{"id":159,"date":"2005-05-22T17:28:41","date_gmt":"2005-05-22T19:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=159"},"modified":"2009-12-21T20:25:32","modified_gmt":"2009-12-21T22:25:32","slug":"os-rastreadores-de-john-ford","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-rastreadores-de-john-ford","title":{"rendered":"OS RASTREADORES, DE JOHN FORD"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>N\u00e3o escrevo sobre cinema, escrevo sobre o que cinema faz comigo. No centro do colar de obras-primas, alguns filmes comp\u00f5em uma esp\u00e9cie de Capela Sistina. Os Rastreadores (The Searchers, ou Rastros de \u00d3dio), de John Ford, \u00e9 um deles. O plano mais copiado de toda a hist\u00f3ria \u00e9 a de Ethan (John Wayne) saindo pelo deserto afora, tr\u00f4pego, com os p\u00e9s para dentro, com aquele caminhar que ele construiu, mas em ru\u00ednas, afastando-se da c\u00e2mara, que o filma de costas, emoldurado por duas tarjas pretas laterais.<\/p>\n<p>Essa dupla escurid\u00e3o funciona como guardas para a luminosidade dolorosa que se descortina ao fundo. A c\u00e2mara est\u00e1 dentro da casa destru\u00edda. Nela, o anti-her\u00f3i perdeu tudo: a fam\u00edlia que n\u00e3o era dele, mas do irm\u00e3o, e que servia como b\u00e1lsamo para sua vida errante, parentes que foram massacrados pelo inimigo. Sua miss\u00e3o agora \u00e9 a vingan\u00e7a. Precisa recuperar a sobrinha raptada. A queda e a humaniza\u00e7\u00e3o de Ethan \u00e9 a saga mais impressionante dessa arte que nos colheu meninos e nos implantou a no\u00e7\u00e3o da brutal complexidade humana.<\/p>\n<p>Guerreiros<\/p>\n<p>Vi aos 14 anos essa obra absolutamente obrigat\u00f3ria (n\u00e3o v\u00ea-la \u00e9 como cometer suic\u00eddio cultural). Era, para mim, o t\u00edpico filme para a sess\u00e3o das quatro: um faroeste colorido com o grande ator (mais importante do que Brando, segundo Tabajara Ruas, que elenca as obras-primas das quais Wayne participou: al\u00e9m desta, Hatari, de Howard Hawks, No Tempo das Dilig\u00eancias, Rio Vermelho e The Quiet Man, tamb\u00e9m de Ford, entre outras). Mas era muito mais do que isso. Cada fotograma colou-se \u00e0 minha mem\u00f3ria por muito tempo e s\u00f3 mais tarde, em Porto Alegre, cidade da cultura, descobri a origem e a import\u00e2ncia do que tinha visto. Trata-se de um anti-faroeste, pela revela\u00e7\u00e3o de um mocinho do mal. Ethan quer matar a sobrinha, que tinha virado \u00edndia. Essa era a sua vingan\u00e7a: n\u00e3o deixar que o inimigo lhe roubasse a alma. N\u00e3o permitiria que algu\u00e9m do seu sangue passasse para o outro lado. Por isso atira sem parar nos b\u00fafalos para impedir que seus algozes se alimentem, numa seq\u00fc\u00eancia de sangue no meio do cen\u00e1rio gelado, em que seu coadjuvante, Jeffrey Hunter (n\u00f3s, os garotos daquele tempo) tentava impedir o transe do homem maduro, enlouquecido de dor.<\/p>\n<p>Era o tipo de coisa complicada demais para quem via apenas dois lados em eterno conflito. S\u00f3 depois vi a import\u00e2ncia de Scar (Cicratiz), o chefe \u00edndio que fez o rapto. Ford coloca os \u00edndios no mesmo n\u00edvel dos brancos: s\u00e3o guerreiros que se op\u00f5em no \u00f3dio total, numa \u00e9poca em que os americanos estavam ganhando a parada e empurrando os nativos para o final infeliz. H\u00e1 nessa busca intermin\u00e1vel da garota desaparecida uma saga que desafia a esperan\u00e7a do espectador. Queremos logo o desfecho, mas Ford n\u00e3o d\u00e1 tr\u00e9gua. Quer que a gente desista, para que o anti-her\u00f3i fique s\u00f3. Ele ent\u00e3o se defrontar\u00e1 com a solu\u00e7\u00e3o do impasse. \u00c9 quando surge, correndo, desesperada, essa atriz magn\u00edfica, ainda muito menina, que \u00e9 Natalie Wood.<\/p>\n<p>\u00c9tica<\/p>\n<p>Ethan encontra a sobrinha finalmente e vai mat\u00e1-la. Mas n\u00e3o consegue. Essa impossibilidade inventa a fresta o\u00adnde se manifesta o milagre. Ele a levanta no colo e n\u00f3s a levantamos junto. N\u00f3s somos aquele movimento, n\u00f3s carregamos aquele corpo assustado e subimos com a c\u00e2mara que se ergue com a pincelada definitiva. Vamos para casa (let?s go home), diz Ethan, a fase mais esperada do cinema. \u00c9 uma decis\u00e3o pessoal do pistoleiro que foi \u00e0 ca\u00e7a de quem queria resgatar. N\u00e3o foi porque seu companheiro muito mo\u00e7o implorou para que n\u00e3o cometesse o crime. Era porque diante de um penhasco, que \u00e9 a \u00e9tica, o mar em f\u00faria (a vingan\u00e7a) nada consegue. A onda bate, e volta. O monumento permanece.<\/p>\n<p>A \u00e9tica \u00e9 a heran\u00e7a maior de John Ford, n\u00e3o a falsa \u00e9tica de hoje, do Falso Bem, do mercado dos bons sentimentos. Mas a \u00e9tica sofrida, conquistada em meio \u00e0 coragem de assumir totalmente o que \u00e9 humano. A volta dos tr\u00eas para a casa, o\u00adnde a sobrinha ir\u00e1 ficar, \u00e9 puro vento e majestade. O velho mensageiro louco que descansa na cadeira de balan\u00e7o, a mulher de avental que olha para o horizonte junto com o marido, a chegada densa, vagarosa, dos retirantes, o desfecho dessa obra genial (da qual comento o fim porque ela tem mais de 40 anos) que fez a nossa cabe\u00e7a e nos arrebatou para a grandeza da arte que foi destru\u00edda.<\/p>\n<p>Garupa<\/p>\n<p>Sim, acabaram com o cinema. Mataram de v\u00e1rias formas. Um delas foi a morte mal explicada de Natalie Wood. Brigou com o songa monga do marido, o ator Roberto Wagner (o queridinho do Casal 20), e, b\u00eabada, na madrugada, saiu do barco o\u00adnde o casal estava, para se afogar. N\u00e3o foste atr\u00e1s dela, Wagner, n\u00e3o a levantaste at\u00e9 a altura maior da nossa emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a carregaste nos bra\u00e7os para salv\u00e1-la. Deixaste aquela j\u00f3ia morrer perto de ti, que deveria resguard\u00e1-la. Aquela mulher que nos deslumbrou em Rebeldes sem causa (ou Juventude Transviada, de Nicholas Ray), e que ao pular para desencadear a corrida suicida de autom\u00f3veis tornou-se o s\u00edmbolo de uma \u00e9poca.<\/p>\n<p>Aquela mulher que conformou-se com a perda do amor por Warren Beatty em Splendor in the Grass, (de Elia Kazan) e que foi-se para sempre, sumindo no horizonte conformada com a vida med\u00edocre que levaria. Aquele olh\u00e3o bonito, aquele rosto de princesa, aquele sofrimento por ser t\u00e3o bela e talentosa. Por isso chegou a nossa vez. N\u00f3s colhemos Natalie do ch\u00e3o (ela treme o corpo todo) e a suspendemos em nossos bra\u00e7os e dizemos para ela: vamos voltar para casa, para a morada da s\u00e9tima arte, hoje assassinada, mas que de vez em quando ressuscita, quando os donos do mercado cochilam, quando permitem, sem querer, que haja acertos. N\u00f3s a colocamos na garupa e a levamos para a seguran\u00e7a, para o lugar o\u00adnde ficar\u00e1 com os seus. Aprendemos isso na sess\u00e3o das quatro, quando havia cinema e quando t\u00ednhamos idade suficiente para cultivar a esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o escrevo sobre cinema, escrevo sobre o que cinema faz comigo. No centro do colar de obras-primas, alguns filmes comp\u00f5em uma esp\u00e9cie de Capela Sistina. Os Rastreadores (The Searchers, ou Rastros de \u00d3dio), de John Ford, \u00e9 um deles. O plano mais copiado de toda a hist\u00f3ria \u00e9 a de Ethan (John Wayne) saindo pelo deserto afora, tr\u00f4pego, com os p\u00e9s para dentro, com aquele caminhar que ele construiu, mas em ru\u00ednas, afastando-se da c\u00e2mara, que o filma de costas, emoldurado por duas tarjas pretas laterais. 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