{"id":180,"date":"2005-05-23T21:54:50","date_gmt":"2005-05-23T23:54:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=180"},"modified":"2009-12-20T20:35:51","modified_gmt":"2009-12-20T22:35:51","slug":"o-peregrino-encontra-o-abismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-peregrino-encontra-o-abismo","title":{"rendered":"O PEREGRINO ENCONTRA O ABISMO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO que diz\u00a0Romaria, a obra-prima de Renato Teixeira, imortalizada por Elis Regina? Numa leitura livre, narra pela voz de um peregrino o encontro com a possibilidade de um milagre, que seria a paz nos desaventos, a tranq\u00fcilidade de esp\u00edrito no pa\u00eds insuport\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 treinamento para se chegar a esse objetivo. O cavaleiro que conta sua desdita justifica seu despreparo tra\u00e7ando o perfil de suas origens, fam\u00edlia, neg\u00f3cios, andan\u00e7as. Ele n\u00e3o se conforma com o Mesmo, a repeti\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia que \u00e9 sua vida e vai em busca do Milagre, que significa interrup\u00e7\u00e3o, quando o ch\u00e3o falta e tudo pode acontecer. Para encontrar o Milagre, ele vai embora (d\u00e1 o pira), sabendo que veio do p\u00f3 e que o p\u00f3 (de Pirapora) n\u00e3o \u00e9 territ\u00f3rio do sagrado, a n\u00e3o ser que haja f\u00e9. Por isso o abismo se abre diante do seu olhar, seu olhar.<\/p>\n<p><strong>SANTA POPULAR<\/strong> &#8211; A grandeza do poema nos pega na primeira nota: <em>\u00c9 de sonho e de p\u00f3\/ O destino de um s\u00f3\/ Feito eu perdido em pensamento\/ Sobre meu cavalo<\/em>. A solid\u00e3o \u00e9 o mon\u00f3logo, a fala sem interlocu\u00e7\u00e3o, o som sem eco, a palavra perdida no infinito do deserto, o p\u00f3 de que somos feitos, o sert\u00e3o, o interiorz\u00e3o, o\u00adnde nada existe, a n\u00e3o ser o cavaleiro e sua montaria. Nessa vida, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a imagina\u00e7\u00e3o, a transcend\u00eancia: <em>\u00c9 de la\u00e7o e de n\u00f3\/ De jibeira ou jil\u00f3\/ Dessa vida\/ Cumprida a sol. <\/em>A sa\u00edda \u00e9 a invoca\u00e7\u00e3o \u00e0 Santa, para conseguir superar esse la\u00e7o apertado da pobreza e a dura luta pela sobreviv\u00eancia. Uma invoca\u00e7\u00e3o que n\u00e3o esconde a origem do narrador, caipira, pertencente a uma comunidade (caipira nossa), devota \u00e0 Senhora de Aparecida. A santa \u00e9 a prova de que, sob as \u00e1guas da luta sem igual entre o homem e seu ambiente, entre a mis\u00e9ria e a vontade de continuar vivendo, \u00e9 poss\u00edvel existir o milagre. Do fundo das \u00e1guas, surge a representa\u00e7\u00e3o da Santa, a imagem, o sinal, e desse evento nasce sua intensa carga popular. \u00c9 uma santa do povo, porque est\u00e1 debaixo d\u00e1gua, invis\u00edvel, e foi pescada por pessoas de f\u00e9, que por seu interm\u00e9dio encontram a fartura. N\u00e3o \u00e9 de outra natureza a lenda da Santa: sobreviver com dignidade, usufruindo do Milagre, ou seja, da mesa farta e generosa, contrariando assim os desmandos que geram a fome e a morte prematura. O milagre \u00e9 poss\u00edvel, ele aparece no meio do trabalho e prov\u00ea os frutos da \u00e1gua e da terra. Essa possibilidade (a fartura em meio ao deserto social) \u00e9 que precisa iluminar a mina escura e funda dessa vida pessoal condenada ao fracasso. <em>Ilumina a mina escura e funda\/ O trem da minha vida<\/em>. Essa ilumina\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo, funda o movimento (trem), que carrega os bens (trem) de uma vida que ent\u00e3o se renova. A dupla significa\u00e7\u00e3o da palavra funda \u00e9 um dos achados mais preciosos da cultura brasileira e merece sempre ser celebrada como um dos momentos de esplendor da nossa poesia.<\/p>\n<p><strong>FORMA\u00c7\u00c3O <\/strong>&#8211; De o\u00adnde vem o peregrino? Vem da dor ancestral de um pa\u00eds partido:<em> O meu pai foi pe\u00e3o\/ Minha m\u00e3e solid\u00e3o\/ Meus irm\u00e3os perderam-se na vida\/ Em busca de aventuras.<\/em> O narrador cumpre a sina da imobilidade social, pois \u00e9 pe\u00e3o como o pai. A m\u00e3e \u00e9 o conformismo, a solid\u00e3o diante do massacre social. Os irm\u00e3os tentaram sair da mis\u00e9ria, mas perderam-se em busca das aventuras que o livrariam da sina. O peregrino tamb\u00e9m tentou sair daquele jogo que o matava: <em>Descasei, e joguei\/ Investi, desisti\/ Se h\u00e1 sorte, eu n\u00e3o sei, nunca vi<\/em>. Por meio da sorte fica imposs\u00edvel encontrar uma sa\u00edda, pois trata-se de uma armadilha: a ascens\u00e3o social via loteria \u00e9 um jogo mortal de cartas marcadas. N\u00e3o sobra sorte para quem vem do povo. Mas existe uma possibilidade, a romaria at\u00e9 a Santa: <em>Me disseram por\u00e9m\/ Que eu viesse aqui\/ Pra pedir em\/ Romaria e prece\/ Paz nos desaventos. <\/em>Que paz \u00e9 essa? A paz social. Eliminar os desaventos, conseguir superar as dificuldades da sobreviv\u00eancia, conseguir viver em paz, sem ficar permanentemente \u00e0 merc\u00ea das intemp\u00e9ries. H\u00e1, por\u00e9m , um problema: <em>Como eu n\u00e3o sei rezar\/ S\u00f3 queria mostrar\/ Meu olhar, meu olhar, meu olhar<\/em>. Eis uma estrofe que merece ser colocada no alto da casa, para iluminar a noite. Pouca coisa se compara a esses versos finais. Impressiona pela ousadia, e nos revela que m\u00fasica popular \u00e9 cria\u00e7\u00e3o do mais alto n\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>ESPERAN\u00c7A <\/strong>&#8211; Sem saber rezar, sem ter cultivado a heran\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o, por ter se perdido em tantas tentativas, por estar absolutamente descrente de tudo, o peregrino est\u00e1 mudo diante da possibilidade de um milagre. Ele n\u00e3o espera mais nada, tem apenas a oferecer a sua expectativa, a sua integridade de pessoa \u00e0 margem, de espectador permanente. Ele observou tudo na vida, a luta dos pais, as desventuras dos irm\u00e3os, sua falta de sorte. Agora, convocado pela comunidade que ainda acredita na interrup\u00e7\u00e3o do Mesmo, ele vai at\u00e9 Aparecida mas chega l\u00e1 e n\u00e3o encontra palavras de ora\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o possui mais, ou nunca teve. Fica ent\u00e3o diante do Abismo, a possibilidade do Milagre. Ele olha para aquela chance sem poder toc\u00e1-la. O narrador se transforma na voz do cantador, no recado do compositor, na devo\u00e7\u00e3o dos ouvintes. S\u00f3 com essa can\u00e7\u00e3o, Renato Teixeira atingiu a gl\u00f3ria. Gra\u00e7as a Deus, e a Nossa Senhora Aparecida, naquela \u00e9poca em que a m\u00fasica foi feita, t\u00ednhamos um milagre chamado Elis Regina, aquela que nos revelava o Brasil profundo, hoje mais oculto do que nunca. Tantas can\u00e7\u00f5es se perdem em fun\u00e7\u00e3o do horror do ru\u00eddo que nos massacra. Reden\u00e7\u00e3o, um milagre, pedimos neste dia. Para que a Inoc\u00eancia do peregrino ainda crian\u00e7a diante da Santa esteja totalmente protegida. Rogai por n\u00f3s, Nossa Senhora Aparecida, pela m\u00fasica do Brasil, que nos falta, como o ch\u00e3o no precip\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que diz Romaria, a obra-prima de Renato Teixeira, imortalizada por Elis Regina? 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