{"id":155,"date":"2005-05-21T17:24:55","date_gmt":"2005-05-21T19:24:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=155"},"modified":"2009-12-21T20:27:53","modified_gmt":"2009-12-21T22:27:53","slug":"glauber-a-profecia-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/glauber-a-profecia-no-deserto","title":{"rendered":"GLAUBER, A PROFECIA NO DESERTO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Glauber Rocha \u00e9 o tempo presente amaldi\u00e7oado pela Hist\u00f3ria. Sua prega\u00e7\u00e3o \u00e9 feita no deserto (rural em <em>Deus e o Diabo<\/em>, urbano em <em>Terra em transe<\/em>) porque o deserto, pela aus\u00eancia, destaca o humano entregue ao horror das contradi\u00e7\u00f5es. Nele, a palavra incorpora o futuro quando \u00e9 murmurada pela f\u00faria, e elimina a esperan\u00e7a para repor a verdade. N\u00e3o h\u00e1, no cinema mundial, nada que se compare ao maremoto dessa cria\u00e7\u00e3o sem limites, que nos abate em ondas toda vez que vemos a imagens que produziu, como se o del\u00edrio fosse nossa \u00fanica realidade e a guerra nosso destino. Glauber assume o que h\u00e1 de pior na cordialidade brasileira, esse comportamento ciclot\u00edmico ditado pelo cora\u00e7\u00e3o. Ele colocou a vontade no c\u00e9rebro cozinhado pelo fogo e nos encara com o g\u00eanio do seu carisma.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008080;\">Maldi\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><span style=\"color: #008080;\"> <\/span><\/p>\n<p>Lembro a primeira das in\u00fameras vezes que vi Deus e o Diabo. Foi no cine-teatro Carlos Gomes, em <em>Uruguaiana<\/em>, espa\u00e7o que deveria ser tombado e que foi destru\u00eddo. As pessoas levantavam fazendo gestos indignados e sa\u00edam aos berros. N\u00e3o havia concess\u00f5es naquele filme maldito. Mas n\u00e3o havia como escapar de Corisco abrindo os bra\u00e7os e gritando num zoom demolidor: &#8220;Est\u00e1 vendo, padinho Ci\u00e7o, pobre n\u00e3o morre mais de fome; estou matando todos eles, com meu fuzil e minha adaga de S\u00e3o Jorge; est\u00e1 aqui ela!&#8221; Foi quando Othon Bastos tornou-se o maior entre seus pares e nos cuspiu fora como se f\u00f4ssemos as v\u00edtimas nordestinas daquele canga\u00e7o cultural. Glauber nos transforma em formigas predadoras que precisam ser eliminadas. Ele nos tortura com o longo assassinato de uma crian\u00e7a nas m\u00e3os do beato negro e nos coloca sob a capa horripilante de Antonio das Mortes, aquele personagem que, quando atirava, fazia Luis Bu\u00f1uel saltar da cadeira. Qual a profecia desse cinema? A de que estamos condenados pelo que somos e morreremos na guerra que nosso \u00f3dio e nossa vergonha produziu. Quando leio Ferreira Gullar na Folha confessando, candidamente, que estamos ref\u00e9ns dos pol\u00edticos que s\u00f3 pensam em nos tungar, n\u00e3o ag\u00fcento sua f\u00e9 na falsa democracia em que estamos mergulhados. Ainda vai haver uma guerra grande nesse sert\u00e3o, predisse Antonio das Mortes. Estamos nela. Sua irresponsabilidade pol\u00edtica, sua irresponsabilidade pol\u00edtica, seu anarquismo, diziam Othon e Paulo C\u00e9sar Pereio em <em>Terra em Transe<\/em>. Glauber eliminou as ilus\u00f5es no messianismo revolucion\u00e1rio encarnado por Jardel Filho e colocou Glauce Rocha como a percep\u00e7\u00e3o torturada da consci\u00eancia impotente. Sabemos onde estamos metidos, mas n\u00e3o queremos assumir esse horror.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008080;\">Esc\u00e1rnio<\/span><\/strong><span style=\"color: #008080;\"> <\/span><\/p>\n<p>Glauber nos desperta pelo susto e corta nossas cabe\u00e7as. Seu inferno \u00e9 o Brasil, pa\u00eds que tenta decifrar filmando seu avesso. Est\u00e1vamos ainda embalados pelas alegres com\u00e9dias da Atl\u00e2ntida quando o sol tomou conta da tela e havia sangue nela. Os tiros fajutos do faroeste americano sumiram quando Glauber engatilhou o rifle de sua saga. Jamais haveria Sam Peckinpah com seus massacres em c\u00e2mara lenta se antes Glauber n\u00e3o tivesse destru\u00eddo as solu\u00e7\u00f5es bem comportadas da viol\u00eancia. Glauber bebeu em fontes diversas para compor sua trama. Reproduziu os planos das prociss\u00f5es de <em>A fonte da donzela<\/em>, de Ingmar Bergman, e do <em>La Strada<\/em>, de Fellini. Bebeu em <em>A \u00e1rvore dos enforcados<\/em> (The hanging three, 1959), de Delmer Daves. Nesse filme, Glauber retirou o visual do seu Antonio das Mortes (a capa at\u00e9 o ch\u00e3o, o chap\u00e9u, a arma), inspirado no mendigo encarnado por George C. Scott (visual que foi chupado at\u00e9 o osso, n\u00e3o de Daves, mas de Glauber, por Sergio Leone). Glauber tinha bebido em <em>Terra Trema<\/em>, de Visconti para filmar seu <em>Barravento<\/em>. Ele n\u00e3o \u00e9, portanto, um cineasta de gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Mas quando decidiu fazer um filme com a c\u00e2mara que comprou por ter vendido o fusca doado pela fam\u00edlia, resolveu ir fundo, queimou seus navios para n\u00e3o mais voltar. Pagou por isso e morreu de infec\u00e7\u00e3o generalizada no Portugal gelado de Sintra. Foi morto pela indiferen\u00e7a dos contempor\u00e2neos, pois tudo Glauber poderia ag\u00fcentar, menos a espera ansiosa dos outros pela sua morte prematura. Ent\u00e3o foi-se, carregado pela sua mensagem. Ainda n\u00e3o merecemos Glauber Rocha, a profecia que cumpriu-se no seu corpo torturado e que se cumpre agora, na guerra total do pa\u00eds que desistiu de ser uma na\u00e7\u00e3o e que empresta sua bandeira para o esc\u00e1rnio internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glauber Rocha \u00e9 o tempo presente amaldi\u00e7oado pela Hist\u00f3ria. Sua prega\u00e7\u00e3o \u00e9 feita no deserto (rural em Deus e o Diabo, urbano em Terra em transe) porque o deserto, pela aus\u00eancia, destaca o humano entregue ao horror das contradi\u00e7\u00f5es. 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