{"id":161,"date":"2005-05-22T17:30:51","date_gmt":"2005-05-22T19:30:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=161"},"modified":"2009-12-21T00:42:16","modified_gmt":"2009-12-21T02:42:16","slug":"a-prisao-das-ideias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-prisao-das-ideias","title":{"rendered":"A PRIS\u00c3O DAS ID\u00c9IAS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s <\/strong><\/p>\n<p>Um exemplo do conceito de mente mediana, criado pelo autor, \u00e9 o que se costuma fazer com livros como este: reproduz-se infinitamente, nos espa\u00e7os da m\u00eddia impressa e digital, os resumos que a pr\u00f3pria obra traz na orelha e na contracapa. Essa clonagem obrigat\u00f3ria perpassa toda a divulga\u00e7\u00e3o de livros dispon\u00edvel, com algumas exce\u00e7\u00f5es (resenhas assinadas, originais). Nesse vasto espa\u00e7o de difus\u00e3o de uma obra, n\u00e3o h\u00e1 perigo de existir manifesta\u00e7\u00f5es de criatividade. A imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o interage com o conte\u00fado e os respons\u00e1veis se limitam a exibir os contornos de um trabalho que guarda uma s\u00e9rie de provoca\u00e7\u00f5es, mas que praticamente nada sugere entre a maioria dos que divulgam, primeiro, e entre os que se convencem da necessidade de consumi-lo, depois. \u00c9 tudo o que Curtis White denuncia no livro A Mente Mediana (tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Roberto Mendes Gon\u00e7alves, W11\/Francis, 224 p\u00e1gs., R$ 36), que se originou da repercuss\u00e3o a um artigo seu publicado na imprensa americana. Professor de Ingl\u00eas na Universidade Estadual de Illinois, White denuncia a mente mediana como uma pol\u00edtica cultural que abre caminho e cresce enquanto gente consagrada ligada \u00e0 cultura, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, se envolve numa luta de vida ou morte (como a pol\u00eamica sobre o c\u00e2none liter\u00e1rio, por exemplo, provocada por Harold Bloom).<\/p>\n<p>Trata-se de um conceito complexo que merece aten\u00e7\u00e3o e costuma gerar equ\u00edvocos quando a divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 apressada. A mente mediana n\u00e3o \u00e9 uma mentalidade, como escreveu um desses resenhistas an\u00f4nimos. Mas uma pol\u00edtica, que serve \u00e0 atual ditadura global das finan\u00e7as monopolizadas e do estado de terror implantado pelo complexo militar e pol\u00edtico americano a partir de 11\/9 de 2001. A explica\u00e7\u00e3o dos motivos que erradicaram a capacidade de pensar dos cidad\u00e3os \u00e9 dada dialeticamente: porque isso interessa ao poder estabelecido, j\u00e1 que o exerc\u00edcio da imagina\u00e7\u00e3o criadora serve s\u00f3 para arranjar encrenca, como aconteceu nos anos 60 (uma das refer\u00eancias do autor, junto com o Iluminismo e a obra do fil\u00f3sofo Derrida). \u00c9 por isso que a imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 soterrada pela necessidade de padronizar tudo, de tratar as manifesta\u00e7\u00f5es culturais de maneira indiferenciada, fazendo t\u00e1bula rasa de obras e autores e distorcendo a vis\u00e3o adequada desse gigantesco trabalho humano, hoje confinado numa penitenci\u00e1ria administrada pela mediocridade armada.<\/p>\n<p>Um dos pontos altos desse ensaio \u00e9 a leitura livre de obras aparentemente inocentes e que no fundo preparam a percep\u00e7\u00e3o coletiva para as trag\u00e9dias aprontadas pelo Estado. \u00c9 o que ele faz ao desmontar as verdadeiras inten\u00e7\u00f5es de Spielberg no filme O Resgate do Soldado Ryan (que, para White, justifica o assassinato de prisioneiros de guerra e prepara o pa\u00eds para a futura invas\u00e3o do Iraque), e quando denuncia o papel da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como a porta-voz dos donos do poder na ci\u00eancia (que por dever de of\u00edcio e estrat\u00e9gia gostam de ficar mudos). N\u00e3o escapam do fio da sua navalha a revolu\u00e7\u00e3o digital que se acoplou aos jarg\u00f5es do futurismo para justificar mais concentra\u00e7\u00e3o de renda. A maneira como usa suas ferramentas podem ser adotadas como vingan\u00e7a pelos brasileiros que est\u00e3o sob o tac\u00e3o das linguagens corporativas (o pesadelo dos anos 90, assimilado no escravagismo brasileiro como reitera\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is sociais fundados na opress\u00e3o e na divis\u00e3o radical de classes antag\u00f4nicas). Ou que procuram falsas sa\u00eddas nos livros, cursos e palestras da auto-ajuda espiritual (a ind\u00fastria do entretenimento elevado \u00e0 categoria de religi\u00e3o pragm\u00e1tica, mas que no fundo \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de paradigmas \u00e0 m\u00e1quina de moer carne da competitividade criminosa). Justificar a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda, o aumento do fosso entre ricos e pobres por meio de a\u00e7\u00f5es pretensamente corretas e de pr\u00e1ticas falsamente espirituais (que s\u00f3 servem para compensar o grande fosso de culpa acumulado nos processos produtivos injustos) \u00e9 uma armadilha que Curtis White desmonta sem piedade. Ou usando do seu conceito favorito, desconstr\u00f3i de maneira radical, usando n\u00e3o apenas a ironia, mas a f\u00faria.<\/p>\n<p>White faz parte dessa linhagem poderosa do ensa\u00edsmo americano que cruza manifesta\u00e7\u00f5es da modernidade com par\u00e2metros s\u00f3lidos no pensamento cl\u00e1ssico das ci\u00eancias humanas. N\u00e3o se trata de justificar profundidades falsas em sitcoms da moda, como se costuma fazer na Am\u00e9rica, mas de realmente pegar as id\u00e9ias que est\u00e3o encarceradas em cub\u00edculos sem ventila\u00e7\u00e3o, na penitenci\u00e1ria dominada pela mediocridade em armas, e lev\u00e1-las para passear por algumas horas, para que possam desencarquilhar os ossos fossilizados em d\u00e9cadas de clausura. Uma resenha pode ser comparada a uma visita eventual permitida pela guarda, desde que n\u00e3o abra o port\u00e3o para que o pensamento fuja em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico. Este, precisa estar bem convencido de que esse \u00e9 o papel das id\u00e9ias que contam, o de estarem perdidas em por\u00f5es da ditadura e que qualquer esfor\u00e7o para traz\u00ea-las \u00e0 luz ser\u00e1 condenado como algo obsoleto, talvez do tempo em que a palavra intelectual n\u00e3o era considerada nome feio.<\/p>\n<p>O Brasil se ressente desse tipo de ousadia, tanto nos ensaios em revistas culturais (raras entre n\u00f3s) quanto nas resenhas nas se\u00e7\u00f5es existentes na imprensa. H\u00e1, nestes dois of\u00edcios, a carga perniciosa da cultura brasileira formatada na desigualdade, pois abordar um tema ou um livro em espa\u00e7os nobres da grande imprensa \u00e9, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, um sorteio de cartas marcadas. H\u00e1 uma insist\u00eancia em determinado n\u00famero de autores e um consenso entre id\u00e9ias que n\u00e3o provocam nenhuma repercuss\u00e3o, pois esse \u00e9 o objetivo da mente mediana entre n\u00f3s, muito mais avassaladora do que a apontada no livro. Pois se Curtis White desmonta a farsa de programas que se dizem culturais e s\u00e3o apenas arapucas cheias de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es e apela\u00e7\u00f5es de audi\u00eancia, n\u00f3s nos ressentimos at\u00e9 mesmo desse tipo de contrafa\u00e7\u00e3o, pois nada possu\u00edmos ao que se assemelha a um programa cultural na nossa televis\u00e3o, por exemplo. Nosso buraco \u00e9 muito mais embaixo e \u00e9 nele que devemos trafegar. \u00c9 preciso construir uma reputa\u00e7\u00e3o s\u00f3lida para a cr\u00edtica aprofundada sobre o que se produz na televis\u00e3o, no r\u00e1dio e na m\u00eddia impressa.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de seguir os passos do ensa\u00edsmo americano, mas arrostar a responsabilidade de atacar frontalmente o que \u00e9 impingido \u00e0 for\u00e7a na na\u00e7\u00e3o: uma seq\u00fc\u00eancia de falas contaminadas pelo poder, reproduzidas em rede pela m\u00eddia, e que n\u00e3o provoca o m\u00ednimo esbo\u00e7o de rea\u00e7\u00e3o negativa. Nesse pesadelo, produ\u00e7\u00f5es da imagina\u00e7\u00e3o como o discurso pol\u00edtico, tanto nas elei\u00e7\u00f5es quanto no exerc\u00edcio dos mandatos, trafegam pelos interesses de um mando desgovernado, enquanto a cidadania padece de mudez doentia. Cada pequeno canto dispon\u00edvel deve ser ocupado pela imagina\u00e7\u00e3o criadora de que nos fala Curtis White, para que possamos desencadear a supera\u00e7\u00e3o de nossas endemias culturais, fonte de nossos terrores sociais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ensaio \u00e9 como levar o pensamento encarcerado para tomar um pouco de sol no p\u00e1tio. \u00c9 quando ele pode sonhar com a liberdade. Resenha sobre o livro &#8220;A Mente Mediana&#8221;, de Curtis White (W11\/Francis).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=161"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1513,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161\/revisions\/1513"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}