{"id":153,"date":"2005-05-21T17:22:55","date_gmt":"2005-05-21T19:22:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=153"},"modified":"2009-12-21T20:26:46","modified_gmt":"2009-12-21T22:26:46","slug":"a-majestade-em-visconti","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-majestade-em-visconti","title":{"rendered":"A MAJESTADE EM VISCONTI"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Luchino Visconti filmou a decad\u00eancia de um estilo de vida fundada no direito divino \u00e0 majestade. Confundem essa catedral envolta na neblina com aristocracia, mas ela pode nascer do povo, como em TerraTrema, das posses e da riqueza, como em <em>Il Gattoppardo<\/em>, ou da virilidade ferida do proletariado e dos migrantes, como em <em>Rocco e seus irm\u00e3os<\/em>. A majestade encontra um limite, mas deixa os vest\u00edgios diante do nosso olhar demolido pela interven\u00e7\u00e3o do Mestre. Estamos perdidos, nos diz ele. Mas antes disso, veja o que posso te mostrar.<\/p>\n<p>Numa de suas in\u00fameras obras-primas, <em>Morte em Veneza<\/em>, o que finda \u00e9 a possibilidade de um resgate, de uma salva\u00e7\u00e3o. O professor que busca a cura vislumbra a reden\u00e7\u00e3o ao entregar-se \u00e0 radicalidade das diferen\u00e7as. N\u00e3o \u00e9 seu encantamento pela beleza adolescente que est\u00e1 em jogo, mas o limite que encontra na pr\u00f3pria grandeza ao descobrir uma porta que o levar\u00e1 para outra vida, longe de suas rotinas, h\u00e1bitos, percep\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es. Os personagens de Visconti est\u00e3o livres para chegar perto dessa porta, mas ela se fecha no \u00faltimo minuto e fica apenas a sinfonia plena de uma cultura que se despede, inadequada diante da realidade que joga o sonho na terra nua. \u00c9 um cinema que jamais existiu fora desse diretor que nos olha com sua brutal indiferen\u00e7a, mas que nos carrega no colo de uma grandeza que nunca tivemos, mas que sempre, desesperadamente, quisemos encarnar.<\/p>\n<p><strong>Batismo<\/strong><\/p>\n<p>De o\u00adnde nasce essa grandeza? Dos romances inesquec\u00edveis, da literatura genial e eterna de escritores sem igual. Vem da forma\u00e7\u00e3o aprimorada em col\u00e9gios seri\u00edssimos, de professores exigentes e cultos. Vem das fam\u00edlias que cultivavam a cultura. Vem das press\u00f5es de um tempo de guerra. Vem de in\u00fameros cruzamentos, das ci\u00eancias humanas e exatas, vem das necessidades de esp\u00edritos livres, que dobraram o mercado impondo seus trabalhos. Tive o privil\u00e9gio de ir, por um bom tempo, diariamente ao cinema e seguir todos os geniais cineastas que formaram minha cabe\u00e7a e meu cora\u00e7\u00e3o. Visconti \u00e9 uma descoberta tardia, quando nem a tela pequena consegue diminuir seu gesto.<\/p>\n<p>Ver pela primeira vez Claudia Cardinale pelo rosto retorcido das mulheres invejosas e s\u00f3 depois impactar-se com sua apari\u00e7\u00e3o no castelo \u00e9 um momento \u00fanico do cinema. A dan\u00e7a de uma valsa com Burt Lancaster nos remete a uma certeza: esse cinema majestoso encontrou atores \u00e0 altura, ou ser\u00e1 que os atores ascenderam \u00e0 genialidade quando foram focados por esse cinema? O que importa \u00e9 que jamais teremos algu\u00e9m como Burt e Claudia em cena, rodopiando para sempre no sal\u00e3o do nosso encantamento. Pelo menos nesta vida, nunca sofreremos tanto como em Rocco e a fam\u00edlia que se estra\u00e7alha na grande cidade. \u00c9 t\u00e3o profundo esse cinema, que Glauber Rocha come\u00e7ou a partir dele, com seu Barravento colado a <em>Terratrema<\/em>. Visconti nos trouxe Glauber, e s\u00f3 isso j\u00e1 basta para coloc\u00e1-lo entre nossos grandes inspiradores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luchino Visconti filmou a decad\u00eancia de um estilo de vida fundada no direito divino \u00e0 majestade. 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