{"id":157,"date":"2005-05-22T17:26:51","date_gmt":"2005-05-22T19:26:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=157"},"modified":"2009-12-21T20:06:47","modified_gmt":"2009-12-21T22:06:47","slug":"o-circulo-de-giz-da-america","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-circulo-de-giz-da-america","title":{"rendered":"O C\u00cdRCULO DE GIZ DA AM\u00c9RICA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O cinema \u00e9 a pris\u00e3o do imagin\u00e1rio americano. Melhor: \u00e9 o reflexo, ou subproduto, da percep\u00e7\u00e3o fechada sobre a pr\u00f3pria fronteira mental, que \u00e9 muito mais s\u00f3lida e perene do que a fronteira f\u00edsica pois, ao contr\u00e1rio desta, trabalha com a inclus\u00e3o para que tudo permane\u00e7a inalterado. Nada escapa a esse c\u00edrculo, mesmo quando se trata dos seus mais brilhantes diretores, seus maiores atores, seus melhores filmes. Vencer e perder ou fazer o que se deve fazer s\u00e3o os clich\u00eas dessa inflex\u00edvel Parca \u00c1tropos (a deusa grega respons\u00e1vel por cortar o fio da vida) tornada, pela repeti\u00e7\u00e3o, inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>MYSTIC RIVER \u2013 O filme de Clint Eastwood \u201cSobre Meninos e Lobos\u201d \u00e9, segundo ele, sobre a perda da inoc\u00eancia, mas prefiro dizer que \u00e9 sobre a costura poss\u00edvel dessa cultura americana na \u00e9poca em que tudo desmorona \u2013 e intensifica a necessidade da sobreviv\u00eancia. Agulha e linha, neste caso, n\u00e3o fluem diretamente s\u00f3 do roteiro, mas da postura de toda a obra. N\u00e3o existe trai\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria, consentida pela cultura, nos Estados Unidos. O Imp\u00e9rio n\u00e3o tolera defec\u00e7\u00f5es. Obrigatoriamente, estejam onde estiverem seus personagens, tenham ou n\u00e3o cometido o mais hediondo dos crimes, estar\u00e1 l\u00e1 de plant\u00e3o, batida pelo vento, altiva ou murcha, a bandeira do pa\u00eds tremulando na tela. Pois o crime maior \u00e9 negar a Am\u00e9rica, portanto tudo cabe na teia tecida pela segunda Parca, Lachesis, respons\u00e1vel pelo destino, a dura\u00e7\u00e3o e as a\u00e7\u00f5es da vida. J\u00e1 que todos obedecem \u00e0 primeira Parca, Clotho, que manobra com o nascimento, j\u00e1 que todos pertencem ao mesmo mundo fechado, o que qualquer filme feito nos Estados Unidos se preocupa \u00e9 o lugar ocupado pela Am\u00e9rica. No caso de Clint, fica na a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o na moral, fica no fazer, n\u00e3o no refletir, fica no presente, jamais na mem\u00f3ria. A Am\u00e9rica se constr\u00f3i todos os dias e para essa \u00e1rdua tarefa \u00e9 preciso que o homem seja o rei da sua fam\u00edlia, a mulher o ap\u00f3ie, seja qual for o crime do marido, e os filhos n\u00e3o se desencaminhem, mesmo que tenham passado pela ruptura ocasional do relacionamento familiar. A maldi\u00e7\u00e3o \u00e9 para os perdedores: os que n\u00e3o conseguem chegar ao fim de suas a\u00e7\u00f5es (como a v\u00edtima Dave, que escreveu apenas as primeiras letras do seu nome no cimento fresco). Prisioneiros do destino, os americanos s\u00f3 podem escolher o inevit\u00e1vel: reconhecer que os perdedores ca\u00edram na armadilha e que para vencer \u00e9 preciso perseverar, mesmo que seja necess\u00e1rio mentir, matar, roubar. Encontramos essa inevitabilidade em Os Imperdo\u00e1veis. Tudo o que contraria essa lei faz parte da cultura alien\u00edgena, que na maioria das vezes, \u00e9 o catolicismo.<\/p>\n<p>MEDO DA CRUZ &#8211; Os americanos temem a Igreja Cat\u00f3lica e este filme de Clint mostra a dimens\u00e3o desse pavor. Eu achava que eles simplesmente a desprezavam, pois costumam sempre debochar da cruz em todos os seus filmes. O filme cumpre a escrita e identifica o catolicismo com o Mal. Mas, mesmo marcado com a cruz tatuada nas costas, o l\u00edder familiar (Sean Pen, excepcional) assume seu papel na Am\u00e9rica, onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para arrependimentos. N\u00e3o \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o tudo justifique, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica lei, e ela precisa estar orientada para a costura do pa\u00eds, que experimenta uma fase de Queda absoluta. Nada existe fora do fazer, do verbo. Para isso, Clint usa a qualidade teatral de seus magn\u00edficos atores (como Tim Robbins, no papel do adulto Dave que fica confuso diante das manifesta\u00e7\u00f5es do Mal, ou Kevin Bacon, um carism\u00e1tico e cl\u00e1ssico investigador da Pol\u00edcia). O rosto de Tim \u00e9 a decad\u00eancia f\u00edsica da Am\u00e9rica, assim como as ruas e pr\u00e9dios da cidade exausta. A liquidez dos gestos de Kevin e a solidez f\u00edsica de Sean fazem parte da Am\u00e9rica que pega o touro a unha. No roteiro enxuto, na composi\u00e7\u00e3o visual perfeita, sobra justi\u00e7a para Lawrence Fishburne, que livra-se de sua pretensiosa interpeta\u00e7\u00e3o em Matrix e comporta-se sob o tac\u00e3o de mestre Clint. Se &#8220;Na Linha de Fogo&#8221; p\u00e1tria era eleg\u00e2ncia, em Mystic River a Am\u00e9rica \u00e9 uma sobrevivente, que reitera sua cultura na parada escolar, apoteose da vit\u00f3ria, bem o oposto da primeira comunh\u00e3o da irm\u00e3 da mo\u00e7a assassinada, quando os dois eventos \u2013 morte e eucaristia \u2013 coincidem. O valor do filme \u00e9 revelar os limites desse c\u00edrculo mental que oprime a Am\u00e9rica e o mundo. Tudo est\u00e1 por um fio. Talvez tenham que chamar de volta Dirty Harry para recolocar as coisas no eixos.<br \/>\nO rio m\u00edstico \u00e9 a met\u00e1fora do mito fundador da na\u00e7\u00e3o. Ele lava os crimes em nome de um destino maior. Nada mais criminoso, mas nas m\u00e3os de Clint Eastwood, nada mais brilhante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema \u00e9 a pris\u00e3o do imagin\u00e1rio americano. Melhor: \u00e9 o reflexo, ou subproduto, da percep\u00e7\u00e3o fechada sobre a pr\u00f3pria fronteira mental, que \u00e9 muito mais s\u00f3lida e perene do que a fronteira f\u00edsica pois, ao contr\u00e1rio desta, trabalha com a inclus\u00e3o para que tudo permane\u00e7a inalterado.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=157"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1578,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157\/revisions\/1578"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}