{"id":188,"date":"2005-05-25T22:02:17","date_gmt":"2005-05-26T00:02:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=188"},"modified":"2009-12-21T20:04:57","modified_gmt":"2009-12-21T22:04:57","slug":"o-sufoco-do-olhar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/o-sufoco-do-olhar","title":{"rendered":"O SUFOCO DO OLHAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em T\u00f3quio, onde ela filmou, todos os espa\u00e7os da percep\u00e7\u00e3o est\u00e3o tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. Para ser fiel ao que vi no filme, prefiro trair o sentido pretensamente original de &#8220;translation&#8221;, que seria tradu\u00e7\u00e3o, para o que acho mais apropriado: baldea\u00e7\u00e3o. Explico melhor a seguir.<\/p>\n<p>VIDA PROVIS\u00d3RIA \u2013 A onda de equ\u00edvocos que a cr\u00edtica provocou quando a filha de Coppola estreou no cinema, como atriz, somou-se \u00e0s asneiras ditas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seminal obra-prima Poderoso Chef\u00e3o III , o melhor da s\u00e9rie dirigida pelo pai, Francis Ford, que pagou caro pela escolha que fez ao colocar sua garota nesse filme num dos pap\u00e9is mais importantes. Sofia interpretou t\u00e3o bem a filha do mafioso, que a confundiram como uma amadora, que estava ali representando a si mesma, como se naquele trabalho \u2013 \u00e0 altura das grandes performances da estudada escola &#8220;naturalista&#8221; americana, filha dos ensinamentos do Actor\u2019s Studio &#8211; j\u00e1 n\u00e3o estivesse presente a fagulha do g\u00eanio. Em Lost in translation, ela mostra mais uma vez que n\u00e3o \u00e9 uma artista qualquer.<\/p>\n<p>O cinq\u00fcent\u00e3o (Bill Murray, excepcional, como sempre) que desce do trem do seu casamento \u2013 pelo menos temporariamente, enquanto est\u00e1 filmando um comercial de u\u00edsque para os japoneses \u2013 est\u00e1 perdido nessa esta\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, esse lugar que conflu\u00eancias, que serve para despejar os passageiros de um comboio e recolher os passageiros de outro. Acontece o mesmo com a jovem (Scarlett Johansson), que duvida do seu casamento e \u00e9 despejado dele tamb\u00e9m provisoriamente, j\u00e1 que o marido fot\u00f3grafo tem outras preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este pode ser encarado como um filme para fot\u00f3grafos: a arte da imagem, nele, est\u00e1 totalmente identificada com o sufoco do olhar, a comercializa\u00e7\u00e3o do que deve ser visto por todos. \u00c9 por isso que o diretor do comercial \u00e9 um bruto incompreens\u00edvel, o fot\u00f3grafo que tenta tirar emo\u00e7\u00f5es do rosto do ator \u00e9 um ignorante de cinema e o maridinho cool da principal personagem feminina \u00e9 um imbecil corporativo, que cai nas artimanhas de uma starlet vazia. Eles refor\u00e7am o tema do filme, que \u00e9 mostrar como o mercantilismo multinacional ocupa todos os espa\u00e7os da vis\u00e3o para dela tirar o m\u00e1ximo proveito, jogando fora o que h\u00e1 de mais valioso, as rela\u00e7\u00f5es verdadeiramente humanas.<\/p>\n<p>Assim, o homem maduro e a jovem bacharel em filosofia, desencontrados de si, despejados de seus vag\u00f5es, procuram fazer a baldea\u00e7\u00e3o na esta\u00e7\u00e3o-T\u00f3quio, encontrar um trem que os resgate.<\/p>\n<p>VIVA A DIFEREN\u00c7A \u2013 A maldi\u00e7\u00e3o do olhar viciado nas imagens comercializadas \u00e9 reproduzir eternamente o imagin\u00e1rio do Mesmo. O truque \u00e9 carregar nas cores, nos movimentos de luz, nas trucagens, para dar a falsa impress\u00e3o de diversidade. N\u00e3o existe diferen\u00e7a entre o Monte Fuji visto ao longe de maneira bem comportada, a partir de um campo de golf (o monte \u00e9 apenas uma paisagem fake, mural que imita a natureza) e a anima\u00e7\u00e3o de um dinossauro no centro de T\u00f3quio. \u00c9 tudo o Mesmo, que se reflete nas palavras gastas, nos cumprimentos for\u00e7ados, na gentileza car\u00edssima dos hot\u00e9is de luxo, no strip-tease profissional e bizarro. Os dois personagens \u2013 o cinq\u00fcent\u00e3o e a jovem \u2013 fogem do que costumam conectar, pois est\u00e3o \u00e0 procura da diferen\u00e7a, que dar\u00e1 sentido \u00e0s suas vidas (mesmo que n\u00e3o saibam disso conscientemente). O ator escapa dos f\u00e3s, da troupe que o escolta, e faz gestos c\u00ednicos para quem tenta manipul\u00e1-lo. No outro lado do bar, ela foge das conversas sobre anorexia da mesa o\u00adnde est\u00e1, exausta do esfor\u00e7o que os viciados na mesmice tentam impor por meio de falsos impactos nos gestos e id\u00e9ias. Essa fuga m\u00fatua empurra os dois para v\u00e1rios encontros e da\u00ed para uma rela\u00e7\u00e3o que se transmuta numa revela\u00e7\u00e3o. Quando finalmente eles assumem esse amor frutificado na diferen\u00e7a, o olhar deixa de ser ref\u00e9m da cidade e T\u00f3quio aparece como nunca, dando espa\u00e7o para um travelling inesquec\u00edvel, onde a imagem divide-se entre o perfil dos edif\u00edcios e o c\u00e9u, territ\u00f3rio quer n\u00e3o pode ainda ser loteado.<\/p>\n<p>PAISAGEM &#8211; A liberta\u00e7\u00e3o pelo amor vindo da diferen\u00e7a \u00e9 o fim do sufoco do olhar. \u00c9 pegar um trem que n\u00e3o estava programado, \u00e9 inventar uma linha que, em vez de ir para a capital, pegue uma estrada imagin\u00e1ria que nos leve para o alto da serra, por exemplo. De l\u00e1, podemos descortinar uma nova paisagem, soma do que herdamos com o que adquirimos neste filme magn\u00edfico, meu favorito para todos os Oscar. <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em T\u00f3quio, onde ela filmou, todos os espa\u00e7os da percep\u00e7\u00e3o est\u00e3o tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. A maldi\u00e7\u00e3o do olhar viciado nas imagens comercializadas \u00e9 reproduzir eternamente o imagin\u00e1rio do Mesmo. 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