{"id":136,"date":"2005-05-15T14:48:14","date_gmt":"2005-05-15T16:48:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=136"},"modified":"2009-12-20T23:51:20","modified_gmt":"2009-12-21T01:51:20","slug":"va-direto-ao-ponto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/va-direto-ao-ponto","title":{"rendered":"V\u00c1 DIRETO AO PONTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O ponto a que se refere o t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia, a subst\u00e2ncia, o sujeito do teu texto (isso \u00e9 outra coisa), mas o ponto final da primeira frase. Para ir direto a esse alvo, \u00e9 preciso que voc\u00ea construa a mais forte, contundente, clara, inesquec\u00edvel primeira frase da sua vida. Todo o resto do texto \u00e9 desdobramento desse achado. Quando enfim voc\u00ea chega ao ponto final, l\u00e1 no p\u00e9 do teu trabalho, \u00e9 porque tudo o que a primeira frase encerra est\u00e1 perfeitamente resolvido. Hoje, por falta de forma\u00e7\u00e3o, os jornalistas colocam antes a tralha do texto, o que \u00e9 marginal ao sujeito (que \u00e9 a ess\u00eancia do que voc\u00ea quer transmitir). Sinal que produzir pensamento est\u00e1 atrelado \u00e0 falta de cidadania, pois o que vale fica em segundo plano. Exemplo: colocar nomes, cargos, datas antes de tudo o que vale a pena dizer.<\/p>\n<p>Divis\u00e3o<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 a subst\u00e2ncia do texto? \u00c9 aquela massa virtual de pensamento produzida pelo leitor quando se debru\u00e7a sobre o teu texto. Para chegar at\u00e9 ela, voc\u00ea precisa fazer um exerc\u00edcio de dramaturgia, colocar-se na fun\u00e7\u00e3o de quem l\u00ea e tratar o narrador (voc\u00ea!) e sua rede, seu tecido, seu texto, como estranhos. Ao se colocar nesse papel, elimina-se imediatamente todo preconceito que existe contra os Outros, j\u00e1 que voc\u00ea se torna o Outro. Todo mundo se considera o rei da cocada preta, portanto voc\u00ea \u00e9 o maioral que est\u00e1 lendo o que um tal de fulano (voc\u00ea mesmo, seu!) est\u00e1 escrevendo. Essa divis\u00e3o interna \u00e9 pura arte e n\u00e3o doen\u00e7a ps\u00edquica, como alguns engra\u00e7adinhos j\u00e1 devem estar pensando. \u00c9 um truque, mas n\u00e3o encare como truque. Use a t\u00e9cnica brechtiana da desdramatiza\u00e7\u00e3o. Funciona assim: o ator, ao assumir um personagem, o tempo todo dialoga com essa cria\u00e7\u00e3o. Brecht, no seu trabalho de desaliena\u00e7\u00e3o da arte, marxista magn\u00edfico que era, tornou essa a\u00e7\u00e3o transparente aos espectadores. Isso foi usado magistralmente em Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro, em que os atores se viram para a c\u00e2mara, narram a cena e imediatamente assumem o personagem. Voc\u00ea fica sabendo que \u00e9 o Jos\u00e9 Wilker ou o Paulo C\u00e9sar Pereio que est\u00e3o l\u00e1, te contando algo, e n\u00e3o que voc\u00ea est\u00e1 assistindo uma reprodu\u00e7\u00e3o de \u00e9poca ou coisa que o valha, ou embarcando na ilus\u00e3o do s\u00e9culo 18. Assim \u00e9 tamb\u00e9m com os textos. Voc\u00ea assume um personagem (o leitor), conversa internamente com ele, e tua narrativa ent\u00e3o fluir\u00e1 sem aliena\u00e7\u00e3o nenhuma, firme e forte.<\/p>\n<p>Netuno<\/p>\n<p>Mas o sujeito n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea, nem o leitor, nem o que voc\u00ea representa na sua cabe\u00e7a como sendo o leitor (que n\u00e3o est\u00e1 dividido em nichos, como imagina o marketing). \u00c9, como disse acima, a massa virtual de pensamento produzida por quem l\u00ea. Nem tente manipular esse objeto selvagem. Cumpra sua fun\u00e7\u00e3o e retire-se para as montanhas geladas. N\u00e3o espere reconhecimento pelo que voc\u00ea escreve, porque escrever \u00e9 um trabalho que fica abaixo de todos os outros, desde sempre. Produzir pensamento n\u00e3o faz barulho, n\u00e3o exige gestos, n\u00e3o depende de for\u00e7a bruta nem de f\u00edsicos em performance. Trata-se de algo reservado aos loucos, aos t\u00edmidos, aos que nunca mais voltaram, aos que te abra\u00e7am sem pedir documentos. Isso serve para a literatura e o jornalismo. Os craques do texto s\u00e3o como os craques da bola: n\u00e3o possuem f\u00edsico para representar o que criam (com exce\u00e7\u00e3o de Pel\u00e9, mas Pel\u00e9 \u00e9 Rei, n\u00e3o vale). Eles s\u00e3o inimigos da moda que existe hoje de escrever sem assumir o sujeito da fala, ficar a reboque de falas alheias (por isso se usa tanto de acordo, segundo, para fulano). Esse tipo de costura mata qualquer texto. Voc\u00ea precisa chegar \u00e0 subst\u00e2ncia para que ela seja o capit\u00e3o desse barco. Ela comanda, ela costura. Uma frase assim grudar\u00e1 na outra, cada par\u00e1grafo n\u00e3o ter\u00e1 vida independente, pois far\u00e1 parte de uma confedera\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es e teu texto brilhar\u00e1 como a estrela guia, no fundo do breu, em pleno alto oceano, quando todos dentro do navio estar\u00e3o horrorizados com a mesmice e a escurid\u00e3o. Subir\u00e1s ent\u00e3o teu lume no alto do conv\u00e9s e depois, abandonando o p\u00f3dio que ocupaste por alguns segundos s\u00f3 para destacar tua obra, mergulhar\u00e1s para sempre at\u00e9 o\u00adnde mora Netuno, o rei do movimento infinito das \u00e1guas eternas. Ser\u00e1s lembrado ent\u00e3o nas hist\u00f3rias que os duendes contam para as crian\u00e7as, como um her\u00f3i composto pela narrativa iniciada por uma frase inesquec\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ponto a que se refere o t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia, a subst\u00e2ncia, o sujeito do teu texto (isso \u00e9 outra coisa), mas o ponto final da primeira frase. Para ir direto a esse alvo, \u00e9 preciso que voc\u00ea construa a mais forte, contundente, clara, inesquec\u00edvel primeira frase da sua vida. 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