{"id":167,"date":"2005-05-22T17:35:53","date_gmt":"2005-05-22T19:35:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=167"},"modified":"2009-12-21T20:51:11","modified_gmt":"2009-12-21T22:51:11","slug":"bunuel-a-culpa-sob-tortura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/bunuel-a-culpa-sob-tortura","title":{"rendered":"BU\u00d1UEL, A CULPA SOB TORTURA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Bu\u00f1uel \u00e9 o pres\u00eddio da culpa, o\u00adnde o prisioneiro cumpre pena perp\u00e9tua. Como n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o, o encarcerado decide virar torturador. Quem sabe ocupando o lugar do algoz haver\u00e1 uma chance de escapar? O truque \u00e9 fazer com que a culpa sob tortura enfim revele sua insignific\u00e2ncia, e negue sua justificativa de existir. Aprofundando o crime no corpo da v\u00edtima (a Bela da Tarde e seus amantes asquerosos) a culpa poderia deixar enfim de existir, j\u00e1 que ao atingir o limite ter\u00e1 a oportunidade de se esfumar. N\u00e3o sabemos se isso realmente acontece. O que fica \u00e9 o relato desse processo, em que as pessoas se cercam de impossibilidades porque sabem o quanto lhes \u00e9 vedada uma sa\u00edda. O anjo exterminador \u00e9 esse n\u00f3 do destino, que faz os grupos humanos se condenarem \u00e0 cela. Morrem um a um enquanto cumprem rituais aparentemente libert\u00e1rios, pela transgress\u00e3o, que no fundo apenas consolidam o material de que s\u00e3o feitos, que se transforma em concreto e reflete a brutalidade de um tempo de inacess\u00edvel salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Crime<\/p>\n<p>Na mais importante cena do melhor dos Godfather, o de n\u00famero tr\u00eas, Raf Valone \u00e9 o futuro papa que conversa com Pacino\/Corleone. Para convencer seu interlocutor a confessar seus pecados para obter a absolvi\u00e7\u00e3o, ele explica que o cristianismo jamais vingou na Europa, terra avessa \u00e0 caridade e a outros princ\u00edpios do Salvador. Corleone faz parte dessa igreja fundada na impossibilidade, que consegue vomitar para o cardeal seu maior crime ? o assassinato do pr\u00f3prio irm\u00e3o ? mas ele sabe que est\u00e1 condenado. Bu\u00f1uel trabalha essa condena\u00e7\u00e3o. Seu pesadelo \u00e9 o catolicismo fundamentalista ib\u00e9rico e o surrealismo foi apenas um dos seus esfor\u00e7os para escapar dessa rede. Mas tudo o que fez est\u00e1 impregnado pelo avesso, a carne viva do cristianismo sem tr\u00e9guas, a culpa batizada pelo sangue da inoc\u00eancia perdida. Antes de ser o grande cineasta em que se transformou, ele foi at\u00e9 ator, encarnando num dos filmes o papel de um padre. E como foi convincente! Vemos nessa interpreta\u00e7\u00e3o o Mal vestindo a batina, naquela \u00e9poca em que a Igreja Cat\u00f3lica a tudo dominava, principalmente o imagin\u00e1rio do povo e da arte. Mergulhar fundo no horror sugerido pela repress\u00e3o toma a forma, em Bu\u00f1uel, do mais intrag\u00e1vel cinema, o que \u00e9 visto para expiar a culpa de estar preso \u00e0s correntes da falsidade do Bem. H\u00e1 maldi\u00e7\u00e3o o tempo todo e esse cinema escolhe a iconografia da harmonia e da beleza para cuspir nela. \u00c9 revoltante ver Catherine Deneuve entregar-se daquela forma para um japon\u00eas gordo ou um Pierre Clementi s\u00e1dico. N\u00e3o existe ar na mesa o\u00adnde as pessoas compartilham a mesma impossibilidade. N\u00e3o h\u00e1 olhar suport\u00e1vel diante do corte feito na retina em O C\u00e3o Andaluz. N\u00e3o gosto de Bu\u00f1uel, mas o espectador crismado no gosto pelo Belo precisa levar essa surra para n\u00e3o criar mais uma armadilha quando \u00e9 convidado a ver. Esse anti-cinema \u00e9 necess\u00e1rio como o amargor numa overdose de a\u00e7\u00facar. Ele inaugura m\u00faltiplas solu\u00e7\u00f5es para quem precisa soltar os pr\u00f3prios terrores. Mas, influenciados por Bu\u00f1uel, e ao mesmo tempo liberto dele, seus seguidores se limitam a assumir a casca dos seus filmes, jamais o magma fundo que o gerou.<\/p>\n<p>On\u00edvoro<\/p>\n<p>Naquela cidade distante, comparec\u00edamos domingo ao cinema como a uma obriga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00edamos ver os filmes, e sim cumprir o programa proposto. V\u00edamos assim faroestes fabricados em massa em preto e branco com nossos her\u00f3is favoritos pela manh\u00e3, antecedidos por algum festival de desenhos animados. Na sess\u00e3o da uma da tarde, era programa duplo: um filme de pirata e uma com\u00e9dia da Atl\u00e2ntida. Na sess\u00e3o das quatro, que era considerada nobre, grandes espect\u00e1culos, como Os Dez Mandamentos, Spartacus, Os Vikings. \u00c0 noite n\u00e3o \u00edamos.<br \/>\nEra o reduto dos adultos e dos execr\u00e1veis filmes de amor. \u00c0s vezes nos tra\u00edam e colocavam alguma com\u00e9dia rom\u00e2ntica nas nossas sess\u00f5es exclusivas. Havia uma decep\u00e7\u00e3o geral: ah, \u00e9 de amooor, diz\u00edamos, furiosos. Ent\u00e3o anarquiz\u00e1vamos o recinto at\u00e9 os lanterninhas surtarem de \u00f3dio. Nas sess\u00f5es mais exclusivas ainda, a matinal e a matin\u00e9e da uma da tarde, bat\u00edamos os p\u00e9s e assobi\u00e1vamos como loucos. Antes de entrar no cinema, trocas ou compras de revistas em quadrinhos: Bolinha, capit\u00e3o Marvel, Rocky Lane, Superhomem. No cine Teatro Carlos Gomes t\u00ednhamos os seriados, os mesmos que influenciaram George Lucas e Spielberg, que s\u00e3o da minha idade. Lentes que concentravam raios e destru\u00edam montanhas, pessoas que voavam, mocinhos que se salvavam dos saltos no abismo, bandidos atr\u00e1s de m\u00e1scaras met\u00e1licas. S\u00f3 quando me mudei para Porto Alegre, a cidade da cultura, soube o que era escolher o filme a ser visto. Assim mesmo, continuei o\u00adn\u00edvoro. T\u00ednhamos salas maravilhosas, como o Cacique, o Guarani, o Atlas. Por toda a cidade existiam salas de primeiro time. Vi todos os filmes de vanguarda e todas as superprodu\u00e7\u00f5es. Via at\u00e9 Fernandel, filmes mexicanos, argentinos, ingleses. Morava dentro do cinema, antes que fosse destru\u00eddo. Naquele tempo, n\u00e3o sab\u00edamos que estavam aguardando o momento para acabar com nossa alegria. Eles tinham outros planos para o mundo que mudava de rumo e o cinema influ\u00eda com sua cascata de id\u00e9ias e imagens inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>Garras<\/p>\n<p>Hoje, passo em frente a uma locadora de dvds e v\u00eddeos e vejo apenas porcarias em destaque. Quando eu dispunha dessa brincadeira (as despesas enormes que impuseram para isso n\u00e3o permitem mais esse luxo) costumava ser abordado pelos atendentes: qual o tipo de filme que o senhor gosta? N\u00e3o divido os filmes em tipos, respondia, e gosto de tudo. Mas tirava um filme atr\u00e1s do outro e n\u00e3o gostava de nenhum. A n\u00e3o ser que, por distra\u00e7\u00e3o, esquecessem alguma obra-prima na estante e eu, escondido, conseguia ent\u00e3o ver Limite, de Mario Peixoto, Aurora, de Murnau, entre outras preciosidades. Quando eu for rico novamente, voltarei a esse acervo. Por enquanto, sofro diante da TV aberta, que \u00e9 a verdadeira TV fechada. Cinema? \u00c9 dif\u00edcil ir. S\u00f3 tem sala em shopping. Uma sala do centro aqui de Floripa virou igreja evang\u00e9lica. Era isso que eles queriam! Destruir a cultura para colocar no lugar o fundamentalismo contra o qual Bu\u00f1uel lutou com todas as garras e dentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bu\u00f1uel \u00e9 o pres\u00eddio da culpa, onde o prisioneiro cumpre pena perp\u00e9tua. Como n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o, o encarcerado decide virar torturador. Quem sabe ocupando o lugar do algoz haver\u00e1 uma chance de escapar? 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