{"id":151,"date":"2005-05-21T17:20:55","date_gmt":"2005-05-21T19:20:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=151"},"modified":"2009-12-20T23:28:12","modified_gmt":"2009-12-21T01:28:12","slug":"hitchcock-o-terror-da-vida-normal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hitchcock-o-terror-da-vida-normal","title":{"rendered":"HITCHCOCK, O TERROR DA VIDA NORMAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Alfred Hitchcock demoliu a id\u00e9ia de que existe conforto no mundo ordin\u00e1rio. O vizinho que esquarteja a mulher e enterra a cabe\u00e7a no jardim, a tesoura que serve como arma para um crime hediondo, os p\u00e1ssaros inofensivos que tornam-se assassinos, o pequeno avi\u00e3o que pulveriza lavouras fazendo rasantes na estrada deserta para matar um inocente, todas essas situa\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis que ele inventou s\u00e3o recorrentes neste autor que, ao ser exclu\u00eddo na sua forma\u00e7\u00e3o, por ser gordo e desajeitado com as mulheres, usou o cinema como vingan\u00e7a, mas de maneira t\u00e3o genial que tornou-se um alerta.<\/p>\n<p>A partir dela, foi preciso prestar aten\u00e7\u00e3o nas arapucas do corriqueiro, armadilhas mortais que denunciam a loura bonita que no fundo era outra, a m\u00e3e pranteada que enlouqueceu o filho. Ver, em Hitchcock, \u00e9 pesquisar as apar\u00eancias e descobrir nelas a selvageria oculta. Seu cinema formatou-se no s\u00e9culo das grandes guerras, em que a sociedade resultante fez tudo para colocar um verniz em cima da barb\u00e1rie, mas que n\u00e3o conseguiu esconder desse olhar atento o terror que aflora na sala, no quintal, na pequena cidade do interior.<\/p>\n<p>A normalidade, em Hitchcock, \u00e9 criminosa. O marido que vai ao clube jogar p\u00f4quer armou a l\u00e2mina nas costas da esposa e para isso usou de todos os ardis para escapar ileso. Seus filmes s\u00e3o o esfor\u00e7o que her\u00f3is solit\u00e1rios fazem para descobrir a verdade, remando contra a corrente das evid\u00eancias e n\u00e3o se deixando iludir pela arma\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio. Sua obsess\u00e3o pelo esclarecimento de situa\u00e7\u00f5es comuns que escondem um cad\u00e1ver no fundo do ba\u00fa chega ao extremo de colocar a narrativa a servi\u00e7o do olhar ininterrupto.<\/p>\n<p>As cenas n\u00e3o se resolvem, continuam, cada vez mais intrigantes e intensas. O suspense n\u00e3o cede, se aprofunda. A respira\u00e7\u00e3o n\u00e3o volta ao normal, se sufoca. O que diz com sua presen\u00e7a ocasional em todos seus filmes \u00e9 a necessidade de prestar aten\u00e7\u00e3o nesse jogo de espelhos, pois quando menos se espera, sua silhueta aparece tomando um \u00f4nibus no fundo do plano, carregando um cachorro disfar\u00e7ado de mero passante. A chave para entender esse seu truque \u00e9 treinar o olhar do espectador para o que se esconde nas tenta\u00e7\u00f5es da cena. Uma festa \u00edntima pode ser apenas o \u00e1libi para cometer um crime, um passeio noturno \u00e9 o carregamento de um corpo, um arrulho de p\u00e1ssaro esconde uma revolta animal.<\/p>\n<p>O her\u00f3i que desvela o segredo \u00e9 uma pessoa comum imersa em seu conforto que \u00e9 alertado antes dos outros e \u00e9 obrigado a tomar a iniciativa de encarar o terror de frente. Seu trabalho \u00e9 convencer os outros, como faz o fot\u00f3grafo James Stewart em <em>Janela Indiscreta<\/em>. A revela\u00e7\u00e3o que torna-se clara para um olhar solit\u00e1rio precisa ser compartilhada para evitar o pior. Enquanto isso n\u00e3o acontece, ele passa por louco, at\u00e9 que o desfecho coloca todo mundo contra a parede. \u00c9 quando os p\u00e1ssaros rebentam as paredes, o corpo cai, o vizinho vem acertar contas. A maldade de Hitchcock \u00e9 nos devolver o conforto no final, mas nos assombrar com suas sugest\u00f5es depois da sess\u00e3o, quando suas imagens nos perseguem e nos fazem ver que ao nosso redor algu\u00e9m conspira para nos eliminar.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o vive no melhor dos mundos e n\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea \u00e9 infeliz, ou frustrado, ou saiba que vai morrer. Voc\u00ea est\u00e1 condenado porque aceita as apar\u00eancias como se fossem definitivas. Hitchcock escolhe a dedo seus atores, que sintetizam essa normalidade que ele quer denunciar. N\u00e3o existe nada mais bem comportado do que Stewart, nada mais atraente do que Kim Novack, nada mais simp\u00e1tico do que Cary Grant. Pois eles est\u00e3o dentro do enredo mortal e se debatem para nos dizer algo.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio est\u00e1 em coisas prosaicas como um cabelo bem produzido, um rosto amig\u00e1vel, uma gaivota empoleirada. Ali, naquele cantinho do Falso Bem, dorme um monstro. Ele suspira de vez em quando e ent\u00e3o trememos na cadeira. Lembro que n\u00e3o pude ver nenhum dos seus filmes antes dos 18 anos. Olhava os cartazes, como se dizia, e neles tentava adivinhar, em v\u00e3o, alguma coisa. Vi depois, quando j\u00e1 n\u00e3o conseguia me assustar ta facilmente e j\u00e1 tinha lido o suficiente para me manter alerta. Assim mesmo, quando o cachorrinho que descia num cestinho de palha come\u00e7ava a farejar algo enterrado e esse algo \u00e9 a cabe\u00e7a da mulher assassinada, um calafrio quase me expulsava do cinema.<\/p>\n<p>Hitchcock filmou o terror para pessoas como eu, que fogem desse tipo de tema. Vamos ver a loura, o detetive, o casal, jamais o horror. Ent\u00e3o somos colhidos por uma tempestade e n\u00e3o podemos mais sair da sala. Voc\u00ea est\u00e1 frito por fugir do que o assusta, diz Hitchcock. Venha ver o que preparei para voc\u00ea. Sofra de vertigem e suba essas escadas at\u00e9 saber do que se trata, fique imobilizado diante de uma cena macabra, cruze um corredor de aves antrop\u00f3fagas. Venha at\u00e9 o meu olhar insano, nos diz Hitchcok, e descubra o que voc\u00ea deixou de lado como se fosse uma bobagem e nada mais \u00e9 do que um plano terr\u00edvel para acabar com tua ra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfred Hitchcock demoliu a id\u00e9ia de que existe conforto no mundo ordin\u00e1rio. 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