{"id":163,"date":"2005-05-22T17:32:39","date_gmt":"2005-05-22T19:32:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=163"},"modified":"2009-12-20T22:49:46","modified_gmt":"2009-12-21T00:49:46","slug":"vidas-secas-o-humano-como-ultima-gota","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/vidas-secas-o-humano-como-ultima-gota","title":{"rendered":"VIDAS SECAS: O HUMANO COMO \u00daLTIMA GOTA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds em Vidas Secas, h\u00e1 o inferno. O clima e a geografia aliam-se \u00e0 opress\u00e3o econ\u00f4mica para expulsar a fam\u00edlia que busca a sobreviv\u00eancia na fuga. O \u00faltimo degrau a que desce o grupo humano \u00e9 representado pelo sacrif\u00edcio dos animais dom\u00e9sticos &#8211; o gado, primeiro, depois Baleia, a cadela v\u00edtima de um tiro de miseric\u00f3rdia, e finalmente o papagaio, transformado em refei\u00e7\u00e3o. Nada mais existe abaixo das pessoas. Elas s\u00e3o a \u00faltima gota do deserto que n\u00e3o leva a nada. Nesse territ\u00f3rio varrido pela trag\u00e9dia, s\u00f3 resta o sol, que engessa o movimento, e o ch\u00e3o calcinado, que tortura tanto o espa\u00e7o dom\u00e9stico quanto a estrada sem futuro. Met\u00e1fora da perdi\u00e7\u00e3o dos que buscam a sobreviv\u00eancia no pa\u00eds que n\u00e3o existe, a narrativa nada oferece a n\u00e3o ser a presen\u00e7a de um homem, uma mulher e uma crian\u00e7a, condenados por um destino que se expressa por um clar\u00e3o sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p>Sopro<\/p>\n<p>Nem a noite vem ao socorro dos brasileiros perdidos na exclus\u00e3o absoluta. A luz, a mais intensa que algu\u00e9m pode suportar, serve ent\u00e3o para definir o contorno de uma caminhada que n\u00e3o salva os protagonistas, mas produz a revela\u00e7\u00e3o de quem assiste. N\u00e3o \u00e9 um processo qu\u00edmico da imagem que surge de um negativo invis\u00edvel, mas a inoportuna claridade que se introduz bruscamente na sala escura e queima o filme com as chamas da perdi\u00e7\u00e3o. Vidas Secas nos escapa como um segredo que se mant\u00e9m intacto, porque nos expusemos demais \u00e0 verdade, e o que ela produziu n\u00e3o foi assombro nem desesperan\u00e7a, mas a evid\u00eancia de que somos feitos daquela terra que recusa o barro e, portanto, se nega a estruturar a vida para que nela encontre pouso qualquer sopro de alma imortal. O milagre \u00e9 que as pessoas que s\u00e3o oprimidas at\u00e9 a redu\u00e7\u00e3o absoluta do gesto im\u00f3vel animam a consci\u00eancia como uma transfigura\u00e7\u00e3o. Vemos do que \u00e9 capaz o que se conhece por gente, quando nada lhes assiste, nem a mais miser\u00e1vel das miseric\u00f3rdias. Eles insistem no andar, como se fossem tangidos pelo que encontraram depois que a morte lhes tolheu o passo. No cruzar desse umbral, eles chegam at\u00e9 n\u00f3s com reservas de suor, com palavras obsessivas, com as caras retorcidas por algo que pode se confundir com determina\u00e7\u00e3o, mas que \u00e9 apenas a coragem de quem sabe que nada possui, a n\u00e3o ser a vida ressecada pela vastid\u00e3o da injusti\u00e7a. N\u00e3o se trata de um libelo ou de uma den\u00fancia, mas da queda rumo a uma possibilidade maior do que qualquer ilus\u00e3o. Nelson Pereira dos Santos queima o filme para sempre quando transforma sua saga num encontro entre o conforto do espectador e a viol\u00eancia do que \u00e9 exposto. Isso \u00e9 o que somos, nos diz o Mestre, e iremos ainda mais fundo na nega\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 volta que nos redima, n\u00e3o h\u00e1 final de sess\u00e3o que nos aliene, n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria que se apague. Quando as imagens de Vidas Secas nos perseguem, sabemos que \u00e9 l\u00e1 que continuamos a existir, a desafiar o destino com nossa teimosia.<\/p>\n<p>Traste<\/p>\n<p>A literatura \u00e9 outra coisa. A aparente secura de Graciliano Ramos, transposta para o cinema, disp\u00f5e do controle da palavra. O filme \u00e9 o olhar que n\u00e3o se esconde. Vidas Secas \u00e9 o filme que nos recusamos a ver de frente, n\u00e3o porque a luz nos cegue, mas porque a luz nos flagra. Somos trespassados pelo mist\u00e9rio da nossa imobilidade e s\u00f3 o filme fala, como um eremita iluminado pela dor. Descobrimos nesse instante que nenhuma palavra ir\u00e1 apagar a revela\u00e7\u00e3o e nem mesmo se inundarmos o deserto com todas as \u00e1guas que dispomos poderemos fugir do presente indissol\u00favel desse filme magistral: a j\u00f3ia indestrut\u00edvel de uma porta que se abre como um dil\u00favio sem \u00e1gua nem sangue. \u00c9 quando vemos o humano reduzido \u00e0 sua ess\u00eancia: o abandono num universo hostil, a esperan\u00e7a evaporada como a miragem que vira areia, o transtorno da falta de sa\u00eddas, a loucura de estar vivo, mesmo que tudo conspire para o sumi\u00e7o do que chamamos vida. Adeus, inoc\u00eancia perdida. Vidas Secas veio para ficar. Somos Baleia diante do fuzil, somos o del\u00edrio embaixo do arbusto de espinhos, somos o caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao nada. Nada nos livra dessa heran\u00e7a, a n\u00e3o ser a vontade de ver o que o filme nos entrega: o real como uma fantasmagoria, o pesadelo como um passeio no caos, a responsabilidade deixada para tr\u00e1s como um traste na poeira de um caminho sem volta. Somos a \u00faltima gota, na paisagem que nos nega.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 pa\u00eds em Vidas Secas, h\u00e1 o inferno. O clima e a geografia aliam-se \u00e0 opress\u00e3o econ\u00f4mica para expulsar a fam\u00edlia que busca a sobreviv\u00eancia na fuga. O \u00faltimo degrau a que desce o grupo humano \u00e9 representado pelo sacrif\u00edcio dos animais dom\u00e9sticos. Nada mais existe abaixo das pessoas. 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