{"id":184,"date":"2005-05-23T21:58:40","date_gmt":"2005-05-23T23:58:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=184"},"modified":"2009-12-21T20:45:31","modified_gmt":"2009-12-21T22:45:31","slug":"paulo-jose-diante-do-alvo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/paulo-jose-diante-do-alvo","title":{"rendered":"PAULO JOS\u00c9 DIANTE DO ALVO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nPaulo Jos\u00e9 est\u00e1 desesperado na obra-prima <strong>Todas as Mulheres do Mundo<\/strong>, de Domingos de Oliveira. \u00c9 solteiro e entra em parafuso com o excesso de oferta de uma civiliza\u00e7\u00e3o que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos anos 60. O\u00adnde \u00e9 a festa s\u00e1bado? grita, b\u00eabado, no bar cheio de mulheres e falsos amigos. At\u00e9 que de repente, quando participava, completamente louco, de um jogo de tiro ao alvo com setas na casa lotada de gente, o\u00adnde acontecia mais uma celebra\u00e7\u00e3o do Nada, ele fica paralizado ao se deparar com a porta (que segurava o alvo) que se abre e dela surgir, simples, bel\u00edssima, tranq\u00fcila, Leila Diniz. A cara de espanto diante da Diferen\u00e7a (e da Musa que nunca mais nos abandonou), com a m\u00e3o solta no ar em frente da Revela\u00e7\u00e3o, transforma esse instante na mais pungente cena do cinema nacional em todos os tempos. A vida f\u00e1cil acabara. Surge a Encarna\u00e7\u00e3o, e partir dela, a Descend\u00eancia.<\/p>\n<p>CHOQUE &#8211; H\u00e1 um detalhe revelador neste filme inesquec\u00edvel. Paulo Jos\u00e9 encontra na rua algu\u00e9m (desempenhado pelo pr\u00f3prio Domingos de Oliveira) e faz grande festa, com abra\u00e7os e perguntas que sugeriam longa amizade. Depois de se despedir, perguntam: quem \u00e9? Sei l\u00e1, responde Paulo Jos\u00e9. \u00c9 a superficialidade das rela\u00e7\u00f5es humanas, uma leveza que poderia levar ao Desencanto e ao Caos, mas que Domingos transforma em mat\u00e9ria-prima para uma hist\u00f3ria de amor, o amor que nasce cheio de gra\u00e7a, mas que cai no abismo de toda rela\u00e7\u00e3o humana: a incompreens\u00e3o m\u00fatua, a raiva, a indiferen\u00e7a e o arrependimento, tudo salvo mais tarde pelo amor que triunfa. Custa ao nosso her\u00f3i descobrir que chegara a sua hora. Tamb\u00e9m custa entender que ele foi predestinado para aquela rela\u00e7\u00e3o, diferente de todas as outras, baseada no encantamento total e depois, na vontade natural de ter um filho. Aquela gera\u00e7\u00e3o estava contra a parede, transformada em painel de locuras e alegrias fajutas. O Rio dos encantos mil ainda estava de p\u00e9, mas algo muito corrupto tinha se infiltrado por todo o canto, e ningu\u00e9m sabia o que realmente estava pegando.<\/p>\n<p>SEMENTE- Ao resgatar uma hist\u00f3ria real, com a pr\u00f3pria Leila Diniz, Domingos colocou a marca do seu g\u00eanio. Tudo o que era solto amarra-se na rela\u00e7\u00e3o louca entre os dois. Surge ent\u00e3o a verdadeira personalidade da hero\u00edna. No lugar da mulher acess\u00edvel, a professora, a namorada fiel, a paix\u00e3o sem resist\u00eancia focada no que \u00e9 duradouro. Quando Leila foi para a \u00cdndia e sumiu no ar num acidente de avi\u00e3o, talvez a causa tenha sido o choque entre duas culturas. N\u00e3o era poss\u00edvel unir dois mundos paralelos que jamais se encontrariam sem uma explos\u00e3o. Leila vinha de um pa\u00eds provis\u00f3rio e buscava algo na cultura milenar. Levava consigo j\u00e1 a semente de uma consci\u00eancia maior, pois buscava inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas no divino para enfrentar o prec\u00e1rio, mas na profundidade que se opunha ao que \u00e9 raso e passageiro. Antes de descer, ela sumiu. E para sempre ficou, imortalizada neste filme sem igual. N\u00e3o vejo outro modo de me conformar com a trag\u00e9dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Jos\u00e9 est\u00e1 desesperado na obra-prima Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. \u00c9 solteiro e entra em parafuso com o excesso de oferta de uma civiliza\u00e7\u00e3o que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos anos 60. O\u00adnde \u00e9 a festa s\u00e1bado? grita, b\u00eabado, no bar cheio de mulheres e falsos amigos. 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