{"id":169,"date":"2005-05-22T17:37:22","date_gmt":"2005-05-22T19:37:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=169"},"modified":"2009-12-21T00:57:03","modified_gmt":"2009-12-21T02:57:03","slug":"a-despedida-em-casablanca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-despedida-em-casablanca","title":{"rendered":"A DESPEDIDA EM CASABLANCA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A \u00faltima cena de Casablanca n\u00e3o \u00e9 um desfile de chap\u00e9us de um melodrama barato, como querem as imita\u00e7\u00f5es, as clonagens e as homenagens feitas depois que o filme tornou-se um cl\u00e1ssico. A intensidade da cena vem da surpresa de Ingrid Bergman diante da decis\u00e3o de Humphrey Bogart de despach\u00e1-la de avi\u00e3o junto com o marido. O cinema daquele tempo n\u00e3o era um jogo de cartas marcadas, como o de hoje, em que as celebridades exibem a falta de talento a servi\u00e7o do megamarketing. Era um of\u00edcio duro, em que era preciso morrer em cena. Hoje, tempo do eterno presente, todos se sentem imortais, mas Bogart e Bergman sabiam que iam morrer naquele momento definitivo das suas vidas. \u00c9 essa certeza que faz do desenlace um momento supremo do cinema. Ricky renuncia ao amor, que est\u00e1 em desvantagem devido ao tempo transcorrido, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o adversa e aos h\u00e1bitos adquiridos na longa solid\u00e3o. Ingrid v\u00ea desabar seu sonho de retomar o que tinha perdido para sempre. Era tarde demais: ela tinha selado seu destino anos antes, ao abandonar seu amor numa plataforma chuvosa, por meio das palavras de um bilhete que se desmancham na tormenta. S\u00e3o destinos que se revelam por meio de um acordo no aeroporto noturno, em que a \u00fanica luz vem do olhar duro do homem que quebra o encanto, e a \u00fanica sombra \u00e9 a que pousa no rosto da mulher derrubada pelo adeus. Essa conflu\u00eancia torna Casablanca a obra-prima de um cinema focado no sentimento que perdeu o trem da Hist\u00f3ria, mas que, pela sua determina\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, conserva a for\u00e7a que move os protagonistas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 eternidade.<\/p>\n<p>Sedu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o inesquec\u00edvel, As times goes bye, \u00e9 o fruto proibido do para\u00edso criado por Ricky. Enquanto a terra entrega-se \u00e0 barb\u00e1rie ( a Cria\u00e7\u00e3o sem subterf\u00fagios, puro assombro e indiferen\u00e7a) o reduto do seu bar sobrevive por ser um territ\u00f3rio neutro na guerra. Tudo \u00e9 permitido: o jogo de p\u00f4quer entre inimigos, o contrabando de passaportes, a prostitui\u00e7\u00e3o, o alcoolismo. A \u00fanica lei \u00e9 n\u00e3o permitir que se toque essa melodia. A mulher, a estranha nesse para\u00edso inventado pela masculinidade, transgride a regra por meio da sedu\u00e7\u00e3o (toque, Sam). Seu objetivo \u00e9 resgatar o amor perdido, o sentimento que se escoou pelo ralo. Mas a conseq\u00fc\u00eancia do seu gesto \u00e9 a surpresa do homem entocado, recolhido ao ex\u00edlio depois de ter sofrido a trai\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o leva o olhar de Ricky para a presen\u00e7a da mulher, que desmascara assim aquele antro do ressentimento. O que desperta n\u00e3o \u00e9 o amor insepulto, mas a vingan\u00e7a. Vingar-se \u00e9 a obsess\u00e3o do heroismo avesso aos bons sentimentos. Ricky no fundo despreza o patriotismo, fonte da guerra, porque nenhum amor \u00e0 bandeira chega aos p\u00e9s do amor por uma mulher. Mas evitar o Falso Bem (as patriotadas, os mission\u00e1rios salvadores) n\u00e3o significa furtar-se ao engajamento. Todo o tempo o her\u00f3i precisa agir contra a tirania sem revelar suas inten\u00e7\u00f5es, porque sua carca\u00e7a \u00e9 definitiva e jamais poder\u00e1 ser flagrado pela sua extrema fragilidade, que \u00e9 o amor tra\u00eddo. Humphrey Bogart, em Casablanca, \u00e9 a segunda chance de Ad\u00e3o: ele j\u00e1 conhece as artimanhas de Eva e faz de conta que cai novamente na armadilha da sedu\u00e7\u00e3o. Obedece a mensageira da serpente (que quer salvar o marido e n\u00e3o retomar o amor) e a atrai para o abismo. Sua cartada \u00e9 que, nessa troca de blefes, Eva acaba cedendo ao que tentava evitar e enche-se de esperan\u00e7a. Ad\u00e3o se vinga ao renunciar ao amor jogando com o mesmo par de ases com que foi exclu\u00eddo: ele tamb\u00e9m tinha uma miss\u00e3o a cumprir, como ela, ao abandon\u00e1-lo. Ela tinha desistido em favor de uma tarefa vestida de nobreza, mas nua de sentimento. Ele faz o mesmo, mas ningu\u00e9m precisa saber disso.<\/p>\n<p>Paris<\/p>\n<p>A dupla ren\u00fancia, primeiro dela, depois dele, coloca o amor em Casablanca num espa\u00e7o m\u00edtico. O amor n\u00e3o pertence a eles, mas ao tempo, que joga as cartas definitivas. \u00c9 o tempo que promove o encontro e tamb\u00e9m o desenlace. Por pertencer ao tempo, o amor s\u00f3 pode ser vivido pela mem\u00f3ria. Teremos sempre Paris, diz Ricky, numa das mais belas frases finais da hist\u00f3ria do cinema. Teremos sempre Casablanca, o filme que ousou dizer o nome desse amor sem limite, que nos arrebata quando nasce, que nos destr\u00f3i quando torna-se imposs\u00edvel, que nos surpreende por ser eterno, e que guarda uma esperan\u00e7a: j\u00e1 que teremos sempre Paris, \u00e9 porque teremos sempre conosco a verdade. E a verdade identificada com o amor (e n\u00e3o com as bandeiras perec\u00edveis) \u00e9 a arma que nos defende do aniquilamento. Houve amor um dia na guerra que matou 150 milh\u00f5es de pessoas. Todos tem direito a retomar o que um dia brilhou em Paris: o amor sem identidade, fruto de Cupido, o deus crian\u00e7a que usa flecha num tempo de canh\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima cena de Casablanca n\u00e3o \u00e9 um desfile de chap\u00e9us de um melodrama barato, como querem as imita\u00e7\u00f5es, as clonagens e as homenagens feitas depois que o filme tornou-se um cl\u00e1ssico.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=169"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1541,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169\/revisions\/1541"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=169"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=169"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=169"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}