{"id":198,"date":"2005-05-26T22:54:41","date_gmt":"2005-05-27T00:54:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=198"},"modified":"2009-12-21T20:26:10","modified_gmt":"2009-12-21T22:26:10","slug":"capra-as-revelacoes-do-remorso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/capra-as-revelacoes-do-remorso","title":{"rendered":"CAPRA, AS REVELA\u00c7\u00d5ES DO REMORSO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>&#8220;A felicidade n\u00e3o se compra&#8221;, de Frank Capra, \u00e9 uma descida aos infernos e l\u00e1 o entendimento acontece porque a percep\u00e7\u00e3o humana muda, ou melhor, amadurece.<\/p>\n<p>Para enxergar Capra, n\u00e3o devemos fugir do que ele representa na sociedade americana. Sua obra-prima funciona como mensagem de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 dura realidade da depress\u00e3o e da guerra. Foi feita logo depois do fim da guerra, quando os americanos precisam refor\u00e7ar a auto-estima (agora virou virose mortal, mas na \u00e9poca ela estava impregnada de algo que parecia melhor). Refor\u00e7a a import\u00e2ncia da fam\u00edlia, da vida do cidad\u00e3o comum que n\u00e3o teve maiores chances. Poderia ser um hino ao conformismo, n\u00e3o fosse o crescente \u00f3dio que toma conta do cora\u00e7\u00e3o do personagem principal, interpretado por James Stewart. A fonte desse \u00f3dio s\u00e3o os bons sentimentos e a \u00e9tica. Ele queria ser recompensado por ter sido correto com o irm\u00e3o, ao qual cedeu a vez para que se formasse na faculdade, enquanto ele substitu\u00eda o pai eliminado pelo poder econ\u00f4mico da especula\u00e7\u00e3o financeira. Mas foi exclu\u00eddo (o irm\u00e3o pagou-lhe com ingratid\u00e3o), teve que ficar, casou e caiu na armadilha, a mesma que tinha acabado com seu pai. Seu \u00f3dio ent\u00e3o vem \u00e0 tona (onde ficaram os bons sentimentos?), com tudo. \u00c9 uma obsess\u00e3o perversa auto-destrutiva que o leva, numa noite de Natal gelada, diante de um abismo, pronto para o suic\u00eddio. A apari\u00e7\u00e3o de um anjo t\u00e3o perdedor quanto o her\u00f3i do filme \u00e9 um dos maiores achado do humor capriano. Os dois precisavam de uma segunda chance. O anjo, que seria recompensado com um par de asas se fosse bem sucedido na sua miss\u00e3o (ascens\u00e3o social no c\u00e9u americano, t\u00e3o comum no cinema deles, que \u00e9 pura representa\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o imperial-corporativa). O anjo usa a argumenta\u00e7\u00e3o sedutora e depois a revela\u00e7\u00e3o dos resultados do \u00f3dio ao qual o outro sucumbiu.<\/p>\n<p>Crueldade<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, no cinema americano, seq\u00fc\u00eancia mais sinistra do que a visita que Stewart faz \u00e0 sua n\u00e3o-vida, \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias da sua vontade de jamais ter nascido. \u00c9 muito semelhante \u00e0 hist\u00f3ria de Dickens, em que o velho avarento \u00e9 levado por um esp\u00edrito para visitar momentos importantes da sua vida, em que ele v\u00ea o Mal que encarnou em sucessivas manifesta\u00e7\u00f5es de ego\u00edsmo e crueldade (roteiro filmado mil vezes). No caso do filme de Capra, o terror tem a mesma intensidade, que leva o espectador a um sentimento de perda e de remorso. Antes do arrependimento, que \u00e9 uma apoteose, a Queda no po\u00e7o do remorso \u00e9 uma descida aos infernos digna da melhor literatura. Essa seq\u00fc\u00eancia foi inteiramente chupada no filme De volta para o futuro II, em que o jovem que volta para casa v\u00ea sua fam\u00edlia e sua cidade destru\u00eddas por um ato que ele pr\u00f3prio cometeu no passado. A vis\u00e3o aterradora da cidade entregue \u00e0 sanha assassina \u00e9 de um tremendo impacto, mas Capra \u00e9 o original e seu trabalho \u00e9 infinitamente melhor. Por isso fica dif\u00edcil acreditar que existam cr\u00edticos que acham A Felicidade n\u00e3o se compra um filme que sofre de infantilismo. \u00c9 uma obra-prima que enfoca a vida comunit\u00e1ria e suas resist\u00eancias contra o Mal. \u00c9 o fim da ingenuidade e o in\u00edcio do amadurecimento de uma na\u00e7\u00e3o que precisava conviver com o \u00f3dio na origem de uma paz prec\u00e1ria, como a que foi estabelecida no fim da II Guerra. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da destrui\u00e7\u00e3o social provocada pela pirataria financeira, o que lhe d\u00e1 uma atualidade inc\u00f4moda.<\/p>\n<p>Opini\u00e3o<\/p>\n<p>O final feliz \u00e9 apenas o regresso ao lar de um ex-condenado, algu\u00e9m que esteve no front e viu a Morte de frente e que agradece por ainda estar vivo e possuir o pouco que tem. Nada mais humano, e do jeito que Capra fez, absolutamente genial. N\u00e3o se deve ter vergonha de se emocionar diante de um filme como este. Se pedirem sua opini\u00e3o, diga que gostou, sem restri\u00e7\u00f5es, e que voc\u00ea est\u00e1 ao lado da Cria\u00e7\u00e3o e contra seus sanguessugas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1, no cinema americano, seq\u00fc\u00eancia mais sinistra do que a visita que Stewart faz \u00e0 sua n\u00e3o-vida, \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias da sua vontade de jamais ter nascido. \u00c9 muito semelhante \u00e0 hist\u00f3ria de Dickens, em que o velho avarento \u00e9 levado por um esp\u00edrito para visitar momentos importantes da sua vida, em que ele v\u00ea o Mal que encarnou em sucessivas manifesta\u00e7\u00f5es de ego\u00edsmo e crueldade (roteiro filmado mil vezes).<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1596,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions\/1596"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}