{"id":193,"date":"2005-05-23T22:26:02","date_gmt":"2005-05-24T00:26:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=193"},"modified":"2009-12-20T22:52:17","modified_gmt":"2009-12-21T00:52:17","slug":"a-volta-na-quadra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/a-volta-na-quadra","title":{"rendered":"A VOLTA NA QUADRA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Quarteir\u00f5es em quadrados perfeitos, ruas e cal\u00e7adas largas: a engenharia militar da Rep\u00fablica do Piratini engendrou a l\u00f3gica na geografia urbana da minha cidade. Foi essa l\u00f3gica que me salvou numa tarde sinistra, quando eu e meu irm\u00e3o Luiz Carlos enfrentamos a f\u00faria de um morador da nossa rua, aposentado compulsoriamente devido aos nervos, e que repousava em casa sa\u00eddo de uma corpora\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, acredito que tenha sido a Marinha. N\u00f3s dois n\u00e3o dev\u00edamos ultrapassar os cinco anos de idade. At\u00e9 hoje esse acontecimento mostra-se n\u00edtido em minha mem\u00f3ria, j\u00e1 que foi minha primeira experi\u00eancia com o horror.<\/p>\n<p><strong>VISITA<\/strong> &#8211; Mor\u00e1vamos na esquina generosa de uma grande casa. Fomos at\u00e9 o meio da quadra para visitar dois moleques imposs\u00edveis, famosos por suas artimanhas e possu\u00eddos pelas mais loucas id\u00e9ias predat\u00f3rias. Talvez nossa visita tivesse sido incentivada por algu\u00e9m que ficara encarregado de cuidar de n\u00f3s (o que era sempre um transtorno) e estava com outros planos. Fomos s\u00f3s at\u00e9 os garotos e l\u00e1 ficamos a tarde toda. A ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era bem uma brincadeira. Os anfitri\u00f5es, t\u00e3o min\u00fasculos quanto n\u00f3s, nos convenceram que as grandes pedras do quintal, as quais consegu\u00edamos levantar s\u00f3 em duplas, deveriam ir direto para ao p\u00e1tio do vizinho, o perturbado militar aposentado. O muro que separava as casas era alto e exigia um esfor\u00e7o tremendo dos pirralhos, completamente motivados com aquilo que parecia uma travessura, mas que nos foi sugerido quase como uma obriga\u00e7\u00e3o. Do lado de l\u00e1, havia alarido de grande passarinhada, pois esse era o hobby do senhor imerso no seu recolhimento doentio, j\u00e1 que jamais ficava sossegado, estava sempre fazendo algo, vestindo cal\u00e7\u00f5es com camiseta branca regata, dessas que se usam em quart\u00e9is.<\/p>\n<p><strong>PIRRALHOS<\/strong> -N\u00e3o \u00e9ramos flor que se cheire. N\u00e3o poder\u00edamos recuar. Ficamos nessa faina por horas a fio. Quando j\u00e1 estava escurando (verbo que meu medo \u00e1grafo inventou naquela \u00e9poca) ouvimos a voz da v\u00edtima, visivelmente contrariado com nosso abnegado trabalho. O cara era forte e postou-se na cal\u00e7ada com um grande fac\u00e3o a tiracolo, amea\u00e7ando arrancar com sua espada de S\u00e3o Jorge nossos tr\u00eamulos passarinhos que guard\u00e1vamos em cal\u00e7\u00f5es prec\u00e1rios. Ele falava \u00e0 meia voz, para ouvirmos, e para que ningu\u00e9m mais ouvisse, pois poderia chamar a aten\u00e7\u00e3o pela barbaridade que cometia logo contra n\u00f3s, pirralhos absolutos de cabelo raspado e olhar arregalado de um medo que jamais senti mais intenso.<\/p>\n<p>Em meio ao susto e ao espanto, ficamos a confabular. Foi quando Luiz Carlos, futuro engenheiro e empres\u00e1rio precoce (organizava todas as quermesses inventadas para arranjarmos dinheiro) teve a mais brilhante das id\u00e9ias: Vamos dar a volta na quadra!, disse ele, e isso me encheu de pavor. Dar a volta na quadra, coisa que nunca fiz\u00e9ramos antes, era a aventura mais louca que se poderia imaginar. Para mim, mas n\u00e3o para a l\u00f3gica certeira do meu irm\u00e3o, que baseava-se no princ\u00edpio universal do quadrado. Ele sabia que se f\u00f4ssemos em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 nossa casa, dobrando todas as esquinas, dar\u00edamos nela inapelavelmente. Para Luiz Carlos, isso era de uma transpar\u00eancia absoluta, tudo fazia sentido. Fugir\u00edamos do algoz que obstava nosso passo em dire\u00e7\u00e3o ao ref\u00fagio familiar, pois ele ficava exatamente no caminho, de plant\u00e3o na cal\u00e7ada, andando de um lado para o outro, certo de que em algum momento (antes do por-do-sol!) ter\u00edamos de passar por ele.<\/p>\n<p><strong>CORRIDA<\/strong> &#8211; Luiz Carlos preparou meu esp\u00edrito, pois eu nunca acreditei em l\u00f3gicas matem\u00e1ticas nem em geometrias. Ele tinha tudo isso no DNA e na voca\u00e7\u00e3o e por isso tomou a dianteira. Segui meu irm\u00e3o de l\u00edngua de fora, segurando o choro, pois n\u00e3o poderia explodir antes que o plano desse certo. O algoz n\u00e3o foi atr\u00e1s de n\u00f3s e se foi, desistiu, pois, pirralhos inclementes, \u00e9ramos azougues na corrida e chegamos f\u00e1cil at\u00e9 o primeiro round, a mans\u00e3o da Generina, milion\u00e1ria exc\u00eantrica e de m\u00e3o fechada. A pr\u00f3xima esquina estava, para nosso tamanho de pulgas, quil\u00f4metros \u00e0 frente. Nessa altura o bairro perdia seu status de classe m\u00e9dia-m\u00e9dia e descia um degrau da escala social. Tudo era desconhecido. Estranhos passavam indiferentes. Mas avan\u00e7amos decididos at\u00e9 a terceira dobra, quando desembocar\u00edamos na rua de pedra, o \u00faltimo round. Sorte que aquela quadra era mais conhecida. No fim dela, onde nos encontr\u00e1vamos, morava o Morocho, ex\u00edmio violinista e seus dois filhos, amigos nossos. Depois, o tem\u00edvel Walfrido, o perigoso Rato. Em frente ao Rato havia a pacata Dona No\u00eamia, com ch\u00e3o batido na frente, onde morava a fam\u00edlia dos Da Nova, ex\u00edmios sambistas da escola supercampe\u00e3 Os Rouxin\u00f3is. Quando passamos zunindo pelos Da Nova, palmilhamos o milagre: j\u00e1 era a nossa cal\u00e7ada! O \u00e2ngulo reto foi a solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo irm\u00e3o iluminista, enquanto o emocionado barroco destruidor de aves engaioladas amargou o maior susto da sua vida.<\/p>\n<p><strong>CURVAS<\/strong> &#8211; Ter nascido em Uruguaiana, RS, numa cidade fundada na r\u00e9gua T, foi um est\u00edmulo para buscar o equil\u00edbrio na diferen\u00e7a. Descobri as curvas de Florian\u00f3polis em 1971, e no ano seguinte fui morar pela primeira vez aqui, mais precisamente em Itagua\u00e7u, ao lado da casa de Luiz Henrique Rosa, onde ele ensaiava o som da sua banda. Esse foi o vizinho que o destino escolheu para me recuperar, naquela \u00e9poca braba, do medo que sent\u00edamos em cada esquina do pa\u00eds brutalizado. Luiz Carlos, formado engenheiro, chegou aqui antes. Foi ele que me apresentou a cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quarteir\u00f5es em quadrados perfeitos, ruas e cal\u00e7adas largas: a engenharia militar da Rep\u00fablica do Piratini engendrou a l\u00f3gica na geografia urbana da minha cidade. Foi essa l\u00f3gica que me salvou numa tarde sinistra, quando eu e meu irm\u00e3o Luiz Carlos enfrentamos a f\u00faria de um morador da nossa rua. N\u00f3s dois n\u00e3o dev\u00edamos ultrapassar os cinco anos de idade. 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