{"id":149,"date":"2005-05-21T17:19:02","date_gmt":"2005-05-21T19:19:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=149"},"modified":"2009-12-20T20:41:49","modified_gmt":"2009-12-20T22:41:49","slug":"o-enigma-rosebud","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-enigma-rosebud","title":{"rendered":"O ENIGMA ROSEBUD"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m decifra o enigma Rosebud em Cidad\u00e3o Kane. A solu\u00e7\u00e3o da charada morre junto com o personagem , fechando o c\u00edrculo onde se encerra uma vida privada, a \u00fanica com exist\u00eancia real, j\u00e1 que o perfil p\u00fablico do homem que construiu um pal\u00e1cio de Mil e Uma Noites \u00e9 pura representa\u00e7\u00e3o, trag\u00e9dia e deboche. Cham\u00e1-lo de cidad\u00e3o \u00e9 apenas uma ironia, pois se tratava de um d\u00e9spota, que usou a riqueza para ludibriar a democracia. Disseram horrores sobre o que significa Rosebud, algumas impublic\u00e1veis, como a que se referia ao que a amante de Kane trazia encerrada nas vestes de luxo. Mas a complexidade do enigma \u00e9 a sua simplicidade: Rosebud \u00e9 uma palavra, gravada num brinquedo da inf\u00e2ncia e foi proferida na hora da morte, quando tornou-se uma bolha de vidro que rola pelo ch\u00e3o para ocupar aparentemente a periferia de um drama, quando na verdade \u00e9 o seu centro oculto e indevass\u00e1vel. Por ser uma palavra que ningu\u00e9m decifra e n\u00e3o um objeto, Rosebud \u00e9 a ess\u00eancia de uma impossibilidade: a de o espectador jamais fazer parte do filme que o exclui, mesmo que saia do cinema com a impress\u00e3o que entendeu do que se tratava. Essa armadilha, a mais genial da hist\u00f3ria da s\u00e9tima arte, transformou Orson Welles no mais cultuado cineasta do mundo e fez sua obra-prima ocupar o topo de todas as listas dos melhores filmes de todos os tempos.<\/p>\n<p><strong>Tren\u00f3 <\/strong><\/p>\n<p>O plano final, em que o tren\u00f3 da inf\u00e2ncia queima junto com a sua palavra de batismo, \u00e9 a ilus\u00e3o maior desse g\u00eanio que dedicou a vida a enganar seus contempor\u00e2neos para poder ilumin\u00e1-los. Ele cercou-se do imagin\u00e1rio das massas, dos discos voadores \u00e0 riqueza excessiva, para ocupar o papel do m\u00e1gico que ilude a percep\u00e7\u00e3o da plat\u00e9ia e arranca aplausos pelo que \u00e9 percebido no primeiro olhar, sem nunca revelar que o melhor fica para depois da sess\u00e3o: a reflex\u00e3o obsessiva sobre o que foi visto. \u00c9 por isso que Cidad\u00e3o Kane n\u00e3o abdica da sua posi\u00e7\u00e3o de filme maior, porque sempre haver\u00e1 algo a dizer sobre o que foi concebido no espa\u00e7o sagrado de uma arte imortal, l\u00e1 onde os deuses brincam de Cria\u00e7\u00e3o. Tudo o que \u00e9 resgatado na biografia de Kane vira lixo e ficamos s\u00f3s com a sensa\u00e7\u00e3o que nos foi transmitida: a de que a verdadeira alegria de viver est\u00e1 no deslumbramento primordial do olhar n\u00e3o contaminado pela morte. Rosebud \u00e9 a palavra que rola junto com o tren\u00f3 sobre o cen\u00e1rio gelado de um mundo indiferente e s\u00f3 ela tem a chave de uma felicidade para sempre perdida. N\u00e3o tive a sorte de ver o filme na hora certa, quando eu ia ao cinema por determina\u00e7\u00e3o e destino, esse paradoxo que carregou minha gera\u00e7\u00e3o para a a revela\u00e7\u00e3o e o assombro. Feito em 1941, sete anos antes de eu ter nascido, s\u00f3 tive contato com a enigma muito mais tarde, quando fui ver o filme obrigat\u00f3rio que todos citavam. Mas n\u00e3o tinha sido a primeira vez que vira Welles. Antes disso, eu fora sacudido para sempre do meu sono cultural com o maior dos pesadelos j\u00e1 criado no cinema, O Processo, baseado em Kafka.<\/p>\n<p><strong>Kafka <\/strong><\/p>\n<p>O que impressiona em O processo \u00e9 a passagem entre um cen\u00e1rio e outro, numa continuidade sem fim, quando somos arrastados para uma pris\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 ruptura entre cenas e somos deslocados \u00e0 for\u00e7a por lugares gigantescos. Somos massacrados pelo escrit\u00f3rio ocupado por mil mesas com m\u00e1quinas de escrever, em que Anthony Perkins, esse ator do medo e da repress\u00e3o, caminha para sua maldi\u00e7\u00e3o. De l\u00e1 vamos para lugares majestosos cheios de pessoas acusadoras, mas antes passamos por um flagrante dom\u00e9stico de uma mulher lavando roupa. O que quer nos dizer Orson Welles com essa punhalada mortal em nosso v\u00edcio de ver? Que estamos presos numa cela muito pequena, vazada por onde entra o riso do Mal, e somos convocados para a destrui\u00e7\u00e3o em lugares que deveriam ser o da sobreviv\u00eancia. Queremos acordar para nos salvar, mas se acordarmos, fatalmente descobriremos que nos transformamos num gigantesco inseto. Welles chegou antes de Godard e o toda a vanguarda que o cercava, provando que o cinema poderia ser outra coisa. Est\u00e1vamos imersos no sono da sala escura, achando que mudar significava apenas migrar para um outro tipo de filme, como faz hoje a ind\u00fastria cultural. Passar do faroeste \u00e0 aventura e \u00e0 com\u00e9dia rom\u00e2ntica eram as op\u00e7\u00f5es daquela \u00e9poca, limita\u00e7\u00e3o que voltou com tudo depois que os grandes cineastas se retiraram de cena. Welles rompeu com essa rede e tremeu tudo o que nos inspirava at\u00e9 ent\u00e3o. O Processo me levou \u00e0 leitura de Kafka, porque a literatura sempre foi a fonte do melhor cinema. Toda uma obra cinematogr\u00e1fica dedicada a apenas uma palavra, Rosebud, \u00e9 a prova de que a alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a porta que se abre para o infinito e tudo o mais se rende a ela.<\/p>\n<p><strong>Xanadu <\/strong><\/p>\n<p>O pal\u00e1cio constru\u00eddo por Kane \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de brinquedos. Ele procurou desesperadamente reproduzir o sentimento perdido, mas em v\u00e3o. Morreu dentro da sua pris\u00e3o, amargando a saudade daquilo que o transformava em ser humano, portanto, o salvaria. Tinha virado uma casca de luxo e \u00e9 essa superf\u00edcie que \u00e9 resgatada ao longo do filme. A profundidade daquela vida escapa \u00e0 obra, que ao se afastar do n\u00facleo vira de cabe\u00e7a para baixo toda a dramaturgia tradicional, pois o que foge \u00e0 trama \u00e9 o seu principal acontecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m decifra o enigma Rosebud em Cidad\u00e3o Kane. 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