{"id":138,"date":"2005-05-18T14:49:51","date_gmt":"2005-05-18T16:49:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=138"},"modified":"2011-04-05T09:54:46","modified_gmt":"2011-04-05T09:54:46","slug":"ver-e-saber-em-kubrick","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/ver-e-saber-em-kubrick","title":{"rendered":"VER \u00c9 SABER, EM KUBRICK"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Stanley Kubrick nos ensina que ver sem apoiar-se em par\u00e2metro algum, ver pela primeira e \u00fanica vez, ver como se o espectador estivesse nu diante do cosmo, \u00e9 saber. Rever \u00e9 arquivar, \u00e9 perder esse tesouro do primeiro olhar, \u00e9 desdobr\u00e1-lo, tentar entender o que foi visto. No filme De olhos bem fechados (<em>Eyes Wide Shut<\/em>) , o m\u00e9dico interpretado por Tom Cruise n\u00e3o pode ter acesso ao que a elite v\u00ea. E o que a elite v\u00ea? A pr\u00f3pria elite, que n\u00e3o pode ser desmascarada. Ele descobre isso por meio do seu amigo pianista, que \u00e9 contratado para uma festa em vasta mans\u00e3o, desde que toque com um len\u00e7o tapando os olhos. Est\u00e3o proibidos de ver, portanto, de saber. O protagonista ent\u00e3o engana a seguran\u00e7a e v\u00ea o que jamais poderia ver, sabe o que nunca deveria ter sabido. Ver, portanto, \u00e9 uma quest\u00e3o de classe social. Para o resto, \u00e9 preciso cobrir o olhar com todo o tipo de repeti\u00e7\u00e3o, para que se turve a percep\u00e7\u00e3o, para que nunca vejam e, portanto, saibam. Quem v\u00ea, tem poder.<br \/>\n<strong><br \/>\n<span style=\"color: #0000cd;\">Titan<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Os anos 60 pegou a elite desprevenida. Via-se pela primeira vez um monte de coisas. A sa\u00edda foi enquadrar a cria\u00e7\u00e3o que emitia a luz para o primeiro olhar. Entrou em cena o repeteco de massa, do qual a TV aberta brasileira \u00e9 o mais sinistro exemplo. S\u00f3 \u00e9 permitido mostrar o j\u00e1 visto e se for algo in\u00e9dito, \u00e9 preciso vestir a novidade de todas as formas, para que tome uma forma reconhec\u00edvel. N\u00e3o nos deixam ver as imagens de Titan. Dizem antes que o sat\u00e9lite de Saturno \u00e9 laranja, que tem mar de metano, ventos de tungst\u00eanio e outras bobagens. Deixem-nos ver, como Kubrick fez. Fui a um cinema da Cidade Baixa em Porto Alegre, a cidade da cultura, e vi ent\u00e3o 2001 pela primeira vez. Nunca mais me refiz daquele susto. Pensei que aqueles homens-macacos do in\u00edcio do filme eram reais, e n\u00e3o atores. Vai ver, eram mesmo de verdade. Aquele travelling longu\u00edssimo da nave em dire\u00e7\u00e3o a J\u00fapiter, que n\u00e3o acabava mais, marcou para sempre o cinema. Star Wars usou outro plano, um contra-plong\u00e9e (como me ensinaram num curso de cinema que fiz ainda no gin\u00e1sio, obra de um irm\u00e3o marista que nos revelou pela primeira vez que os filmes n\u00e3o eram obra de atores, mas de diretores, o que \u00e9 uma meia verdade). Mas no fundo \u00e9 a mesma coisa. Vai fazer filme sobre o espa\u00e7o? S\u00e3o aquelas roupas, aquela est\u00e9tica, aquele visual. At\u00e9 o horr\u00edvel Cowboys do espa\u00e7o (o trope\u00e7o de Clint Eastwood) usa essas solu\u00e7\u00f5es. \u00c9 porque todos precisam repetir o que Kubrick fez, pois aprenderam com ele, mas n\u00e3o se d\u00e3o conta que o perdem, pois o que realmente importa \u00e9 aquela primeira percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000cd;\"> <\/span><strong><span style=\"color: #0000cd;\">Luz<\/span><br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm O Iluminado, Jack e o filho v\u00eaem os fantasmas, s\u00f3 eles sabem o que est\u00e1 acontecendo. O terror da mulher \u00e9 que ela n\u00e3o v\u00ea, apenas enxerga no que o marido se transformou, mas n\u00e3o sabe o que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa muta\u00e7\u00e3o. Jack v\u00ea, e essa \u00e9 a sua maldi\u00e7\u00e3o. V\u00ea n\u00e3o porque n\u00e3o tenha divers\u00e3o, v\u00ea o horror insepulto no hotel vazio porque perdeu a capacidade de enxergar com a cria\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o imagina, acaba se deparando com a brutal revela\u00e7\u00e3o dos assassinos fantasmas, que o orientam sobre o que deve fazer. Jack refugiou-se no hotel para n\u00e3o ver mais nada a n\u00e3o ser o que criaria no seu romance. Mas como ele vedou toda a capacidade de enxergar, ficou confinado no lugar que nada tinha a mostrar. Por isso ele consegue ver o que est\u00e1 por tr\u00e1s das paredes, o que se esconde embaixo do piso, o que desce do teto, o que escorrega pelos corredores. Somos transportados para essa maldi\u00e7\u00e3o em Kubrick, o de ver o que nunca t\u00ednhamos visto, portanto o que jamais imagin\u00e1vamos ver. No fundo n\u00e3o quer\u00edamos ver o que n\u00e3o sabemos, mas somos obrigados a isso pela c\u00e2mara de Kubrick. Seu desafio foi o maior de todos, pois precisava impactar um p\u00fablico viciado em ver, cansado de tanto ver. A ind\u00fastria audiovisual tinha chegado a sua satura\u00e7\u00e3o. Godard partiu para a ruptura, desistindo da intensifica\u00e7\u00e3o do ver e levou todo mundo para a reflex\u00e3o, fruto de sua forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Godard disse: vejam, voc\u00eas est\u00e3o vendo, aprendam a ver. Kubrick n\u00e3o \u00e9 did\u00e1tico. Kubrick diz: veja s\u00f3, um ret\u00e2ngulo escuro e alto que emite um ru\u00eddo e aparece no meio dos macacos e depois enterrado na Lua. Veja, um mar de sangue inunda o corredor. Vejam essas g\u00eameas fantasmas, esse rosto retorcido de Jack se anunciando depois de quebrar a porta com o machado. Godard explica: voc\u00ea est\u00e1 vendo. Kubrick te joga numa praia distante num mar de metano, sob fortes ventos de tungst\u00eanio. Tente respirar e ter\u00e1s \u00e1cido sulf\u00farico.<\/p>\n<p><span style=\"color: #0000cd;\"> <\/span><strong><span style=\"color: #0000cd;\">Revolta<\/span><br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm Spartacus, a revolta come\u00e7a quando o grande escravo negro v\u00ea a elite gargalhando e pedindo a morte do advers\u00e1rio vencido. O escravo ousou levantar o olhar at\u00e9 o camarote o\u00adnde estavam os poderosos e viu l\u00e1, pela primeira vez, a quem servia e o que ele, escravo, representava de verdade. Essa revela\u00e7\u00e3o desencadeou a revolta. Os escravos ent\u00e3o optam pelo que sabem ver: querem ter a vida de senhores e fazem destes os novos servos. Spartacus orienta o olhar para outra dire\u00e7\u00e3o: vamos formar um ex\u00e9rcito, diz ele e com essa estrat\u00e9gia quase derruba o imp\u00e9rio. O poder n\u00e3o v\u00ea Spartacus no final, mas tenta. Pergunta quem \u00e9 o l\u00edder da guerra. Todos ent\u00e3o se levantam e se anunciam, numa cena que arranca l\u00e1grima de rocha. Os escravos vencidos ludibriam o olhar do poder, n\u00e3o revelam o que a elite quer ver para que a vit\u00f3ria seja completa. Spartacus ent\u00e3o se transforma em todo o povo submetido \u00e0 escravid\u00e3o. O poder v\u00ea a massa como um s\u00f3 l\u00edder e tem medo. Manda crucificar todo mundo. At\u00e9 hoje agonizamos junto com Kirk Douglas, na cena final de mais esse filme de Kubrick, o cineasta da liberta\u00e7\u00e3o do olhar. Vers\u00e3o A vers\u00e3o de que a primeira descida do homem \u00e0 Lua em 1969 \u00e9 obra de Kubrick serve para m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es. A fraude revela a for\u00e7a do poder: ele submete o libertador do olhar, que se transforma num algoz, pois imp\u00f5e a imagem de outro mundo por meio de truques. Ao mesmo tempo, essa vers\u00e3o pode ser vista como um refor\u00e7o do que dizemos aqui: vimos a Lua pela primeira vez pela m\u00e3o de Kubrick, se for correta a hist\u00f3ria que rola na Internet. Em vez de ser uma fraude, \u00e9 a gl\u00f3ria: Kubrick teria levado o olhar para o Outro Lado por meio da imagina\u00e7\u00e3o e da ci\u00eancia. No fundo, \u00e9 o que deveria ser sempre. Prefiro Kubrick ao notici\u00e1rio da tev\u00ea (me v\u00ea? ou me obriga a ver daquele modo?). Kubrick mente menos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Stanley Kubrick nos ensina que ver sem apoiar-se em par\u00e2metro algum, ver pela primeira e \u00fanica vez, ver como se o espectador estivesse nu diante do cosmo, \u00e9 saber. 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