{"id":140,"date":"2005-05-18T14:51:32","date_gmt":"2005-05-18T16:51:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=140"},"modified":"2009-12-21T20:47:14","modified_gmt":"2009-12-21T22:47:14","slug":"o-colecionador-de-identidades","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-colecionador-de-identidades","title":{"rendered":"O COLECIONADOR DE IDENTIDADES"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Preciso cruzar mais de cinq\u00fcenta quil\u00f4metros de imensas propriedades coroadas de lagoas, montanhas cobertas de mato e algumas de tetos nevados, vales e praias, antes de chegar ao n\u00facleo do ref\u00fagio deste territ\u00f3rio oculto, onde mora Herr Holderbaum num castelo t\u00e3o imponente quanto simples, um paradoxo que define a vida deste ermit\u00e3o. Ele \u00e9 um colecionador de identidades, guardadas em in\u00fameros aposentos, que vai me mostrando aos poucos, conforme se desenrola nossa conversa. O in\u00edcio da visita \u00e9 ao p\u00e9 de uma lareira, onde o fogo esquenta um peda\u00e7o de pedra lisa. L\u00e1, tornam-se diger\u00edveis pizzas e pinh\u00f5es.<\/p>\n<p>PAISAGEM &#8211; Antes que a lenha torne-se brasa, o conde me conduz ao imenso quintal pontuado de videiras e, depois de um pequeno port\u00e3o oculto, cruza comigo uma barreira de \u00e1gua por meio de uma ponte levadi\u00e7a. Ele me leva para o alto de uma duna e mostra o magn\u00edfico mar que banha duas ilhas enormes. A praia descortina-se em v\u00e1rios desdobramentos. Tudo est\u00e1 vazio no teimoso Inverno tempor\u00e3o de t\u00edmido sol. O vento bate em nosso corpo crivado de balas de saf\u00e1ris antigos. O conde n\u00e3o aponta mais o horizonte inalcan\u00e7\u00e1vel, como fazia quando sonh\u00e1vamos despertos. Coloca as m\u00e3os para tr\u00e1s, imitando o andar de algu\u00e9m que n\u00e3o consigo lembrar, e sorri, bem posto no seu mirante. O ch\u00e3o de areia grossa e amarelo-branca torna o momento ainda mais estranho. Tudo parece desmoronar enquanto o dia se mostra gigantescamente novo, t\u00e3o novo quanto no dia em que aqui chegamos pela primeira vez, vindos de um vale \u00famido e de um casar\u00e3o sinistro.<\/p>\n<p>\u00c9ramos naquela \u00e9poca n\u00e1ufragos de uma guerra perdida. Mas toda essa mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o serve para o recluso dono do castelo. Descubro que convivi com sua verve apenas uns quatro anos e que ele faz parte de algo maior que n\u00e3o consigo alcan\u00e7ar agora. Tento impression\u00e1-lo deitando conhecimentos sobre civiliza\u00e7\u00f5es perdidas, mas para quem viu pessoalmente Miles Davis tocar com Airto Moreira num bas-fond de Nova York, nos anos 60, nada parece impression\u00e1-lo. Ficamos em sil\u00eancio e resgato, de repente, a origem daquele passo prudente: \u00e9 o de Cidad\u00e3o Kane, antes de dizer Rosebud. O filme de Orson Welles fazia parte das j\u00f3ias eternas de uma juventude inc\u00f4moda. Ele assumia o personagem na fase mais introspectiva, palmilhando um Xanadu inveross\u00edmil.<\/p>\n<p>ETERNIDADES &#8211; De volta \u00e0 sala, o conde fala do tempo em que mergulhou nas minas de ametistas. Abordo ent\u00e3o fantasiosamente a grande civiliza\u00e7\u00e3o da pedra constru\u00edda pelos gigantes e que tornaram o que chamamos hoje de Brasil um jardim de del\u00edcias. Vejo as cataratas escondidas no mato em programas de viagens na televis\u00e3o. \u00c9 tudo certinho demais. Foi tudo colocado ali, de prop\u00f3sito. Digo isso para o conde. Ele olha para a fogueira. No fundo, o som de um exerc\u00edcio de viol\u00e3o chega aos nossos ouvidos.<\/p>\n<p>Ele abre a primeira porta e um desconhecido virtuose prepara-se para a gl\u00f3ria sem fazer alarde. Abre outra porta e algu\u00e9m toca violino. Mais adiante, um artes\u00e3o que trabalha as conchas levanta os olhos. Al\u00e9m, tecedeiras comp\u00f5em um tapete gigantesco, cujas dobras tomam conta do teto.<\/p>\n<p>Pergunto por que e para que tudo aquilo. Ele diz que prefere dedicar-se ao incentivo das eternidades que repousam nos talentos t\u00edmidos, pois cansou da precariedade de um pa\u00eds em sobressalto. Costuma reunir amigos de todos os calibres para grandes \u00e1gapes de pizzas feitas uma por uma, no maior capricho. Aprendeu pela vida, entre outras coisas. \u00c9 quando convoca as identidades ocultas nos aposentos e dissemina o encontro, fonte perene de alegria.<\/p>\n<p>Fala de pr\u00eamios perdidos, de vidas passadas, de pessoas mortas, de duendes e saltimbancos. Disfar\u00e7a-se em algo conhecido para n\u00e3o me assustar. Mas pressinto que toda aquela herdade, n\u00e3o s\u00f3 o quintal do castelo, circundado por um fosso, e que tem as costas viradas para o mar, faz parte de um mundo perdido.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 cheguei ali porque n\u00e3o me acostumo \u00e0 realidade do que vejo, e n\u00e3o me conformo com a percep\u00e7\u00e3o cansada que tenho dos amigos. Sempre acho que existe algo muito maior por tr\u00e1s de cada gesto. Dizem para mim: voc\u00ea idealiza demais as pessoas. Mas olho para o alto e vejo um campan\u00e1rio. Existiria uma capela oculta no castelo? L\u00e1 o conde faz suas ora\u00e7\u00f5es, ao som de cantos gregorianos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Preciso cruzar mais de cinquenta quil\u00f4metros de imensas propriedades coroadas de lagoas, montanhas cobertas de mato e algumas de tetos nevados, vales e praias, antes de chegar ao n\u00facleo do ref\u00fagio deste territ\u00f3rio oculto, o\u00adnde mora Herr Holderbaum num castelo t\u00e3o imponente quanto simples, um paradoxo que define a vida deste ermit\u00e3o, colecionador de identidades que guarda em in\u00fameros aposentos, que vai me mostrando aos poucos, conforme se desenrola nossa conversa ao p\u00e9 de uma lareira, onde as brasas esquentam um peda\u00e7o de pedra lisa. L\u00e1 tornam-se diger\u00edveis pizzas e pinh\u00f5es.(Cr\u00f4nica publicada no caderno Donna, do Di\u00e1rio Catarinense, em 9\/outubro\/2005)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=140"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1622,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140\/revisions\/1622"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}