{"id":165,"date":"2005-05-22T17:34:16","date_gmt":"2005-05-22T19:34:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=165"},"modified":"2009-12-21T20:29:10","modified_gmt":"2009-12-21T22:29:10","slug":"leitura-de-elevador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/leitura-de-elevador","title":{"rendered":"LEITURA DE ELEVADOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Quando o calor come\u00e7a a aumentar, os livros n\u00e3o s\u00e3o mais escondidos debaixo de grossos casacos. As roupas s\u00e3o leves, portanto o material fica bem guardado num daqueles compartimentos que existem no elevador. Mais precisamente o\u00adnde se guarda o telefone de emerg\u00eancia. A ascensorista ent\u00e3o tira um exemplar e mostra para o passageiro c\u00famplice, que lhe pergunta sobre a atual leitura. Ela mostra uma das suas j\u00f3ias todas manuseadas, de folhas amarelas. \u00c9 certo que ela adquire seus objetos de desejo em sebos, em revistarias com ba\u00fas de ossos, o\u00adnde se pode garimpar preciosidades. Ela l\u00ea escondido entre um andar e outro, jamais no t\u00e9rreo, lugar de rigorosa fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Advert\u00eancia <\/strong><\/p>\n<p>Nunca vi seu algoz, nem sei quem \u00e9 que a pro\u00edbe de entregar-se \u00e0 leitura em pleno expediente. Mas deve ser gente pesada, com poder de demiti-la. At\u00e9 hoje, pelo que sei, n\u00e3o foi flagrada. Possivelmente s\u00f3 uma vez, quando foi advertida de que ler livros \u00e9 algo perigoso para uma ascensorista, pois desvia sua aten\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o, muito mais importante. Mas vamos imaginar as amarras a que \u00e9 submetida uma pessoa sentada, em posi\u00e7\u00e3o de sentido, sempre atenta a todos os passageiros e andares, pronta para retribuir um obrigado, a avisar se sobe ou desce, pois os sinais luminosos e os barulhos t\u00edpicos n\u00e3o fazem a cabe\u00e7a dos cidad\u00e3os de uma cultura \u00e1grafa, que s\u00f3 entendem comandos verbais. Se o sinal verde ou vermelho aparecer e um grande plim estourar nos seus ouvidos, eles ficam na mesma. Mas se ouvirem a palavra certa, ent\u00e3o tudo fica compreens\u00edvel. Ela ent\u00e3o pacientemente avisa a dire\u00e7\u00e3o do seu ve\u00edculo, enfrentando toda esp\u00e9cie de mal-estar, pois h\u00e1 impaci\u00eancia demais num pr\u00e9dio de 11 andares e que \u00e9 servido por apenas dois elevadores. Ela dribla todos esses obst\u00e1culos e consegue desenvolver uma t\u00e1tica de leitura impressionante. L\u00ea rapidamente um par\u00e1grafo ou metade dele enquanto faz uma viagem de ida e volta, sem jamais descurar do seu of\u00edcio, que pela sua monotonia cl\u00e1ssica, pelo espa\u00e7o confinado e sem janelas, foi feito para enlouquecer quem fica nele por dias e semanas e meses e anos, ganhando um sal\u00e1rio miser\u00e1vel no pa\u00eds do subemprego. Ela poderia ser funcion\u00e1ria de uma biblioteca, se bibliotecas houvessem. Poderia cuidar de sua paix\u00e3o, os livros, oito horas por dia e ainda teria um acervo dispon\u00edvel para ler o dia todo e talvez \u00e0 noite.<\/p>\n<p><strong>Romantismo <\/strong><\/p>\n<p>A ascensorista que l\u00ea compulsivamente tem uma prefer\u00eancia: hist\u00f3rias rom\u00e2nticas. Vislumbro algumas capas que exibem bailes do s\u00e9culo 19, com galantes cavalheiros enla\u00e7ando gentis senhoritas. Mas n\u00e3o \u00e9 essa apenas sua leitura. Ela ousa num trama mais expl\u00edcito de espionagem, erotismo e suspense, e n\u00e3o teme grossura nenhuma de livro algum, pois a tudo devora sem piedade. Quando abriu a portinhola do telefone, vi que tinha uns quatro volumes apertados dentro. Lembrei o cl\u00e1ssico filme Faherenheit 451, de Fran\u00e7ois Truffaut, em que os livros eram impiedosamente queimados pelos bombeiros, investidos num trabalho pelo avesso, pois em vez de apagar, punham fogo. Quando o her\u00f3i do filme deu-se conta que fazia parte de uma sistem\u00e1tica obra de demoli\u00e7\u00e3o cultural, para que as pessoas ficassem \u00e0 merc\u00ea da manipula\u00e7\u00e3o via televis\u00e3o, ele ent\u00e3o come\u00e7ou a estocar livros nos arm\u00e1rios, embaixo da cama, no forro, nos v\u00e3os existentes das lumin\u00e1rias. Quando foi descoberto, fugiu para um lugar secreto, o\u00adnde velhos leitores ditavam livros de mem\u00f3ria para aprendizes. Era a forma de guardar um livro na cabe\u00e7a, pois dava-se como certa a destrui\u00e7\u00e3o total de todas a bibliotecas. Num pesadelo de fiscaliza\u00e7\u00e3o total via sistema integrado audiovisual, ele foge em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade, para o territ\u00f3rio em que foi confinado, longe do terror anti-livro.<\/p>\n<p><strong>Final feliz <\/strong><\/p>\n<p>A ascensorista que l\u00ea escondido enquanto trabalha \u00e9 real e n\u00e3o posso dizer seu nome porque n\u00e3o sei nem perguntei, e tamb\u00e9m porque preciso preservar sua identidade. Ela poder\u00e1 ser demitida se for descoberta. E assim perder\u00e1 seu \u00fanico emprego que conseguiu neste deserto em que se transformou o pa\u00eds o\u00adnde o fundamentalismo, o obscurantismo e o fanatismo avan\u00e7am rapidamente, em rede, por todos os cantos.O mais grave do insucesso da falsa democracia em que vivemos \u00e9 que ela demole todas as esperan\u00e7as da popula\u00e7\u00e3o numa vida democr\u00e1tica. Em massa, as pessoas voltam-se para as certezas gran\u00edticas, j\u00e1 que n\u00e3o querem apostar na diversidade, na d\u00favida, no encantamento de estar vivo, emocionar-se com uma hist\u00f3ria escrita pelo talento e impressa num produto que pode correr de m\u00e3o em m\u00e3o e acabar fechado num pequeno espa\u00e7o de um elevador. A ascensorista gosta de ler. Isso dribla a repress\u00e3o, ela se sente triunfante com seu mergulho di\u00e1rio na literatura que adora. Eu sigo seu paciente trabalho de ocultamento e tor\u00e7o por ela. Se um dia alguma tropa invadir o recinto para dar o flagrante e lev\u00e1-la presa, amea\u00e7ando queimar seus livros, saberei que a hora chegou. O livro que vou decorar precisa ser curto, pois sofro de limita\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria. Talvez Lorca e seu Llanto para Ign\u00e1cio Sanchez Mejia (vete Ign\u00e1cio, duerme, vuela, reposa\/ tambi\u00e9n se muere el mar). Talvez aqueles sonetos do poeta ingl\u00eas que a certa altura diz: a um dia de ver\u00e3o n\u00e3o posso comparar-te\/ pois sempre e a toda hora \u00e9s muito mais am\u00e1vel. Gostaria de saber qual livro a ascensorista iria decorar. Possivelmente uma hist\u00f3ria de final feliz, que a leve para longe num cavalo branco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o calor come\u00e7a a aumentar, os livros n\u00e3o s\u00e3o mais escondidos debaixo de grossos casacos. As roupas s\u00e3o leves, portanto o material fica bem guardado num daqueles compartimentos que existem no elevador. 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