{"id":175,"date":"2005-05-23T21:50:03","date_gmt":"2005-05-23T23:50:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=175"},"modified":"2009-12-20T20:36:59","modified_gmt":"2009-12-20T22:36:59","slug":"onde-nao-ha-espaco-ha-romario","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/onde-nao-ha-espaco-ha-romario","title":{"rendered":"ONDE N\u00c3O H\u00c1 ESPA\u00c7O, H\u00c1 ROM\u00c1RIO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nN\u00e3o importa o tamanho do pa\u00eds. Importa quanto espa\u00e7o existe nele para se viver. A posse folgada do territ\u00f3rio por parte do privil\u00e9gio confina a maior parte do povo aos limites impostos ao menino Rom\u00e1rio. Nessa escassez o grande craque inventou sua arte. N\u00e3o se trata de sistemas decimais de metragem. Mas de possibilidades que a rua clandestina, o terreno derrubado para a estrada, o muro que rouba o cal\u00e7amento oferecem para que o corpo possa driblar o limite e encontrar um caminho na \u00e1rea cercada de zagueiros ferozes. Para peitar essa barra, \u00e9 preciso chamar a si a responsabilidade. E foi isso o que aconteceu. Em 1994, quando a na\u00e7\u00e3o estava erma de vit\u00f3rias, depois de uma d\u00e9cada perdida em fracassos sucessivos, veio de longe, do outro lado do mundo, curado de uma fratura nas pernas, o cara que tirou o pa\u00eds do atoleiro das certezas e inaugurou a d\u00favida, ou seja, a chance de um salto bem sucedido no abismo. N\u00e3o havia espa\u00e7o para nada: est\u00e1vamos por um fio no jogo decisivo das eliminat\u00f3rias. Havia apenas Rom\u00e1rio. E isso bastou para que o grande pa\u00eds se reconciliasse com seu destino.<br \/>\n<strong><br \/>\nCHUTE<\/strong> &#8211; Foi nesse momento, quando perd\u00edamos a esperan\u00e7a de participar na Copa dos Estados Unidos, no \u00faltimo jogo contra o Uruguai, que o grande craque disse: vamos nos classificar e vamos ganhar a copa. Foi a \u00fanica promessa cumprida feita por um homem p\u00fablico no Brasil do final do s\u00e9culo. Quando\u00a0ele rompeu com o Fluminense e preparava-se para despedir-se dos jogos internacionais com um amistoso contra o M\u00e9xico em Los Angeles dia 8 de novembro, Rom\u00e1rio novamente chamou para si a responsabilidade. Declarou-se o maior depois de Pel\u00e9. Ronaldo Fen\u00f4meno deveria ter aprendido algo na sua vida e calado a boca. No lugar de dar uma resposta malcriada, de menino que n\u00e3o reconhece a lideran\u00e7a e superioridade de quem o precedeu (e o ajudou no in\u00edcio de carreira), deveria ter aplaudido. Foi preciso que Rom\u00e1rio dissesse o \u00f3bvio para que ca\u00edssem em cima dele. Mas ningu\u00e9m dir\u00e1 por ele. Assim como ningu\u00e9m arriscava nossa classifica\u00e7\u00e3o em 94, como ningu\u00e9m acreditava que a teimosia retranqueira de Parreira fosse dar frutos naquela Copa. Rom\u00e1rio mudou Parreira para sempre e transformou-o num vencedor. Chamou o jogo para si e levou de trambolh\u00e3o os advers\u00e1rios, comp\u00f4s tabelas primorosas com Bebeto, homenageou com os quadris que se retiravam da reta o chute direto e salvador de Branco, e veio enrolado na bandeira da P\u00e1tria num momento em que est\u00e1vamos feridos pelas trai\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica e da economia e com o sucateamento crescente (que enfim se realizou) do futebol brasileiro. Rom\u00e1rio carregou o Brasil nas costas. Estava no lugar certo naquela cabe\u00e7ada contra os holandeses. Provou que a altura n\u00e3o interfere no futebol, apesar das insist\u00eancias dos comentaristas que ficam medindo o tamanho dos zagueiros para provar alguma coisa, como se futebol fosse basquete.<br \/>\n<strong><br \/>\nPONTARIA &#8211;<\/strong> Rom\u00e1rio n\u00e3o tem altura, n\u00e3o tem corpo de craque, possui pernas levemente tortas, heran\u00e7a talvez de uma inf\u00e2ncia sem prote\u00ednas suficientes. Suas armas s\u00e3o as posi\u00e7\u00f5es que toma em campo, a intelig\u00eancia com que acompanha e arma as jogadas, a pontaria mortal de suas investidas, o senso de oportunidade, a liberdade para inventar latif\u00fandios virtuais em cub\u00edculos sem ventila\u00e7\u00e3o. O que mais incomoda no genial craque \u00e9 que ele esnobou a riqueza, deixou de lado a grana dos gringos para voltar a morar no Rio de Janeiro. \u00c9 preciso fazer uma leitura desse seu ferrenho nacionalismo. A copa nos Estados Unidos \u00e9 fruto da op\u00e7\u00e3o feita por Pel\u00e9, que ensinou os gringos a jogar e tornou-se um mito movido a d\u00f3lares (o que n\u00e3o lhe tira a gl\u00f3ria de ser o Rei). Naquele campeonato, poder\u00edamos ter falhado, dando certificado seguro para nos retirar do p\u00f3dio definitivamente. Tivemos at\u00e9 a oportunidade de cair aos p\u00e9s de nossos alunos, os gringos ruins de bola. Mas vencemos por um apertado um a zero e fomos em frente. Rom\u00e1rio trouxe da terra americana a liberta\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio nacional do futebol campe\u00e3o do mundo. Deixou os espanh\u00f3is furiosos porque n\u00e3o queria mais sair da praia. E, para quem \u00e9 humano, por que abandonar o azul do mar, o cheiro de maresia, a areia branca e fofa, os corpos embalados pela divindade? Por que optar pela neve, pelo cofre, pela correria em campo? O mar, espa\u00e7o infinito sem cercas ou sesmarias, \u00e9 a melhor representa\u00e7\u00e3o do sonho de quem superou as limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas da geometria e da classe social.<br \/>\n<strong><br \/>\nDOM\u00cdNIO<\/strong> &#8211; Rom\u00e1rio posta-se na \u00e1rea como um predador. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para jogo nenhum. A retranca triunfa. Mas a bola \u00e9 aliada e resolver quicar na \u00e1rea, meio assim de gra\u00e7a. Caem em cima dela todos os jogadores do mundo. Rom\u00e1rio apenas pensa e sai com a bola dominada, que j\u00e1 est\u00e1 no fundo do gol. N\u00e3o havia espa\u00e7o para coisa nenhuma. Havia, portanto, Rom\u00e1rio. Vida longa ao her\u00f3i da P\u00e1tria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o importa o tamanho do pa\u00eds. Importa quanto espa\u00e7o existe nele para se viver. A posse folgada do territ\u00f3rio por parte do privil\u00e9gio confina a maior parte do povo aos limites impostos ao menino Rom\u00e1rio. 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