{"id":1998,"date":"2010-03-11T22:51:27","date_gmt":"2010-03-12T01:51:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=1998"},"modified":"2010-03-11T22:51:27","modified_gmt":"2010-03-12T01:51:27","slug":"quando-ouvir-e-ver-e-ver-e-nao-enxergar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/quando-ouvir-e-ver-e-ver-e-nao-enxergar","title":{"rendered":"QUANDO OUVIR \u00c9 VER E VER \u00c9 N\u00c3O ENXERGAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Dcul\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre os dois filmes \u2013 <em>A Cor do Para\u00edso<\/em> (1999), de Majid Majidi, e <em>A Mulher Invis\u00edvel<\/em> (2009), de Cl\u00e1udio Torres &#8211; \u00e9 brutal. Mas quando se trata de cinema, tudo conflui para percep\u00e7\u00f5es afins.<\/p>\n<p>Em <em>A Cor do Para\u00edso<\/em>, a natureza pode ser lida pelo alfabeto Braille. O menino Muhammad (interpretado por Mohsen Ramezani, que \u00e9 cego) tenta enxergar o que o cerca por meio da l\u00f3gica oferecida por seq\u00fc\u00eancias de eventos: folhas mortas, galhos, sons de p\u00e1ssaros, \u00e1gua corrente, barro. O tato ajuda a ouvir, que o leva a ver, \u00e0 sua maneira. Mas ele est\u00e1 cercado pela cegueira dos que enxergam. Do pai, que se sente injusti\u00e7ado pela vida e quer se livrar dele. Do professor da escola do interior que fica pasmo diante da sua capacidade de leitura das li\u00e7\u00f5es de aula. Dos colegas das irm\u00e3s, que se debru\u00e7am para tentar decifrar o segredo de sua alfabetiza\u00e7\u00e3o, aprendida numa escola especial.<\/p>\n<p>O pai se assusta com o que ouve, porque n\u00e3o tenta descobrir o sentido oculto das manifesta\u00e7\u00f5es s\u00f3 percebidas por outros sentidos. Preso pelo que v\u00ea de maneira t\u00e3o limitada por sua dor e preconceito, o pai se transforma num personagem tr\u00e1gico, que encontra o mesmo desfecho de Zampano (interpretado por Anthony Quinn) de La Strada, de Fellini, o saltimbanco que ao perder o amor da sua vida urra de remorso na praia deserta.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 pr\u00f3ximo demais n\u00e3o pode ser percebido. \u00c9 preciso dist\u00e2ncia para experimentar a fundura da falta, entender a natureza da dor, avaliar a intensidade do amor. A av\u00f3 e as duas irm\u00e3s, que vivem longe do menino durante o ano letivo, redescobrem o prazer da fraternidade no reencontro, assim como a av\u00f3, agricultora que extrai das flores a cor necess\u00e1ria para o tapete consagrado ao seu Deus. Todos fazem parte do mundo que o menino impedido de ver enxerga com sua concentra\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 cinema total. N\u00f3s vemos o que h\u00e1 na tela, mas o protagonista menino abre uma janela maior para o que ele ouve e toca. Aprendemos a enxergar o que ele n\u00e3o percebe pelos olhos, mas nos mostra com seu talento. O filme assim \u00e9 sobre duas camadas superpostas de cinema: o vis\u00edvel e o oculto, ambos expl\u00edcitos. A trag\u00e9dia que se abate sobre tudo tem a ver com a incapacidade do protagonista-chave, o pai, de acumular essas percep\u00e7\u00f5es aparentemente dispersas. Ele se tortura com o fato de ter um filho cego, e assim se fecha para as chances da pr\u00f3pria reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 em <em>A Mulher Invis\u00edvel<\/em>, de Cl\u00e1udio Torres (diretor do excelente Redentor) ocorre ao contr\u00e1rio. O protagonista enxerga demais: a mulher ideal, uma vis\u00e3o n\u00e3o compartilhada com ningu\u00e9m. No fundo est\u00e1 cego para a pr\u00f3pria loucura, pois acaba de sair de pesada desilus\u00e3o amorosa intensificada pelo fim do casamento. Ele se refugia no invis\u00edvel para torn\u00e1-lo real. Entrega-se ao que v\u00ea e n\u00e3o decifra o que, para os outros, est\u00e1 oculto, mas expl\u00edcito: uma presen\u00e7a virtual com for\u00e7a f\u00edsica, pois interfere nos gestos do protagonista (Selton Mello, excelente aqui).<\/p>\n<p>O que n\u00f3s vemos \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, e que s\u00f3 o amante transtornado enxerga, uma criatura n\u00e3o enquadrada na realidade convencional. Em tese, ela faz parte do mundo dos desejos, como querem os Rosacruzes, ou do imagin\u00e1rio. Pedro (Selton Mello) e Amanda (Luana Piovani) reconhecem que Amanda n\u00e3o existe. Ao compartilhar com a mulher ideal o que enxerga, e que para os outros n\u00e3o \u00e9 visto, ele encontrou uma forma de fazer valer sua vis\u00e3o seletiva. Est\u00e1 preso a ela, como o pai de A Cor do Para\u00edso. E isso \u00e9 sua dana\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo quando faz as pazes com a amada real (que por um tempo foi confundida com outra alucina\u00e7\u00e3o), ele traz como encosto a gostosa que inventou para se compensar. Pior para o pai do filme iraniano, que perde a noiva, a m\u00e3e e o filho, numa sucess\u00e3o de castigos por seus erros. Pois, se o filme brasileiro encontra sa\u00edda para o desespero, por meio do conv\u00edvio com a loucura, no iraniano, nada tem volta. Ficam apenas as imagens, bel\u00edssimas, de uma saga partida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Dcul\u00f3s A diferen\u00e7a entre os dois filmes \u2013 A Cor do Para\u00edso (1999), de Majid Majidi, e A Mulher Invis\u00edvel (2009), de Cl\u00e1udio Torres &#8211; \u00e9 brutal. Mas quando se trata de cinema, tudo conflui para percep\u00e7\u00f5es afins. Em A Cor do Para\u00edso, a natureza pode ser lida pelo alfabeto Braille. 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