{"id":182,"date":"2005-05-23T21:56:33","date_gmt":"2005-05-23T23:56:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=182"},"modified":"2009-12-21T00:54:15","modified_gmt":"2009-12-21T02:54:15","slug":"o-filme-perfeito","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-filme-perfeito","title":{"rendered":"O FILME PERFEITO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Chuvas de Ver\u00e3o&#8221; (1977), de Cac\u00e1 Diegues, continua sendo uma obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de cl\u00e1ssico acabamento, numa trama de grande complexidade e transpar\u00eancia, vemos neste filme maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a admirar nossa capacidade de alcan\u00e7ar o mais alto n\u00edvel da cria\u00e7\u00e3o cultural. Com essa revela\u00e7\u00e3o, resgatamos o pa\u00eds mergulhado dentro de n\u00f3s. Fica assim mais f\u00e1cil suportar e entender a carga de realidade que nos desafia e que costumamos ignorar.<\/p>\n<p><strong>MILAGRE<\/strong> \u2013 Ao filmar o Rio de Janeiro e deixar de lado a Zona Sul, Cac\u00e1 Diegues captou o milagre da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, que se estende por vasto territ\u00f3rio com as mesmas caracter\u00edsticas (&#8220;milagre de portugu\u00eas&#8221;, segundo Paulo Vanzolini). O aposentado que sonha em nada fazer descobre nos vizinhos, amigos e parentes a sombra pesada de uma vida em todos mal resolvida, e por isso mesmo, humana. O admir\u00e1vel \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 lamenta\u00e7\u00f5es nesse impacto composto de pedofilia, homossexualismo, deduragem, assassinato. O olhar ao mesmo tempo triste e resignado de Jofre Soares (o ator a quem o Brasil jamais poder\u00e1 agradecer o suficiente) sabe abrir-se nos momentos mais cruciais, quando a lucidez sobre o horror escancara uma janela para a alegria. A vida e seus espinhos passam rapidamente como chuvas de ver\u00e3o. O que fica \u00e9 a tenacidade da sobreviv\u00eancia, o conv\u00edvio trepidante entre os despossu\u00eddos, a dignidade que prescinde da moral conservadora, a gl\u00f3ria da ingenuidade que enfrenta a viol\u00eancia e sai ganhando. A rua de casas que ser\u00e3o demolidas para uma futura obra do metr\u00f4 \u00e9 pintada como uma paisagem \u00fanica, o\u00adnde a decad\u00eancia da modernidade superp\u00f5e-se \u00e0 seq\u00fc\u00eancia de cores e formas da tradi\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica brasileira. Como se os s\u00e9culos anteriores servissem de amparo para a trama que se desenrola entre paredes velhas, com fotos e cartazes antigos, m\u00f3veis obsoletos. O corpo humano \u00e9 moldado por essa paisagem e seus gestos s\u00e3o limitados pela pen\u00faria da geografia que o circunda. Torna-se pat\u00e9tica a justificativa do palha\u00e7o criminoso (Rodolfo Arena) que tenta disfar\u00e7ar a culpa do estupro com o simulacro de um exerc\u00edcio f\u00edsico. A imagem da solid\u00e3o absoluta \u00e9 o aposentado que leva sua cadeira desconfort\u00e1vel para a cal\u00e7ada numa tentativa de fisgar a vizinha. E a precariedade do car\u00e1ter revela-se na camisa aberta ao peito de Juracy (Paulo C\u00e9sar Pereio, absolutamente imposs\u00edvel na sua genialidade).<\/p>\n<p><strong>CIRCO<\/strong> &#8211; H\u00e1 tamb\u00e9m camadas superpostas de artes populares, como \u00e9 o caso da cena do teatro de revista que vira drama de circo de sub\u00farbio. O mais impressionante neste filme antol\u00f3gico \u00e9 que Cac\u00e1, como os grandes romancistas, exp\u00f5e as feridas mais profundas dos personagens como se estivesse narrando uma anedota. E conta uma hist\u00f3ria aparentemente banal com todos os elementos do grande teatro. Ali est\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o edipiana entre adolescente tardio e a estrela decadente; a morbidez do velho (Sady Cabral) que tenta descobrir o estado terminal dos amigos; a senhora muito antiga (Lourdes Mayer) que faz revela\u00e7\u00f5es pornogr\u00e1ficas e consegue rir do seu fracasso; o almofadinha (o magn\u00edfico Daniel Filho, ator infelizmente pouco presente no nosso cinema) que conseguiu escapar da mis\u00e9ria e entrega-se a orgias homossexuais; a filha (Marieta Severo) que nunca v\u00ea o pai para poder escapar de suas ra\u00edzes.<br \/>\nMas n\u00e3o se entenda essa galeria de horrores como uma entrega da obra \u00e0s facilidades da desgra\u00e7a. Sem cair no otimismo \u2013 que \u00e9 a esperan\u00e7a pulando o Carnaval \u2013 Cac\u00e1 Diegues aposta na dignidade de uma vida escassa, mas cheia de grandeza. O final, que s\u00e3o as pessoas indo para o trabalho ao som de um chorinho, nos mata de emo\u00e7\u00e3o. A solteirona (Miriam Pires) que ao redescobrir o sexo usa sua saia amarela ao voltar para o batente, o oper\u00e1rio que antes de pegar o trem \u00e9 acompanhado pela mulher e filhos fazem parte de um hino camer\u00edstico, a majestade informal de uma cultura que soube encontrar sua identidade e deixa sua marca para ser vivenciada e admirada.<\/p>\n<p><strong>SOMOS ASSIM<\/strong> &#8211; Dificilmente &#8220;Chuvas de Ver\u00e3o&#8221; deixar\u00e1 de ser a obra- prima que \u00e9. Por ser um filme perfeito, j\u00e1 nasceu cl\u00e1ssico. Por ser a soma da nossa coragem, veio para ficar. Por falar a verdade sem nos humilhar, \u00e9 um amigo eterno. Por nos abra\u00e7ar sem nos paparicar, faz parte da fam\u00edlia. Por isso \u00e9 muito mais do que um drama ou uma com\u00e9dia de costumes. A obra n\u00e3o se enquadra em qualquer moldura. \u00c9 o que temos para mostrar a n\u00f3s e ao resto do mundo: somos assim. Por isso somos os melhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Chuvas de Ver\u00e3o&#8221; (1977), de Cac\u00e1 Diegues, continua sendo uma obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de cl\u00e1ssico acabamento, numa trama de grande complexidade e transpar\u00eancia, vemos neste filme maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a admirar nossa capacidade de alcan\u00e7ar o mais alto n\u00edvel da cria\u00e7\u00e3o cultural. 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