{"id":147,"date":"2005-05-18T17:17:08","date_gmt":"2005-05-18T19:17:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=147"},"modified":"2009-12-21T20:30:23","modified_gmt":"2009-12-21T22:30:23","slug":"eu-poderia-ser-alguem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/eu-poderia-ser-alguem","title":{"rendered":"EU PODERIA SER ALGU\u00c9M"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nA morte de Marlon Brando aos 80 anos nos remete \u00e0 sua cena mais famosa, praticamente sua heran\u00e7a mais importante: a cena em que reclama com o irm\u00e3o que o obrigou a perder uma luta no cl\u00e1ssico de Elia Kazan, Sindicato de ladr\u00f5es (<em>On the Waterfront<\/em>). Eu poderia ter vencido aquela luta, pelo menos disputado de verdade e assim teria uma carreira digna e hoje n\u00e3o estaria na m\u00e3o de bandidos, participando de assassinatos e roubos, nos diz\u00a0o maior ator de todos os tempos. Sua vida foi uma saga humana de ascens\u00e3o e queda. Ele nos deixa um exemplo de independ\u00eancia, vontade, luta e talento inigual\u00e1vel.<br \/>\n<strong><br \/>\nG\u00caNIO <\/strong>&#8211; Seu famoso discurso para o ator Rod Steigger \u00e9 mais uma performance de g\u00eanio do que a confiss\u00e3o de uma derrota. \u00c9 por isso &#8211; por ser a manifesta\u00e7\u00e3o da garra l\u00facida de Marlon Brando &#8211; que o discurso ficou na hist\u00f3ria: <em>&#8220;I cudda had class! I cudda been a contender! I cudda been somebody!&#8221;<\/em> Eu poderia ter classe, ser um lutador, ser algu\u00e9m. Mas aceitei as imposi\u00e7\u00f5es dos que n\u00e3o queriam que eu cumprisse o destino, fui covarde no momento decisivo, n\u00e3o enfrentei o inimigo na hora certa. E o inimigo n\u00e3o era o meu advers\u00e1rio na luta que entreguei para que os outros ganhassem as apostas. Os inimigos eram esses mesmos, os jogadores que se adonaram da minha vida e hoje me tratam como lixo. A gana com que ele diz isso faz parte n\u00e3o s\u00f3 da hist\u00f3ria do cinema, mas da civiliza\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 esta vida sen\u00e3o a prepara\u00e7\u00e3o, o enfrentamento e o rescaldo dessa hora fatal em que podemos decidir o destino? O filme de Kazan trata da nova chance, quando aquele que foi derrotado pela sua pr\u00f3pria covardia tem a oportunidade de dar a volta por cima, enfrentar os tiranos e sair enfim vencedor, mesmo sabendo que jogou boa parte da sua vida fora. Eis outro motivo para a eternidade do discurso: se voc\u00ea encarar de frente a situa\u00e7\u00e3o, dizer alto que perdeu aquela batalha, se souber enxergar o quanto perdeu, se n\u00e3o tiver a m\u00ednima piedade de si mesmo, se enfrentar seus fantasmas de cara limpa, se puder ver quem s\u00e3o os algozes que o levaram para o buraco, voc\u00ea ter\u00e1 a chance de resgatar a si pr\u00f3prio, desde que saiba a trag\u00e9dia o\u00adnde voc\u00ea vai se meter: como na primeira vez, voc\u00ea enfrentar\u00e1 a sua morte com essa decis\u00e3o. Tens essa coragem? N\u00e3o basta fazer o balan\u00e7o do buraco o\u00adnde voc\u00ea est\u00e1 metido. N\u00e3o basta decidir enfrentar o horror mais uma vez. Precisa saber que, como antes, poder\u00e1s morrer. Est\u00e1s preparado?<\/p>\n<p><strong>LEGADO<\/strong> &#8211; Brando leva com ele interpreta\u00e7\u00f5es imortais que nos fizeram saltar da cadeira, assim como Bu\u00f1uel pulava diante de Antonio das Mortes. Lembro o dia em que apareceu todo fantasiado numa sess\u00e3o das quatro (16 horas) no cinema de Uruguaiana e foi aplaudido de p\u00e9 pela plat\u00e9ia deslumbrada e debochada. O filme era O grande motim e Brando extrapolou no exibicionismo. J\u00e1 era ent\u00e3o o gigol\u00f4 da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, j\u00e1 detonava, jogava para o alto o que conseguiu com f\u00faria. J\u00e1 tinha destru\u00eddo a atua\u00e7\u00e3o como era conhecida at\u00e9 ent\u00e3o com sua magistral interpreta\u00e7\u00e3o de um canalha violento em Um bonde chamado desejo. J\u00e1 era o maior, por isso dava-se ao luxo de fazer o que bem entendesse, como extrapolar todas as despesas de uma produ\u00e7\u00e3o, expulsar diretores para tomar o lugar deles. Decidiu at\u00e9 fazer um faroeste, o estranho <em>A Face Oculta<\/em>, o\u00adnde passa o tempo todo explorando at\u00e9 o limite as possibilidades do seu rosto, do seu corpo e do seu gesto. Mas o mais impressionante ainda estava por vir. Foi quando fez o Poderoso Chef\u00e3o e reiventou a profiss\u00e3o novamente. Todos imitam sua interpreta\u00e7\u00e3o nesse filme, de maneira s\u00e9ria ou \u00e0s gargalhadas. Seu sussurro manipulando pessoas e situa\u00e7\u00f5es, suas bochechas inchadas, sua testa em V, sua concentra\u00e7\u00e3o. Quem poder\u00e1 apagar da mem\u00f3ria essa criatura magistral? E, de lambuja, como diziam antigamente, ainda temos <em>Apocalipse <\/em>Now, em que s\u00f3 seu rosto dividido entre luz e sombra \u00e9 a mais assustadora apari\u00e7\u00e3o de toda a hist\u00f3ria do cinema. Se houve grandeza nesta fase em que passamos sobre terra, Marlon Brando encarnou-a. E de maneira \u00fanica. Parte depois de muito sofrimento. Pagou caro a conta cobrada por ter sido primus inter pares, o maior dos maiores, que deixa, sim herdeiros, mas nenhum que chegue ou chegar\u00e1 aos seus p\u00e9s, j\u00e1 que tornou-se refer\u00eancia. E mesmo agora, aparentemente im\u00f3vel na eternidade, jamais poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado por nenhum mortal. Cada vez que formos ver um filme seu, ele ficar\u00e1 cada vez melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A morte de Marlon Brando aos 80 anos nos remete \u00e0 sua cena mais famosa, praticamente sua heran\u00e7a mais importante: a cena em que reclama com o irm\u00e3o que o obrigou a perder uma luta no cl\u00e1ssico de Elia Kazan, Sindicato de ladr\u00f5es (On the Waterfront). Eu poderia ter vencido aquela luta, pelo menos disputado de verdade e assim teria uma carreira digna e hoje n\u00e3o estaria na m\u00e3o de bandidos, participando de assassinatos e roubos, nos diz o maior ator de todos os tempos. Sua vida foi uma saga humana de ascens\u00e3o e queda. Ele nos deixa um exemplo de independ\u00eancia, vontade, luta e talento inigual\u00e1vel.<\/p>\n<p>G\u00caNIO &#8211; Seu famoso discurso para o ator Rod Steigger \u00e9 mais uma performance de g\u00eanio do que a confiss\u00e3o de uma derrota. \u00c9 por isso &#8211; por ser a manifesta\u00e7\u00e3o da garra l\u00facida de Marlon Brando &#8211; que o discurso ficou na hist\u00f3ria: &#8220;I cudda had class! I cudda been a contender! I cudda been somebody!&#8221; Eu poderia ter classe, ser um lutador, ser algu\u00e9m. Mas aceitei as imposi\u00e7\u00f5es dos que n\u00e3o queriam que eu cumprisse o destino, fui covarde no momento decisivo, n\u00e3o enfrentei o inimigo na hora certa. E o inimigo n\u00e3o era o meu advers\u00e1rio na luta que entreguei para que os outros ganhassem as apostas. Os inimigos eram esses mesmos, os jogadores que se adonaram da minha vida e hoje me tratam como lixo. A gana com que ele diz isso faz parte n\u00e3o s\u00f3 da hist\u00f3ria do cinema, mas da civiliza\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 esta vida sen\u00e3o a prepara\u00e7\u00e3o, o enfrentamento e o rescaldo dessa hora fatal em que podemos decidir o destino? O filme de Kazan trata da nova chance, quando aquele que foi derrotado pela sua pr\u00f3pria covardia tem a oportunidade de dar a volta por cima, enfrentar os tiranos e sair enfim vencedor, mesmo sabendo que jogou boa parte da sua vida fora. Eis outro motivo para a eternidade do discurso: se voc\u00ea encarar de frente a situa\u00e7\u00e3o, dizer alto que perdeu aquela batalha, se souber enxergar o quanto perdeu, se n\u00e3o tiver a m\u00ednima piedade de si mesmo, se enfrentar seus fantasmas de cara limpa, se puder ver quem s\u00e3o os algozes que o levaram para o buraco, voc\u00ea ter\u00e1 a chance de resgatar a si pr\u00f3prio, desde que saiba a trag\u00e9dia o\u00adnde voc\u00ea vai se meter: como na primeira vez, voc\u00ea enfrentar\u00e1 a sua morte com essa decis\u00e3o. Tens essa coragem? N\u00e3o basta fazer o balan\u00e7o do buraco o\u00adnde voc\u00ea est\u00e1 metido. N\u00e3o basta decidir enfrentar o horror mais uma vez. Precisa saber que, como antes, poder\u00e1s morrer. Est\u00e1s preparado?<\/p>\n<p>LEGADO &#8211; Brando leva com ele interpreta\u00e7\u00f5es imortais que nos fizeram saltar da cadeira, assim como Bu\u00f1uel pulava diante de Antonio das Mortes. Lembro o dia em que apareceu todo fantasiado numa sess\u00e3o das quatro (16 horas) no cinema de Uruguaiana e foi aplaudido de p\u00e9 pela plat\u00e9ia deslumbrada e debochada. O filme era O grande motim e Brando extrapolou no exibicionismo. J\u00e1 era ent\u00e3o o gigol\u00f4 da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, j\u00e1 detonava, jogava para o alto o que conseguiu com f\u00faria. J\u00e1 tinha destru\u00eddo a atua\u00e7\u00e3o como era conhecida at\u00e9 ent\u00e3o com sua magistral interpreta\u00e7\u00e3o de um canalha violento em Um bonde chamado desejo. J\u00e1 era o maior, por isso dava-se ao luxo de fazer o que bem entendesse, como extrapolar todas as despesas de uma produ\u00e7\u00e3o, expulsar diretores para tomar o lugar deles. Decidiu at\u00e9 fazer um faroeste, o estranho A Face Oculta, o\u00adnde passa o tempo todo explorando at\u00e9 o limite as possibilidades do seu rosto, do seu corpo e do seu gesto. Mas o mais impressionante ainda estava por vir. Foi quando fez o Poderoso Chef\u00e3o e reiventou a profiss\u00e3o novamente. Todos imitam sua interpreta\u00e7\u00e3o nesse filme, de maneira s\u00e9ria ou \u00e0s gargalhadas. Seu sussurro manipulando pessoas e situa\u00e7\u00f5es, suas bochechas inchadas, sua testa em V, sua concentra\u00e7\u00e3o. Quem poder\u00e1 apagar da mem\u00f3ria essa criatura magistral? E, de lambuja, como diziam antigamente, ainda temos Apocalipse Now, em que s\u00f3 seu rosto dividido entre luz e sombra \u00e9 a mais assustadora apari\u00e7\u00e3o de toda a hist\u00f3ria do cinema. Se houve grandeza nesta fase em que passamos sobre terra, Marlon Brando encarnou-a. E de maneira \u00fanica. Parte depois de muito sofrimento. Pagou caro a conta cobrada por ter sido primus inter pares, o maior dos maiores, que deixa, sim herdeiros, mas nenhum que chegue ou chegar\u00e1 aos seus p\u00e9s, j\u00e1 que tornou-se refer\u00eancia. E mesmo agora, aparentemente im\u00f3vel na eternidade, jamais poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado por nenhum mortal. Cada vez que formos ver um filme seu, ele ficar\u00e1 cada vez melhor. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=147"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1607,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147\/revisions\/1607"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}