{"id":196,"date":"2005-05-26T22:52:46","date_gmt":"2005-05-27T00:52:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=196"},"modified":"2010-02-21T10:09:40","modified_gmt":"2010-02-21T13:09:40","slug":"quando-a-comedia-cede-ao-drama","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quando-a-comedia-cede-ao-drama","title":{"rendered":"QUANDO A COM\u00c9DIA CEDE AO DRAMA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Com\u00e9dia \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o em que o exclu\u00eddo tenta fazer parte dela e, como n\u00e3o consegue, acaba destruindo o cen\u00e1rio. O que era para ser uma celebra\u00e7\u00e3o, uma festa de anivers\u00e1rio ou casamento, vira guerra de bolos e tortas, gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de um desastrado, de um outsider. No fundo \u00e9 drama: quem est\u00e1 por fora sofre para ser visto como um membro do clube, mas sempre ser\u00e1 o estranho, o freak, o bobo. \u00c9 drama tamb\u00e9m porque a rea\u00e7\u00e3o do personagem, ent\u00e3o encarado como comediante, demole o que o exclui e com isso perde a chance de fazer parte daquilo que sonhou. O que mata as pessoas de rir \u00e9 o esfor\u00e7o malsucedido de algu\u00e9m num ambiente onde s\u00f3 \u00e9 permitido fazer tudo de maneira correta. O exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o pastel\u00e3o. \u00c9 assim que o palha\u00e7o denuncia a viol\u00eancia que o joga no lixo, virando contra os convidados o enxovalho da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Chaplin conseguiu revelar o drama como a verdadeira face da com\u00e9dia, j\u00e1 que atrai pelo riso a aten\u00e7\u00e3o que desemboca na l\u00e1grima. Chaplin inspirou-se num conto do revolucion\u00e1rio escritor americano John Reed, O Capitalista, para criar seu vagabundo imortal. Reed denunciava a necessidade das apar\u00eancias de um exclu\u00eddo, que tentava vestir-se como a elite mas que se revelava, comicamente, ao enfrentar qualquer situa\u00e7\u00e3o de conflito. Esse achado brilhante levou Chaplin a navegar nas mesmas \u00e1guas do autor de Dez Dias que Abalaram o Mundo, a grande reportagem sobre a revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917. A fonte da com\u00e9dia era a consci\u00eancia de classe, o que colocou Chaplin o tempo todo contra o conservadorismo americano, crise que o levou para o ex\u00edlio na Su\u00ed\u00e7a. A exclus\u00e3o, em Chaplin \u00e9 social, mas em Jerry Lewis, \u00e9 comportamental.<\/p>\n<p><strong>Professor<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Jerry Lewis seguiu um caminho mais complicado, mas conseguiu, a seu modo, desvelar a tens\u00e3o que \u00e9 bater ponto no rel\u00f3gio da gra\u00e7a e trabalhar na f\u00e1brica da dor. Sua obra m\u00e1xima, The Nuty Professor, \u00e9 o filme que desnuda suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es. \u00c9 mais do que uma vingan\u00e7a, \u00e9 a reposi\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is fundamentais, pois ele tinha nascido para o espet\u00e1culo fazendo dupla com Dean Martin e por um bom tempo arrostou sozinho o papel desumano do perdedor num pa\u00eds de vitoriosos. Sua fragilidade empurrou-o para a emascula\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 comum v\u00ea-lo de avental tentando agradar seu companheiro ou exagerando o trejeito para deixar claro que n\u00e3o estava identificado com a virilidade cl\u00e1ssica. Quando Jerry amadureceu, a ruptura com Dean precisava ser levada dos bastidores para o centro do drama. Escolheu O M\u00e9dico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, para resgatar a dupla que jamais poderia ter sido desfeita, se fossem seguidos os crit\u00e9rios dos resultados financeiros, j\u00e1 que faturavam milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Semelhan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>O professor sem nenhum atrativo sexual, para melhorar sua imagem com as mulheres e sair da sua miser\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o de palha\u00e7o, toma um elixir m\u00e1gico e transforma-se em Buddy Love, o gal\u00e3 que nada mais \u00e9 do que a caricatura de Dean Martin. \u00c9 impressionante a semelhan\u00e7a entre Buddy e Dean e mais ainda o fato de ningu\u00e9m ter comentado isso (assim como passou despercebida a fonte liter\u00e1ria do vagabundo chapliniano). Jerry resolve encarnar o misterioso conquistador para dizer o quanto \u00e9 irrelevante esse tipo de personalidade, t\u00e3o cara a algumas mulheres (que costumam confundir o cafajeste com o homem de verdade). Seu escracho \u00e9 fazer a desconstru\u00e7\u00e3o de Buddy Love, que no meio de uma apresenta\u00e7\u00e3o (tinha a voz de Dean) come\u00e7a a desafinar. Incluir o professor tratado como louco no universo das pessoas que tem direito a uma vida completa \u00e9 o grande feito desse filme antol\u00f3gico, que mudou a com\u00e9dia para sempre ao revelar o drama do palha\u00e7o que vicia na gargalhada e esconde o verdadeiro rosto para n\u00e3o perder o p\u00fablico. Jerry foi fundo e chegou tamb\u00e9m a interpretar dramas de verdade, n\u00e3o mais ocultos nas trapalhadas em que seu personagem se metia. Mas sua arte serviu para repor a dignidade da inoc\u00eancia, como prova a magistral cena de O Rei do Circo, em que, vestido de palha\u00e7o, tenta levar para o riso uma crian\u00e7a mergulhada na trag\u00e9dia. Ele s\u00f3 consegue seu objetivo depois de chorar. Quando a crian\u00e7a (o olhar sem nenhum disfarce) v\u00ea a l\u00e1grima, rebenta no riso. Era o que ela precisava: entender que a alegria n\u00e3o \u00e9 o oposto da dor, j\u00e1 que para rir n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o de nossa situa\u00e7\u00e3o de criaturas datadas, mergulhadas no conflito.<\/p>\n<p><strong>Amor<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>A verdade, que \u00e9 o drama, precisa estar na base da com\u00e9dia, para que saltemos da cadeira quando Jerry Lewis coloca todo o conte\u00fado de uma loja no saco de um aspirador de p\u00f3 e, n\u00e3o contente, explode tudo na cara de uma cliente afetada e chata. A com\u00e9dia \u00e9 o amor ao semelhante, assim como o drama \u00e9 a nossa conting\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com\u00e9dia \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o em que o exclu\u00eddo tenta fazer parte dela e, como n\u00e3o consegue, acaba destruindo o cen\u00e1rio. 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