{"id":178,"date":"2005-05-23T21:52:37","date_gmt":"2005-05-23T23:52:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=178"},"modified":"2009-12-21T00:55:10","modified_gmt":"2009-12-21T02:55:10","slug":"os-sete-pilares-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/os-sete-pilares-da-poesia","title":{"rendered":"OS SETE PILARES DA POESIA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Marco Celso diz a que veio quando anuncia um assassinato: &#8220;Vou matar este poema com uma faca de trinchar,\/ dividi-lo ao meio como um figo\/ expor seu ventre hediondo ao p\u00fablico.&#8221; Diz o que faz quando define o fruto que lhe sai das m\u00e3os: &#8220;Ele \u00e9 um furo no escuro, um buraco cinza.&#8221; Ou quando faz sua advert\u00eancia de profeta irado: &#8220;Ele ficou incompleto\/ estou amassando-o e dissecando-o para que nenhum leitor o devore com facilidade.&#8221; Mas, al\u00e9m de se entregar \u00e0 pr\u00f3pria contund\u00eancia, mostra sua do\u00e7ura ao falar da origem dos poetas: &#8220;Eles s\u00e3o de outro mundo, de outros mundos\/ eles caem aqui como estrelas cadentes.&#8221; Quem s\u00e3o eles? &#8220;Conversam com seres que ningu\u00e9m v\u00ea\/ e ainda olham para a lua, para a lua!&#8221; Esses dois momentos est\u00e3o na parte intitulada Poemas e poetas que dormiam na estante, um dos sete compartimentos em que ele dividiu Poemas para ler em voz alta (Office Editora, 136 p\u00e1gs., R$ 18), obra de estr\u00e9ia tardia. Junto com os outros, comp\u00f5e uma sabedoria \u00fanica, cevada no mais profundo segredo, pois Marco Celso \u00e9 da estirpe dos poetas que se retiram porque n\u00e3o suportam a vala comum em que sempre transformaram a poesia.<\/p>\n<p>Seu trabalho nasceu no final dos anos 60, quando ainda menino, antes dos 20 anos, tornou-se um deserdado dos movimentos pol\u00edticos estudantis e abriu caminho pr\u00f3prio, expondo poemas na pra\u00e7a e publicando um livro mimeografado que tinha como t\u00edtulo uma profecia: Tombam os primeiros homens nos trigais. Tive o privil\u00e9gio de participar com Celso desse movimento, precursor em todos os sentidos, da gera\u00e7\u00e3o mime\u00f3grafo, detectado s\u00f3 nos anos 70 pela universidade, assim mesmo confinado ao centro do pa\u00eds e n\u00e3o \u00e0 Porto Alegre que explodiu em 1968 e provou o sal do ex\u00edlio precoce j\u00e1 em 1969, \u00e9poca da exposi\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 a esse passado que Marco Celso se reporta (apesar de dar seu recado sobre a exclus\u00e3o na orelha do livro que custeou do pr\u00f3prio bolso). O livro n\u00e3o \u00e9 importante, avisa, o importante \u00e9 a sua raz\u00e3o de ser. Sobre isso \u00e9 que nos debru\u00e7amos. No primeiro pilar, Quase can\u00e7\u00f5es, o leitor conhece os sinais mais expostos desse terremoto po\u00e9tico, escutando coisas como: &#8220;J\u00e1 fui frade, rabino, santo, im\u00e3\/ um pecador e tanto e tive tato\/ com todos os sentidos\/ babei um tanto, comi rato e fugi da peste.&#8221; No que se transformou essa criatura? &#8220;Sou artista, burlesco, saltimbanco\/ saltinvento,\/ saltimento, pinto todo\/ o muro branco.&#8221; Grafiteiro de uma revolu\u00e7\u00e3o, o poeta celebra o p\u00e3o (&#8220;a saga que perseguimos\/ onde somos\/ os \u00fanicos her\u00f3is&#8221;) e o amor, que &#8220;\u00e9 t\u00e3o completo que at\u00e9 o mal dele necessita para ser amado\/ \u00e9 desta mat\u00e9ria incombust\u00edvel que arde em n\u00f3s, que somos compostos\/ e n\u00e3o h\u00e1 fogo, \u00e1gua, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1goa que o detenha&#8221;. De amor \u00e9 feito o poeta: &#8220;Hoje \u00e9 um bom dia para morrer de amor por ti e nada mais&#8221;.<\/p>\n<p>Depois desse impacto inicial, que ocupa metade do livro e apresenta o poeta em toda a sua l\u00facida dem\u00eancia, um Intervalo sugere o dimensionamento emocionado das perdas, especialmente daqueles que se foram por terem voz e que foram calados. Os ossos do amigo morto servem para se referir \u00e0 &#8220;tua mulher que nunca te esqueceu e que ainda te chama baixinho&#8221;. A m\u00fasica da sua poesia tem ligamentos profundos, tornando-se in\u00fatil separ\u00e1-la em versos, porque nos surpreende pela composi\u00e7\u00e3o soberba, pela grandeza sinf\u00f4nica com que fala da morte e do esquecimento, essas coisas duras demais para a poesia de hoje, que mais parece jogo de armar do que o instrumento cortante de que se serve Marco Celso.<\/p>\n<p>Mas o poeta n\u00e3o foge da heran\u00e7a po\u00e9tica e dedica uma das partes a um exerc\u00edcio l\u00fadico: Atirando sonetos italianos na parede, onde fala em faces roubadas que n\u00e3o nos pertencem e na do tempo e seu colar de ossos, do amor desesperado que \u00e9 confundido com amizade ou do amor perfeito que reina acima de tudo o que \u00e9 e considerado essencial. Os Hai-Kais tamb\u00e9m merecem sua aten\u00e7\u00e3o de poeta m\u00faltiplo, onde \u00e9 poss\u00edvel tecer com a linha do horizonte, construir a casa na asa do p\u00e1ssaro e saber que um \u00fanico mantra entoa tudo o que existe. No cap\u00edtulo seguinte, j\u00e1 citado, ele se dedica a interagir com alguns poetas, como Lorca, Pessoa, Bandeira, Drummond. Desde muito cedo, Marco Celso gostava de implicar com os mestres, numa afirma\u00e7\u00e3o de identidade que tinha tudo de adolescente e que nesta obra revela a maturidade do poeta que assume a vanguarda sem se entregar a vanguardismos.<\/p>\n<p>Em Arma\u00e7\u00f5es, Celso novamente nos deslumbra com o ritmo que consegue captar na arte popular (no rap, por exemplo), nas quadrinhas e nos temas como a beleza, que aqui s\u00e3o virados de cabe\u00e7a para baixo. O s\u00e9timo pilar \u00e9 Para ler em sil\u00eancio: nele, a profunda percep\u00e7\u00e3o do mito encarnado por palavras e letras \u00e9 um fecho de sabedoria cifrada, que ele traz \u00e0 luz como um predestinado. Marco Celso tem esse perfil: o poeta que todos apostaram que j\u00e1 tinho ido embora, mas quando surge nos diz que sempre esteve conosco e traz a boa nova da poesia sem m\u00e1scara, a que tem o dom do encantamento e a for\u00e7a da voca\u00e7\u00e3o que jamais pode ser negada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha sobre o livro de Marco Celso Huffell Viola, Poemas para ler em voz alta (Office Editora, 136 p\u00e1ginas): Marco Celso diz a que veio quando anuncia um assassinato: &#8220;Vou matar este poema com uma faca de trinchar,\/ dividi-lo ao meio como um figo\/ expor seu ventre hediondo ao p\u00fablico.&#8221; Diz o que faz quando define o fruto que lhe sai das m\u00e3os: &#8220;Ele \u00e9 um furo no escuro, um buraco cinza.&#8221; Ou quando faz sua advert\u00eancia de profeta irado: &#8220;Ele ficou incompleto\/ estou amassando-o e dissecando-o para que nenhum leitor o devore com facilidade.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[10],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1538,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178\/revisions\/1538"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}