lean","title":{"rendered":"OS ATORES EM DAVID LEAN"},"content":{"rendered":"<div><span style=\"font-family: arial,helvetica; font-size: x-small;\"><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A arte maior do grande cineasta pode ser resumida apenas num plano. Jivago cruza a R\u00fassia para salvar a fam\u00edlia, mas queria mesmo era encontrar Lara, refugiada no interior. A demora do encontro, representada pela intermin\u00e1vel viagem de trem que corta o deserto nevado, deixa o espectador quase sem esperan\u00e7as de que eles voltem a se ver. Mas isso acontece, e de forma magistral: surge a imagem esplendorosa, um girassol que explode em todos os tons do amarelo, de Julie Christie, que olha para n\u00f3s com seus olhos azuis-violeta, como se estivesse vendo, sem acreditar, o amor que enfim chega de longe. Ficamos diante de Julie como um abismo em frente \u00e0 majestade da montanha: ela est\u00e1 incr\u00e9dula, parece contrariada na sua fulgurante apari\u00e7\u00e3o cheia de promessas, de um amor que n\u00e3o se cumpre e que, ao redescobrir uma nova chance, cai em desespero de felicidade contida. O mais impactante \u00e9 que esses poucos segundos antol\u00f3gicos fazem parte do cinema mudo. A m\u00fasica (inesquec\u00edvel dessa obra-prima) se cala e s\u00f3 existe aquele olhar, da atriz que tornou-se eterna com esse papel sem igual. <\/span><span style=\"font-family: arial,helvetica; font-size: x-small;\"><span style=\"color: #004488;\"><strong>Cicatriz<\/strong> <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica; font-size: x-small;\">Lembro a idiotia com que foi recebido Doutor Jivago. Melodrama barato, diziam, torcendo o nariz. Reacion\u00e1rio, urravam os que hoje devem estar adorando o governo revolucion\u00e1rio do sr. Lula. N\u00e3o viram, de verdade, o filme. Come\u00e7a pela narrativa. O protagonista \u00e9 Alec Guiness, que faz o papel do irm\u00e3o comunista do doutor apol\u00edtico. Ele busca uma pista da fam\u00edlia desaparecida, a filha que foi perdida no redemoinho da hist\u00f3ria. Encontra o que procura na figura esqu\u00e1lida, assustada, de Rita Tushingan, que herdou do pai m\u00e9dico o talento para a m\u00fasica. O terremoto russo \u00e9 descrito por Guiness de forma cl\u00e1ssica. A partir de sua narra\u00e7\u00e3o, entramos numa hist\u00f3ria pautada pelo desencontro, o amor, a crueldade, o remorso. Quando Rod Steiger (o Mal) rouba Lara do ref\u00fagio dos amantes, Jivago corre desesperado escada acima para ver pela \u00faltima vez o que lhe foi tirado. Mas a janela coberta de neve n\u00e3o deixa. Ele ent\u00e3o destr\u00f3i o vidro para olhar o tren\u00f3 sumindo no horizonte. Falando assim, parece besteira. Mas aquele filme, que tens cortes tremendos, como o da apari\u00e7\u00e3o de Strelnikov (Tom Courtenay) e sua cicatriz no rosto ao lado da bandeira vermelha, n\u00e3o pode ser tratado como uma bobagem qualquer. A multid\u00e3o que pega o trem parece ser movida pelos grandes cartazes mostrando os l\u00edderes da revolu\u00e7\u00e3o russa. Isso \u00e9 David Lean, o cineasta que faz falta nesta \u00e9poca de atores alimentados por maizena (Brad Pitt, George Clooney, Denis Quaid), de cineastas broncos (Scorcese e Tarantino) de raras atrizes (s\u00f3 se salvam algumas, como Juliane Moore e Merryl Streep). Para o\u00adnde foi a s\u00e9tima arte? O cinema dito comercial, pela sua excel\u00eancia na \u00e9poca de ouro, gerou seu oponente, o cinema dito de arte. Depois disso, Independence Day e outras merdas absolutas. Levem para o Missouri, disse John Wayne para seus cow-boys, no cl\u00e1ssico Rio Vermelho, de John Ford. S\u00f3 a seq\u00fc\u00eancia de rostos saudando a convoca\u00e7\u00e3o para inaugurar mais uma aventura nos campos de gados e tiroteios vale dez mil porcarias produzidas hoje. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica; font-size: x-small;\"><span style=\"color: #004488;\"><strong>Peter O&#8217;Toole<\/strong> <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: arial,helvetica; font-size: x-small;\">O tenente ingl\u00eas magro, obsessivo, louco e efeminado, \u00e9, junto com o Godfather de Brando, a mais impressionante inven\u00e7\u00e3o que um ator j\u00e1 conseguiu produzir no cinema. O\u00b4Toole \u00e9 tamb\u00e9m muito injusti\u00e7ado, mas \u00e9 de primeir\u00edssima ordem. Levantei com aquele cara todas as manh\u00e3s por dois anos e n\u00e3o sei como suportei, confessou ele depois que as filmagens acabaram. Ningu\u00e9m poder\u00e1 super\u00e1-lo na seq\u00fc\u00eancia que mencionei o\u00adntem, quando ele tentou desmistificar a fatalidade. Seus olhos fuzilavam Omar Sharif quando chegou com o companheiro moribundo, salvo por ele. Tirou ent\u00e3o levemente a m\u00e1scara de pano que encobria seu rosto totalmente queimado e disse a frase definitiva: Nothing is written. Outra: N\u00e3o quero fazer parte do seu big push, disse para o general sem escr\u00fapulos (Jack Hawkins) o tenente louco de raiva, que imediatamente deu um salto com as m\u00e3os nas costas em carne viva. No prisioners, gritou, ensandecido, quando se vingou dos turcos massacrando um pelot\u00e3o que se retirava. Limonade, with ice! falou, duro, para o gar\u00e7om da sala dos oficiais que tentavam expulsar o garoto sobrevivente da travessia do Sinai. Sou do tempo em que o cinema provocava emo\u00e7\u00e3o. <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte maior do grande cineasta pode ser resumida apenas num plano. Jivago cruza a R\u00fassia para salvar a fam\u00edlia, mas queria mesmo era encontrar Lara, refugiada no interior. A demora do encontro, representada pela intermin\u00e1vel viagem de trem que corta o deserto nevado, deixa o espectador quase sem esperan\u00e7as de que eles voltem a se ver. Mas isso acontece, e de forma magistral: surge a imagem esplendorosa, um girassol que explode em todos os tons do amarelo, de Julie Christie, que olha para n\u00f3s com seus olhos azuis-violeta, como se estivesse vendo, sem acreditar, o amor que enfim chega de longe.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=132"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1606,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/132\/revisions\/1606"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=132"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=132"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=132"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}