{"id":145,"date":"2005-05-19T17:14:43","date_gmt":"2005-05-19T19:14:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=145"},"modified":"2009-12-21T20:26:28","modified_gmt":"2009-12-21T22:26:28","slug":"o-horizonte-acerta-o-passo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-horizonte-acerta-o-passo","title":{"rendered":"O HORIZONTE ACERTA O PASSO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei  Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Cidade \u00e9 presen\u00e7a e mem\u00f3ria, \u00e9 geografia humana e paisagem. Uma cidade existe a partir do esquecimento: quem vive nela precisa dos visitantes para lembrar-se da impon\u00eancia do concreto, da identifica\u00e7\u00e3o das ruas, do rendilhado da serra, ou do mar aberto para a invas\u00e3o do desconhecido. \u00c1guas e terra escondem-se diante da realidade que faz morada nos habitantes. Nenhuma cidade faz sentido se dentro nela n\u00e3o existe algu\u00e9m que coloque o forasteiro em seu abra\u00e7o, por menor e mais frio que seja. Vista de longe, uma cidade \u00e9 o mist\u00e9rio que n\u00e3o faz segredo para os nativos. Vista de perto, uma cidade \u00e9 uma sucess\u00e3o de desencantos: tudo o que \u00e9 vivo impacta, tudo o que envolve perde a grandeza.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 apenas passagem, o visitante confirma o que imaginou e vai embora carregado com as percep\u00e7\u00f5es formatadas pelo sonho. Se ficar um pouco, coleciona surpresas e decep\u00e7\u00f5es e j\u00e1 pode exibir l\u00e1 fora um olhar abaixo da superf\u00edcie sobre o que foi arduamente imaginado. Mas se pretende mesmo permanecer, deve se preparar. Como o planeta que dobra o espa\u00e7o na sua trajet\u00f3ria, a for\u00e7a da gravidade empurra o rec\u00e9m chegado para o fundo do po\u00e7o. O estranho traz dentro de si a cidade anterior, que o despejou. Ele reproduz, num primeiro instante, os passos que riscaram seu corpo, os h\u00e1bitos que acertaram seu passo. \u00c9 imposs\u00edvel para quem nunca esteve aqui, ou aqui esteve por instantes, entender por completo o que a cidade convoca como cotidiano. Os primeiros tempos s\u00e3o de estranhamento. A primeira crise \u00e9 de desist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas passados esses momentos dif\u00edceis, eis que chega a fase em que o visitante \u00e9 fisgado pelo espa\u00e7o onde escolheu viver.\u00a0 N\u00e3o que se transforme em algu\u00e9m do lugar, pois sempre ser\u00e1 o que veio de longe. Mas ele adota o que o hostilizava, assume o que n\u00e3o lhe era pr\u00f3prio, aninha tudo o que combatia e abre espa\u00e7o para o amor que preferiu esconder e que agora se escancara como uma advert\u00eancia. O aviso \u00e9 limpo como um ver\u00e3o \u00e0 sombra: agora que voc\u00ea passou por tudo que o afastava daqui, deve tornar-se parte do patrim\u00f4nio local. N\u00e3o se trata de n\u00fameros ou placas, de resid\u00eancia fixa ou emprego, de amizades novas ou sotaques emprestados. \u00c9 outra coisa, menos percept\u00edvel: o esquecimento das ruas onde trafega, o olhar indiferente \u00e0 lua que sobe para a constela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima, o passo composto de regularidade. A cidade impregnou o antigo visitante com sua capacidade de esconder-se, de sumir por dentro da avenida. Ele n\u00e3o se assombra mais com verdades expl\u00edcitas, agora recolhidas ao por\u00e3o onde convivem os restos da emo\u00e7\u00e3o inaugural.<\/p>\n<p>\u00c9 quando o forasteiro dever\u00e1 ser lembrado, quando turistas enfileirados estar\u00e3o de olhos postos na beleza dos edif\u00edcios, ou na comunh\u00e3o dos habitantes. Resgatar\u00e1 ent\u00e3o tudo o que pensou antes de vir para c\u00e1 e poder\u00e1 ter uma reca\u00edda no seu olhar agora acostumado. Para reagir a essa tenta\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 que procurar novamente os habitantes que o influenciaram para vir, revisitar pessoas que ainda est\u00e3o no seu lugar de sempre, como se a mem\u00f3ria da cidade (o espelho onde ela lembra do que a comp\u00f5e) estivesse recolhida em alguns eleitos. Poder\u00e1 ser o vigia o mar, aquele que sabe onde existe o cardume, mas n\u00e3o conta para ningu\u00e9m como v\u00ea tainha em noite sem lua. Poder\u00e1 ser o fabricante de pranchas de surf, que um dia o encontrou ao lado de uma viagem de \u00f4nibus e lhe contou como escolheu a praia deserta para deitar ra\u00edzes, e como dribla a falta de cidadania pegando carona no motor invis\u00edvel da onda. Ou poder\u00e1 ser a ascensorista que l\u00ea escondido (porque isso prejudicaria o servi\u00e7o), e que empilha livros dentro dos casacos no inverno, ou os acumula na primavera, no compartimento do telefone de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>O vigia, o surfista e a ascensorista s\u00e3o aquelas pessoas que possuem uma janela para o infinito. Eles possuem a chave dos que vivem para sempre no mesmo lugar, pois para eles n\u00e3o importa a falta de lembran\u00e7a provocada pelo costume. O que eles enxergam serve de paisagem e de mem\u00f3ria para o ex-visitante. Eles apontam para um horizonte que existe no t\u00e9rreo do cora\u00e7\u00e3o aos peda\u00e7os. Sobre essa base eles assentam a vida e indicam o que pode existir numa geografia que parece a mesma, mas que no fundo \u00e9 a viagem que fazemos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eternidade.<\/p>\n<p>Os habitantes que abrem janelas para essa dor de permanecer intacto, na vida que vai desmoronando com o tempo, s\u00e3o personagens de uma estranha compuls\u00e3o: a de procurarmos pouso neste tempo de guerra, o de encontrarmos paz sem abrir m\u00e3o do conflito, o de permanecermos em movimento quando tudo conspira para o retrocesso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade \u00e9 presen\u00e7a e mem\u00f3ria, \u00e9 geografia humana e paisagem. 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