{"id":173,"date":"2005-05-22T21:47:38","date_gmt":"2005-05-22T23:47:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=173"},"modified":"2009-12-20T23:34:31","modified_gmt":"2009-12-21T01:34:31","slug":"quando-meu-pai-mudou-o-destino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quando-meu-pai-mudou-o-destino","title":{"rendered":"QUANDO MEU PAI MUDOU O DESTINO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Ele sabia se vestir. Ou melhor, sabia que seu terno, seu cabelo bem puxado para tr\u00e1s, seu bigode fino, seu sapato de verniz, seu corpo magro e firme tinham aquela postura que agradava \u00e0s mulheres. Rec\u00e9m sa\u00eddo da Brigada Militar, de o\u00adnde se retirou depois de sofrer uma injusti\u00e7a (n\u00e3o foi condecorado por bravura na guerra de 1932, quando prendeu um oficial inimigo), ele abra\u00e7ou a carreira de inspetor sanitarista, naquela \u00e9poca em que havia investimentos nessa \u00e1rea no Brasil. L\u00e1 conheceu a mo\u00e7a magra e tamb\u00e9m elegante, de passo mi\u00fado e sorriso sedutor, com olhinhos puxados de \u00edndia, cabelo preto e pele morena. Vinda de uma fam\u00edlia de propriet\u00e1rios de terra que perderam as posses com a morte do pai, ela tinha forma\u00e7\u00e3o: fora professora prim\u00e1ria e al\u00e9m disso passara uma temporada de estudos na capital. Muito religiosa, entrou em acordo antes de casar com aquele mo\u00e7o bonito, ateu, charmoso e um apaixonado pela ca\u00e7a e a pesca. Poderia freq\u00fcentar a igreja e encaminhar os filhos para a religi\u00e3o, que ele n\u00e3o colocaria nenhum obst\u00e1culo. Ele seguiu \u00e0 risca seu acordo, mas surpreendeu em outros itens. Decidiu, por exemplo, um belo dia, que n\u00e3o queria mais a carreira p\u00fablica. Havia muito conflito por pouco dinheiro. Al\u00e9m disso, era uma rotina muito mon\u00f3tona. O que fazer, se j\u00e1 tinham tr\u00eas crian\u00e7as em casa? Resolveu ent\u00e3o juntar os cacarecos, colocar mulher e filhos na casa de um parente e partir para uma longa pescaria.<\/p>\n<p><strong>BRILHO <\/strong>&#8211; L\u00e1 no meio do mato ele achava a si mesmo, o homem perdido na cidade. Sentia-se aliviado e tornava-se humano, fora da carca\u00e7a que precisou inventar para sobreviver. Pertenceu tamb\u00e9m a uma fam\u00edlia \u00f3rf\u00e3 de pai. O velho, tenor de circo, daqueles que cantavam \u00e1rias no final dos espet\u00e1culos mambembes das periferias, abandonou mulher com oito filhos e saiu pelo mundo para nunca mais voltar. Seu \u00edmpeto, talvez, fosse fazer o mesmo, mas ele n\u00e3o repetiria o erro. Era um homem de palavra. Mas primeiro deixou-se levar, dias e dias pescando, vivendo do peixe, que ele fritava com a maior tranq\u00fcilidade na beira de um arroio farto e generoso, em terras pertencentes a um estancieiro amigo seu. Tivera uma inf\u00e2ncia pobre e lutou bravamente todos os dias. Com nove anos de idade, de p\u00e9 no ch\u00e3o, vendia pastel . Um dia levou um relha\u00e7o de um carroceiro, que o atingiu por pura maldade. N\u00e3o teve d\u00favida: jogou uma pedrada nas costas do agressor. Na escola, fizera t\u00e3o bem o primeiro ano prim\u00e1rio, que passou imediatamente para o terceiro. Esp\u00edrito livre, caiu no erro de espregui\u00e7ar-se, uma vez s\u00f3, em aula. Levou uma reguada da professora naquela \u00e9poca da palmat\u00f3ria. Levantou-se, pegou seu bon\u00e9 e n\u00e3o voltou mais. Tornou-se um devorador de livros, jornais e revistas. Lia tudo, at\u00e9 classificados. Queria que os filhos fossem longe, fizessem faculdade e doutorado, e tivessem a iniciativa de adiantar-se aos professores. N\u00e3o poderia, portanto, voltar atr\u00e1s. Levantou-se na beira do arroio, viu as b\u00f3ias do seu espinhel, sentou-se no seu banco e decidiu: vou montar um neg\u00f3cio, sair dessa vida prec\u00e1ria. Tinham j\u00e1 se passado 15 dias. Voltou sujo, barbudo, mas com um estranho brilho no olhar ardosiado.<\/p>\n<p><strong>NEG\u00d3CIOS<\/strong> &#8211; Montou ent\u00e3o uma lenheira, depois um armaz\u00e9m, depois uma loja de brinquedos com uma barbearia ao fundo e prosperou. Tonou-se o \u00fanico rico entre os irm\u00e3os. Um deles era pescador, dois aposentados, uma irm\u00e3 vi\u00fava, numa sucess\u00e3o de pessoas que costumavam passar o ver\u00e3o naquela esquina generosa, o\u00adnde a todos acolhia com seu charme de anfitri\u00e3o. Dizia-se feliz, pois um belo dia mudara o destino. Gostava de iniciativas, de pessoas se virando, de sucesso. Mas jamais fez amizade na elite, com algumas exce\u00e7\u00f5es, pessoas que o admiravam e aceitavam como era: um homem franco, independente e que \u00e0s vezes poderia ser confundido com uma pessoa hostil. Era s\u00f3cio de todos os clubes, os dos ricos e os da classe m\u00e9dia. N\u00e3o freq\u00fcentava nenhum. Por um tempo, gostou de jogar. Sentia-se seguro, com sorte. Mas nem sempre teve sorte. Caiu, mas levantou-se. Montou numa garagem na sa\u00edda da ponte internacional uma pequena casa de casa e pesca que se transformou num com\u00e9rcio de variedades, desde garrafa t\u00e9rmica at\u00e9 cadeira desmont\u00e1vel. Nessa casa estreei minha primeira ocupa\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p><strong>EXEMPLO <\/strong>&#8211; Quinto filho daquele casal, eu vivia no mundo da lua. Nada sabia da hist\u00f3ria que os dois criavam ao redor de si. Sem enxergar, eu fazia parte daquele enredo. E dali sa\u00ed para o mundo, equipado com o que tinha de melhor: o rompante do meu pai voluntarioso e livre, a concentra\u00e7\u00e3o e a verve da minha m\u00e3e. Minha literatura tem essa origem: o pai que enfrentava a correnteza, a m\u00e3e que aben\u00e7oava a partida. E a possibilidade, pelo exemplo, de um belo dia mudar o destino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele sabia se vestir. 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