{"id":134,"date":"2005-05-15T14:45:31","date_gmt":"2005-05-15T16:45:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=134"},"modified":"2009-12-20T23:53:08","modified_gmt":"2009-12-21T01:53:08","slug":"godard-quando-o-cinema-perde-a-forma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/godard-quando-o-cinema-perde-a-forma","title":{"rendered":"GODARD: QUANDO O CINEMA PERDE A FORMA"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Godard \u00e9 quando a cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica, transformada pelas ci\u00eancias da linguagem, vira cinema. Seu instrumento mais importante e fecundo \u00e9 a t\u00e9cnica de distanciamento, inventada por Bertold Brecht para desalienar os espectadores de teatro e denunciar as ilus\u00f5es da dramaturgia. O marxismo brechtiano que desaguou nessa desdramatiza\u00e7\u00e3o fez com que os protagonistas, dentro e fora de cena, catequizassem o p\u00fablico sobre as armadilhas a que estavam condenados pela f\u00e1brica de ilus\u00f5es de massa, engendrada pela ind\u00fastria do espet\u00e1culo. Desde sua estr\u00e9ia, em Acossado (cr\u00f4nica policial que denuncia a narrativa como criminosa) at\u00e9 a brilhante e genial Histoires du Cinema, longo ensaio sobre os cem anos da inven\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os Lumi\u00e8re, Godard mudou o cinema para sempre e levou-o ao patamar da radicaliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, fonte de um futuro cultural que ainda est\u00e1 no ber\u00e7o.<br \/>\nAvalanche<\/p>\n<p>Lembro Gilbert Gick, o mais brilhante e debochado esp\u00e9cime da minha gera\u00e7\u00e3o, saindo dos filmes de Godard, aos quais eu o levava meio contra a sua vontade, puxando elegantemente o casaco com as duas m\u00e3os, olhando para todos os lados e murmurando alto: h\u00e3gh (ou hum, hum, sim, sim), entendi tudo. Nada t\u00ednhamos entendido porque o cinema tinha perdido a forma. N\u00e3o que virasse uma coisa deformada, mas era a prova de que num filme pode caber muito mais do que o corte, o close, o desfecho, o gesto. Godard incluiu na tela todos os elementos poss\u00edveis, a come\u00e7ar pela avalanche de cita\u00e7\u00f5es tiradas de todos os livros importantes, tornando cada estr\u00e9ia uma compacta soma pr\u00e9-big-bang, que aos poucos \u00edamos desenrolando pela mem\u00f3ria e pela repeti\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es. O narrador, em Godard, \u00e9 uma costura intermin\u00e1vel de tudo o que \u00e9 poss\u00edvel pensar e criar sobre cen\u00e1rios, personagens, tramas. Ele confessou recentemente que sempre foi mais um produtor do que um diretor, pois armava o circo para que os atores pudessem fazer nele o que quisessem. Godard est\u00e1 sempre remando contra a corrente do pensamento coletivo, uma forma de demonstrar que um indiv\u00edduo \u00e9 o que conta, e que sua individualidade \u00e9 de um esp\u00edrito livre, que serve de insumo para a liberdade interior de cada um. A secura, a extravag\u00e2ncia, a c\u00e2mara que n\u00e3o sai do lugar ou gira vagarosamente em 360 graus, a sinceridade, a fala direta para a plat\u00e9ia, tudo em Godard \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que a liberdade n\u00e3o tem limites e que n\u00e3o podemos nos entregar para o pensamento pronto, para a an\u00e1lise \u00f3bvia, para a conclus\u00e3o apressada.<\/p>\n<p>Lama<\/p>\n<p>O mundo ainda levar\u00e1 muito tempo para digerir o que ele produziu nestes 40 anos (e continua produzindo). O importante \u00e9 que Godard emociona pela raz\u00e3o, raciocina pela imagem, distancia-se pela palavra, foca o imprevisto, nos surpreende, nos incomoda e nos tira do s\u00e9rio. Nenhum artista contempor\u00e2neo tem essa capacidade e os outros cineastas radicais, como Wim Wenders, devem a ele o que h\u00e1 de mais precioso: o cinema como reinven\u00e7\u00e3o permanente, a necessidade de habitarmos o esp\u00edrito com o que h\u00e1 de mais alto e profundo, a agilidade e a complexidade da mente humana e a soma de todas as culturas num s\u00f3 plano, como se fosse poss\u00edvel nos encolher at\u00e9 o limite para ent\u00e3o, pela m\u00e3o de Godard, podermos explodir num infinito de universos. Godard n\u00e3o perde tempo na sua vida terrena. N\u00e3o veio a passeio e jamais concordar\u00e1 com qualquer palavra que tu ou eu disser. Ele \u00e9 o humano na sua maior verdade: a de que n\u00e3o sabemos quem somos e jamais saberemos, mas enquanto isso poderemos provar o gosto das estrelas, mesmo que tenhamos apenas dois p\u00e9s enterrados na lama.<\/p>\n<p>Impaci\u00eancia<\/p>\n<p>Devemos a Godard a liberdade que nem sonh\u00e1vamos ter. Ele nos pegou meninos, desprevenidos, cheios de fuma\u00e7as na cabe\u00e7a e nos empurrou para o abismo. Enquanto ca\u00edamos, ele nos fez ver o longo travelling do engarrafamento brutal em Week-end, o louco explodindo-se em dinamite em Pierrot Le Fou, a gra\u00e7a de Jean Seberg vendendo jornal em Acossado, a estranha e bela e doce Ana Karina em in\u00fameros filmes, e a monumental Hist\u00f3rias do cinema que nenhum Scorcese, este metido inomin\u00e1vel, jamais poder\u00e1 almejar. O cinema j\u00e1 tinha alcan\u00e7ado o esplendor no come\u00e7o do s\u00e9culo 20 com Aurora, de Murnau, o mais impressionante filme mudo de todos os tempos, inacredit\u00e1vel que tenha sido feito quando aquela arte ainda estava engatinhando. J\u00e1 tinha passado pelos expressionistas alem\u00e3es, com Fritz Lang na frente, j\u00e1 tinha deslumbrado o mundo com Jonh Ford, quando Godard entrou em cena com seu olhar impiedoso. Est\u00e1vamos s\u00f3s em nossa pretens\u00e3o anti-dial\u00e9tica quando Godard tamb\u00e9m nos ensinou a pensar, o que nenhum escritor jamais conseguiu fazer. Ele usou at\u00e9 o osso a capacidade dessa inven\u00e7\u00e3o audiovisual e nos marginalizou com sua extrema genialidade. Por isso Godard \u00e9 um impaciente, porque foi longe demais para os seus contempor\u00e2neos. Vi o pobre do Michel Piccoli tentando replicar a carga de cavalaria verbal com que Godard o premiou em Histoires du cinema. N\u00e3o havia tr\u00e9gua naquela luta. Godard exigia que Piccoli, que estava no topo das comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio do cinema, assumisse a radicalidade que representa a s\u00e9tima arte. Mas Piccoli \u00e9 um ator limitado, apesar de eficiente e boa-pra\u00e7a, jamais ser\u00e1 um criador como Godard.<\/p>\n<p>Luzes<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode com Godard, o monstro que nos tirou da sess\u00e3o das quatro, que inundou a sess\u00e3o das oito, que destruiu todas as sess\u00f5es e tirou o enquadramento do lugar, desligou as luzes que se apagavam vagarosamente para criar um ambiente de ilus\u00f5es. Jamais o perdoaremos por termos perdido com ele a inoc\u00eancia. Tornamo-nos adultos, para desgra\u00e7a dos nossos cora\u00e7\u00f5es despeda\u00e7ados. Mas era a \u00fanica forma de encararmos o Tempo. Por isso temos em Godard nosso Mestre, aquele que maltrata os admiradores, aquele que acende a luz e diz: voc\u00ea navega num espa\u00e7o desconhecido, acorde. Venha ver o universo pegando fogo. Saiba qual a chama em que te transformaste, sucumba \u00e0 palavra que te espera com garras afiadas, como um tigre aparentemente manso, mas que no fundo \u00e9 uma pantera encarnada no terror de estarmos presentes nesta \u00e9poca de ru\u00ednas, neste vendaval de sobras, neste clar\u00e3o de poesia bandida, neste rasgo fundo de um vulc\u00e3o que est\u00e1 chegando para nos desafiar. Godard, Godard, o que fizeste com as pessoas que estavam acomodadas naquele cinema? Salvaste a todos n\u00f3s, Godard. Voc\u00ea nos salvou enquanto esper\u00e1vamos o inevit\u00e1vel Apocalipse. Se ainda estamos vivos, \u00e9 porque voc\u00ea permitiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Godard \u00e9 quando a cr\u00edtica cinematogr\u00e1fica, transformada pelas ci\u00eancias da linguagem, vira cinema. 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O marxismo brechtiano que desaguou nessa desdramatiza\u00e7\u00e3o fez com que os protagonistas, dentro e fora de cena, catequizassem o p\u00fablico sobre as armadilhas a que estavam condenados pela f\u00e1brica de ilus\u00f5es de massa, engendrada pela ind\u00fastria do espet\u00e1culo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=134"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1504,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134\/revisions\/1504"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}