{"id":186,"date":"2005-05-23T22:00:29","date_gmt":"2005-05-24T00:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=186"},"modified":"2009-12-20T19:18:11","modified_gmt":"2009-12-20T21:18:11","slug":"o-esqueleto-imantado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-esqueleto-imantado","title":{"rendered":"O ESQUELETO IMANTADO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Texto, para ficar em p\u00e9, precisa de espinha dorsal com poder de atrair naturalmente todas as informa\u00e7\u00f5es. O n\u00facleo dessa criatura dif\u00edcil de domar deve possuir for\u00e7a suficiente para encaixar as pe\u00e7as sem susto e assim justificar a aten\u00e7\u00e3o do leitor, levando-o pela m\u00e3o, sem trope\u00e7os, da primeira \u00e0 \u00faltima linha.<\/p>\n<p><strong>ABERTURA, MIOLO E P\u00c9 <\/strong>&#8211; Chamo de lead, impropriamente, o in\u00edcio dos textos. Lead \u00e9 inven\u00e7\u00e3o americana que precisa responder perguntas b\u00e1sicas. \u00c9 eficiente para evitar papo furado e treinar jornalistas iniciantes. Mas prefiro falar em abertura de texto, que n\u00e3o est\u00e1 subjugada aos ditames do lead. Seu papel \u00e9 fisgar o leitor e jog\u00e1-lo para esse territ\u00f3rio improv\u00e1vel e pouco visitado, o segundo par\u00e1grafo. Houve tempo em que se fazia piada dizendo que um texto iniciava com o &#8220;tudo come\u00e7ou&#8221;, continuava com &#8220;na verdade&#8221;, no terceiro par\u00e1grafo usava-se &#8220;por outro lado&#8221;, depois para sugerir seriedade apelava-se para um &#8220;a rigor&#8221; e lavava-se as m\u00e3os no fecho com o obrigat\u00f3rio &#8220;resta saber&#8221;. Mas hoje esse tipo de coisa nem serve para piada, j\u00e1 que \u00e9 tr\u00e1gico e assombrou a imprensa por muitos anos (mas dessas muletas ningu\u00e9m est\u00e1 livre).<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que criei a figura do esqueleto imantado, em que o jornalista descobre o poder central do seu texto e usa-o como estrutura viva. O segredo \u00e9 manter a objetividade do lead sem curvar-se a ele. Depois que voc\u00ea encontra a abertura, se der branco, fa\u00e7a como Hemmingway no livro &#8220;Paris \u00e9 uma festa&#8221;: coloque a frase mais verdadeira que voc\u00ea conhece. Mesmo que ela seja eliminada depois, j\u00e1 que pode n\u00e3o fazer parte da sua mat\u00e9ria, use-a como instrumento de poder. O fim da reportagem n\u00e3o pode ser um ap\u00eandice dispens\u00e1vel: ele \u00e9 t\u00e3o importante quanto a abertura. Se tiver que cortar, corte no miolo: algo costuma soar mal, ou seja, est\u00e1 errado. Escreva de ouvido. Texto \u00e9 m\u00fasica e o esqueleto imantado \u00e9 a sua partitura.<\/p>\n<p><strong>O PIANO DO FECHAMENTO<\/strong> &#8211; Fechamento bem feito \u00e9 o diferencial entre um ve\u00edculo de qualidade e um ve\u00edculo amador. Numa pequena revista ou jornal, voc\u00ea pode ter a melhor mat\u00e9ria do mundo, mas se desconhecer as bases desse of\u00edcio, tudo vai parecer de segunda m\u00e3o. E n\u00e3o se engane: voc\u00ea precisa ser um virtuose desde o momento em que carrega o instrumento para o palco. O fechamento, conjunto composto de t\u00edtulos, linhas finas, olhos, legendas, intert\u00edtulos e chamadas, formam um &#8220;texto&#8221; \u00e0 parte, que se alimenta da mat\u00e9ria, mas n\u00e3o repete suas frases. \u00c9 comum na imprensa &#8211; hoje mesmo vi um exemplo &#8211; de colocar na legenda a mesma informa\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo ou da linha fina.<\/p>\n<p>Na maioria das vezes o fechamento \u00e9 a \u00fanica coisa que o leitor vai prestar aten\u00e7\u00e3o, portanto n\u00e3o perca essa chance nem desperdice espa\u00e7o. Crie cada elemento desse trabalho como se estivesse escrevendo uma reportagem ou burilando um texto final. A reportagem, se for boa, possui in\u00fameros itens que podem ser destacados. Voc\u00ea pode usar o t\u00edtulo como &#8220;isca&#8221; de leitura para o lead, a linha fina para a legenda, a legenda para o corpo da mat\u00e9ria e assim por diante. S\u00e3o vasos comunicantes que merecem ser tratados com carinho, criatividade e efici\u00eancia, e isso d\u00e1 trabalho. Fechar n\u00e3o significa livrar-se da \u00faltima etapa da edi\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, esse \u00e9 o momento mais importante, em que as coisas ficam por um fio e tudo pode ir por \u00e1gua abaixo. E n\u00e3o se esque\u00e7a que o t\u00edtulo da mat\u00e9ria principal devem ser dois: um na capa e outro no miolo do jornal ou revista. N\u00e3o coloque o mesmo t\u00edtulo dentro e fora. Crie. Uma vez fiquei uma madrugada inteira para conseguir um s\u00f3 t\u00edtulo. E dois expedientes comerciais para achar uma abertura de texto.<\/p>\n<p><strong>LEGENDAS <\/strong>&#8211; A legenda tem suas manhas. Se a foto tiver dois personagens, o que est\u00e1 \u00e0 esquerda \u00e9 citado primeiro, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Uma foto n\u00e3o pode estar fora da p\u00e1gina em que est\u00e1 o personagem citado: a legenda refere-se a algo no corpo da mat\u00e9ria que est\u00e1 ali naquele espa\u00e7o que o leitor est\u00e1 vendo. Costuma-se colocar o nome do personagem acompanhado de dois pontos, seguindo-se uma frase entre aspas ou algo que se reporte ao que ele \u00e9 ou disse. Esse \u00e9 um esquema bem batido, que merece ser mexido um pouco. \u00c9 t\u00e3o lugar comum que se coloca dois pontos quando nem \u00e9 necess\u00e1rio. &#8220;Fulano fez vestibular&#8221;, por exemplo, \u00e0s vezes aparece como &#8220;Fulano: fez vestibular&#8221;, o que \u00e9 um erro. Legenda serve para identificar a foto &#8211; e \u00e9 por isso que eu digo para os fot\u00f3grafos que eles n\u00e3o vendem fotos, vendem imagens identificadas. Nenhuma foto portanto pode vir desacompanhada de legenda, a n\u00e3o ser que seja um ensaio e o personagem seja um s\u00f3 e estiver destacado no t\u00edtulo ou nos outros elementos que apresentam a mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Minha melhor legenda foi a da vinda de Frank Sinatra pela primeira vez ao Brasil. Foi na Isto\u00c9. O empres\u00e1rio que conseguiu trazer a Voz fez tanto estardalha\u00e7o que n\u00e3o resisti: &#8220;O famoso Roberto Medina e seu contratado. Sinatra \u00e9 o da direita&#8221;.<\/p>\n<p><strong>EDI\u00c7\u00c3O, CORTE E COSTURA <\/strong>&#8211; Editar \u00e9 tomar decis\u00f5es, \u00e9 apostar no talento e na capacidade da equipe, ouvir e ver o que cada um tem de melhor. Editar \u00e9 virar vidra\u00e7a, \u00e9 arrostar os erros, \u00e9 elogiar em p\u00fablico e criticar reservadamente. \u00c9 estar presente na pauta e no texto final, na viagem e no plant\u00e3o, no corte da mat\u00e9ria e na costura dos par\u00e1grafos. Meu primeiro chefe de reportagem dizia todos os dias: &#8220;Vai l\u00e1 e v\u00ea o que tem e o que n\u00e3o tem&#8221;. Passava tr\u00eas pautas e no final de expediente me mandava para o aeroporto, o\u00adnde eu era ca\u00e7ado por pol\u00edticos med\u00edocres que queriam plantar notas na imprensa. No fim, ele foi \u00fatil, pois com o seu &#8220;te vira, que est\u00e3o pegando&#8221; aprendi a tomar decis\u00f5es no front da profiss\u00e3o. Seu erro foi nunca elogiar (elogio \u00e9 par\u00e2metro) e no dia em que cometi minha primeira falha, fez um esc\u00e2ndalo. No fundo, estava de tocaia. Mas n\u00e3o tinha motivos para tanta cobran\u00e7a. As pautas eram t\u00e3o ruins que \u00e0s vezes eu n\u00e3o entendia nada. Um dia, enrolei tanto para fazer uma pergunta que a fonte me pediu a pauta por escrito que eu guardava no bolso (era uma fonte conhecida, sabia todos os macetes daquele jornal da prov\u00edncia). N\u00e3o tive d\u00favidas: repassei o bilhetinho de duas linhas. A\u00ed fez-se a luz e ele me deu a entrevista.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, quando eu fazia algumas pautas (de vez em quando) na Ilustrada, minha gentil e sens\u00edvel editora, Hel\u00f4 Machado, dizia com gra\u00e7a: &#8220;Deixa eu publicar tua pauta, o foca n\u00e3o vai fazer melhor do que isso&#8221;. Todo editor precisa ser como a Hel\u00f4 Machado, que dava vez para todo mundo e teve id\u00e9ias perenes, como a de publicar resumos dos cap\u00edtulos de telenovelas, coisa que existe at\u00e9 hoje (uma id\u00e9ia simples, mas absolutamente inovadora, que atraiu grande quantidade de novos leitores). Ou como o Tarso de Castro, que faz falta, mais do que nunca, no atual estado de coisas.<\/p>\n<p><strong>ESTRAT\u00c9GIA <\/strong>&#8211; &#8220;Contar buracos de rua&#8221; era a tarefa dos focas naquela \u00e9poca. Hoje parece que est\u00e1 pior. Mais tarde, j\u00e1 adentrado nos anos, minha aten\u00e7\u00e3o foi chamada publicamente. Peguei a editora num canto e avisei: o elogio \u00e9 p\u00fablico, a cr\u00edtica \u00e9 privada. Um editor importante uma vez tascou na reda\u00e7\u00e3o: &#8220;Fulano conseguiu cravar a capa, e voc\u00eas, o que fazem?&#8221; Todo esse tipo de ru\u00eddo pode ser evitado. O conflito bruto n\u00e3o deve ser obrigat\u00f3rio, como muitas vezes acontece. O poder da pequena tirania precisa ser erradicada da profiss\u00e3o. Jornalismo \u00e9 como cinema, trabalho de todos e o g\u00eanio s\u00f3 se manifesta quando h\u00e1 ambiente favor\u00e1vel. Mas aten\u00e7\u00e3o: gentileza e eleg\u00e2ncia n\u00e3o significam amizade. Um editor s\u00e9rio peita a press\u00e3o sobre os rep\u00f3rteres, responde pela equipe e cobra suavemente. Editar \u00e9 fazer parte da equipe e n\u00e3o ser seu algoz. Corre-se o risco da folga: algu\u00e9m, sabendo que n\u00e3o vai ter sua aten\u00e7\u00e3o chamada em p\u00fablico e jamais ser\u00e1 desrespeitado, come\u00e7a a testar o editor para ver se ele \u00e9 mesmo t\u00e3o democr\u00e1tico e legal assim. Cada editor tem uma sa\u00edda para esse tipo de problema. Costuma-se jogar umas pessoas contra as outras, para governar por meio da divis\u00e3o. Outro diz gargalhando as coisas mais s\u00e9rias, passa o recado radical como se fosse uma piada.<\/p>\n<p><strong>AGULHA E LINHA<\/strong> &#8211; Minha especialidade \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o de texto. Houve \u00e9poca em que participei da paran\u00f3ia da Abril, de reescrever absolutamente tudo, perseguir o chamado texto redondinho. Quem passou por l\u00e1 sabe. A Abril conseguiu uma excel\u00eancia de texto por um tempo, mas o paradigma acabou gerando muita redund\u00e2ncia. Uma pobre reportagem passar pela m\u00e1quina de moer carne de quatro editores \u00e9 pedir para abrir um boteco em Caxambu. Prefiro trabalhar com o estilo de cada rep\u00f3rter, repassando regras b\u00e1sicas: desentrolhar o fluxo do texto, abrir com algo realmente importante para justificar a mat\u00e9ria, finalizar cada par\u00e1grafo dando gancho para o par\u00e1grafo seguinte, para que se evite assim o f\u00f3rceps de &#8220;na verdade&#8221; ou &#8220;por outro lado&#8221;, escrever o fecho como parte integrante do texto e n\u00e3o seu ap\u00eandice. Pe\u00e7o para reescrever quando necess\u00e1rio, parte da mat\u00e9ria ou toda. Normalmente, o problema est\u00e1 na concep\u00e7\u00e3o do tema, na sele\u00e7\u00e3o do enfoque, na incompreens\u00edvel obriga\u00e7\u00e3o de fazer su\u00edte de tudo. A praga da su\u00edte, aquela continua\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria anterior, precisa acabar. Se as pessoas l\u00eaem sempre os ve\u00edculos, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio redundar na informa\u00e7\u00e3o. Hoje vejo os jornais se repetindo sem parar, como se o mundo come\u00e7asse do zero a cada dia.<\/p>\n<p><strong>O GARIMPO DA PAUTA<\/strong> &#8211; Para evitar que a pauta torne-se c\u00edclica, repetindo-se todos os dias e, \u00e0s vezes, na mesma edi\u00e7\u00e3o, deve-se encar\u00e1-la como indiv\u00edduo e n\u00e3o como esp\u00e9cie ou g\u00eanero. Descobrir pautas todos os dias \u00e9 o n\u00f3 cego da profiss\u00e3o, que precisa ser desatado com jeito, mais do que com for\u00e7a, na base do close-up, e n\u00e3o do plano geral. Quem notou a trag\u00e9dia da pauta rotativa (mas n\u00e3o usou esse termo) foi Jorge Luis Borges (precisa obedecer o manual e dizer &#8220;escritor argentino&#8221;? acho que n\u00e3o). Ele reclamou da abordagem dos necrol\u00f3gios da imprensa sobre uma grande artista do seu pa\u00eds. Em vez de trat\u00e1-la como um indiv\u00edduo, escreveu Borges, a imprensa definiu-a como uma esp\u00e9cie, ou seja, como &#8220;mulher&#8221; que virou grande artista. &#8220;A mulher e&#8230;&#8221; \u00e9 o exemplo t\u00edpico de pauta rotativa. \u00c9 como document\u00e1rio sobre os anos 60: sempre aposto o momento certo em que o sonho vai acabar, pois h\u00e1 uma lei que obriga o sonho acabar em qualquer reportagem que se fa\u00e7a sobre o per\u00edodo. Esse tipo de enfoque, imagino, s\u00f3 sair\u00e1 da reta a\u00ed pelo ano tr\u00eas mil pois virou c\u00e2none, n\u00e3o h\u00e1 como lutar contra.<\/p>\n<p>Quando estava na Fiesp, in\u00fameras vezes me sugeriram a pauta &#8220;a mulher e a ind\u00fastria&#8221;. Eu argumentava que as mulheres apareciam sempre como empres\u00e1rias ou pesquisadoras ou em qualquer outra atividade, e eram tratadas como s\u00e3o, ou seja, indiv\u00edduos com suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. O sexo ao qual pertencem n\u00e3o \u00e9 suficiente para identific\u00e1-las. Pois ent\u00e3o, o\u00adnde o bicho pega? Como fazer pauta todos os dias, semanas, meses, anos, sem cair no lugar comum (outra pauta recorrente \u00e9 &#8220;n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea-vira-mania&#8221;, muito comum em revistas)? Basta abrir as comportas, limpar os canais de acesso ao pauteiro (que n\u00e3o deve ser um, mas todos).<\/p>\n<p>Quem faz pauta deve ter uma percep\u00e7\u00e3o aberta, universal. Pauta \u00e9 o que ningu\u00e9m ainda abordou. Elas sobram no dia a dia, est\u00e3o na cabe\u00e7a das pessoas que nos rodeiam, s\u00e3o aqueles assuntos que n\u00e3o chamam aten\u00e7\u00e3o de t\u00e3o \u00f3bvios e pr\u00f3ximos e que jamais saem publicados. Pauta \u00e9 tamb\u00e9m a pergunta que ningu\u00e9m faz. O que realmente discutiram as duas personalidades antes da trag\u00e9dia? Quem \u00e9 de fato o decorador assassinado? S\u00f3 existe mat\u00e9ria paga disfar\u00e7ada de not\u00edcia no Paran\u00e1? Que tipo de produtor \u00e9 esse que se comporta como esp\u00e9cie e planta em massa soja transg\u00eanica sabendo que est\u00e1 proibida?<\/p>\n<p><strong>A PRIS\u00c3O DO GANCHO<\/strong> &#8211; \u00c9 um mau costume s\u00f3 fazer mat\u00e9ria sobre determinado assunto quando h\u00e1 algum evento justificando. \u00c9 a pris\u00e3o do gancho. Deve-se evitar o marketing da not\u00edcia. Precisamos deixar de obedecer \u00e0 agenda proposta por consultorias, assessorias etc. Devemos ir diretamente na fonte, perguntar o que ela precisa saber, o que ela quer ler, o que ela tem a dizer, a propor. O jornalismo deve ser livre e essa liberdade come\u00e7a na pauta. Na minha experi\u00eancia como diretor de telejornal, via minhas pautas serem derrubadas em fun\u00e7\u00e3o do &#8220;barraco-que-caiu-na-Zona Leste&#8221;. Dizia: mas essa mat\u00e9ria j\u00e1 est\u00e1 na Globo; o\u00adnde est\u00e1 a pauta sobre contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do solo que a gente encaminhou? O chefe de reportagem derrubava, ou ent\u00e3o o rep\u00f3rter, ou ent\u00e3o o editor na ilha, ou ainda o apresentador e \u00e0s vezes at\u00e9 o boy. Em compensa\u00e7\u00e3o, todos estalavam os dedos dizendo que a TV era muito \u00e1gil e eu, um cara &#8220;da escrita&#8221;, n\u00e3o entendia nada. \u00c9 por isso que at\u00e9 hoje, toda vez que estalam os dedos na minha frente, tenho urtic\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>O DESAFIO DA EQUIPE <\/strong>&#8211; Depois de algum tempo na profiss\u00e3o, fatalmente o jornalista vai enfrentar seu maior desafio: ser respons\u00e1vel, perante a dire\u00e7\u00e3o, por um grupo de profissionais. Para quem n\u00e3o \u00e9 arrogante e s\u00f3 sabe trabalhar dentro da \u00e9tica, essa \u00e9 uma tarefa extremamente delicada, pois envolve n\u00e3o apenas pessoas, mas destinos. H\u00e1 dois tipos de situa\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 encontrar a equipe montada e voc\u00ea cai de p\u00e1ra-quedas. A outra \u00e9 fazer acontecer, criar uma equipe afinada. Como esta coluna n\u00e3o \u00e9 de marketing nem de auto-ajuda, vou falar em jornalismo nos termos que eu conhe\u00e7o, a partir do que vi e vivi. Estive quase sempre no grupo liderado e s\u00f3 algumas vezes precisei estar \u00e0 frente do trabalho. Por isso posso dizer: n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e normalmente ocorrem trombadas. H\u00e1 o editor (ou simplesmente chefe, como se diz no Brasil) que, de maneira cavernosa e mel\u00edflua, vai eliminando os problemas, ou seja, os concorrentes primeiro, e depois os menos &#8220;perigosos&#8221; mas n\u00e3o menos confi\u00e1veis. H\u00e1 o outro que resolve apostar no que tem e n\u00e3o possui cacife suficiente para segurar o roj\u00e3o. E h\u00e1 o que simplesmente substitui o que existe pelo que traz no bolso do colete.<\/p>\n<p>Meu exemplo favorito \u00e9 criar um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o (ou uma editoria) do nada e a partir do nada inventar uma equipe. \u00c9 a melhor maneira de n\u00e3o tomar o lugar de ningu\u00e9m, abrir mercado e virar her\u00f3i. O \u00fanico grande problema \u00e9 acertar: na hora em que voc\u00ea consolida o projeto, sempre tem algu\u00e9m a fim do teu lugar. Voc\u00ea pode considerar-se bem sucedido se est\u00e3o querendo te derrubar. Mas vale a pena o risco pela emo\u00e7\u00e3o da criatividade nesta \u00e1rea t\u00e3o complicada que \u00e9 a lideran\u00e7a numa reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>FORMA\u00c7\u00c3O COMPLETA <\/strong>&#8211; Costumo dizer aos estagi\u00e1rios que passam por mim que meu objetivo n\u00e3o \u00e9 encaminh\u00e1-los para a reportagem, mas para a forma\u00e7\u00e3o completa. Voc\u00ea precisa pautar, reportar, escrever, fazer fechamento, criar ve\u00edculos, tudo. Para um jornalista rec\u00e9m formado que veio queixar-se do aperto do mercado pedi que visse a grande pilha de revistas que estava em cima da minha mesa. Falei: selecione algumas dessas revistas, tome nota dos editores e chefes de reportagens, estude o ve\u00edculo, sugira pautas. Apresente solu\u00e7\u00f5es, coloque-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7a parte da equipe. Pois voc\u00ea jamais poder\u00e1 liderar se n\u00e3o souber participar de algo maior do que voc\u00ea, ou pelo menos diferente.<\/p>\n<p>Toda vez que eu trazia um free-lancer importante, que tinha ocupado cargos de chefia em outras reda\u00e7\u00f5es, sopravam no meu ouvido: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 louco, esse cara vai tomar o teu lugar!&#8221; Como sonho em sair desta vida h\u00e1 mais de dez anos, eu blefava: isso seria um favor para mim, mas o que importa \u00e9 trazer para a equipe gente melhor do que voc\u00ea. \u00c9 o \u00fanico jeito de crescer, trabalhar sem rede de seguran\u00e7a, convocar o mundo e deixar que o processo depure, que a equipe se forme de baixo para cima.<\/p>\n<p><strong>O JOGRAL DAS FONTES<\/strong> &#8211; Os entrevistados parecem obedecer a uma l\u00f3gica que s\u00f3 existe dentro da cabe\u00e7a dos jornalistas. Eles &#8220;concordam&#8221; uns com os outros nos textos for\u00e7ados, como se fizessem parte de um conjunto vocal que recita declara\u00e7\u00f5es id\u00eanticas ou complementares. E por coincid\u00eancia espantosa, eles sempre &#8220;concluem&#8221; no final das mat\u00e9rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto, para ficar em p\u00e9, precisa de espinha dorsal com poder de atrair naturalmente todas as informa\u00e7\u00f5es. O n\u00facleo dessa criatura dif\u00edcil de domar deve possuir for\u00e7a suficiente para encaixar as pe\u00e7as sem susto e assim justificar a aten\u00e7\u00e3o do leitor, levando-o pela m\u00e3o, sem trope\u00e7os, da primeira \u00e0 \u00faltima linha. 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