{"id":2002,"date":"2010-03-11T22:55:53","date_gmt":"2010-03-12T01:55:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2002"},"modified":"2010-03-11T22:55:53","modified_gmt":"2010-03-12T01:55:53","slug":"filme-de-amor-e-amor-ao-filme","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/filme-de-amor-e-amor-ao-filme","title":{"rendered":"FILME DE AMOR \u00c9 AMOR AO FILME"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O grande caso de amor numa com\u00e9dia rom\u00e2ntica \u00e9 entre o filme e o espectador. H\u00e1 uma fidelidade ao g\u00eanero que faria inveja aos amantes. De onde vem essa paix\u00e3o? Da f\u00e9 no destino ou na predestina\u00e7\u00e3o, que se consuma depois que seu oposto (a separa\u00e7\u00e3o, a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o) parece ter vencido. Contrariando a l\u00f3gica dos acontecimentos, o insight final dele ou dela joga um nos bra\u00e7os do outro, de maneira irresist\u00edvel. Trair esse princ\u00edpio, como faz <em>500 dias com ela<\/em>, de Marc Webb (2009) significa matar o amor arduamente cultivado ao longo do roteiro.<\/p>\n<p>Webb quis inovar, desmascarar o esquema e colocou o acaso acima do destino. N\u00e3o cola. Todo acaso \u00e9 predestina\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 sabido n\u00e3o s\u00f3 pelos que amam, mas em geral pelos que enxergam. Chegar dez minutos depois n\u00e3o significa que voc\u00ea jamais encontraria seu par, mas sim que essa n\u00e3o era a sua chance. Esse erro \u00f3tico leva o diretor a investir emo\u00e7\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o, amor, esperan\u00e7a, decep\u00e7\u00e3o, ru\u00edna numa rela\u00e7\u00e3o que acaba de repente, gra\u00e7as a um coadjuvante obscuro que nem aparece, o rival que p\u00f5e tudo a perder. Isso n\u00e3o se faz.<\/p>\n<p>Os dois atores principais, Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel, s\u00e3o bons e conseguem transmitir o encanto de uma rela\u00e7\u00e3o que come\u00e7a timidamente e chega at\u00e9 a engrenar, mas n\u00e3o se consuma como deveria. Essa \u00e9 uma das crueldades do filme, pois os espectadores se apaixonam tamb\u00e9m pelo casal e torcem para que fiquem juntos no final, quando a l\u00e1grima \u00e9 inevit\u00e1vel. Jogar Joseph e Zooey, maravilhosos em sua juventude, amarrados por uma alegria de estar juntos que se esparrama pela tela, numa enrascada sem solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma coisa que deveria ser proibida. Ou ent\u00e3o nos avisem: ei, eles se amam, ou pelo menos o cara se apaixona, mas a mo\u00e7a casa com outro! Pronto, contei o final. \u00c9 a minha vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ficamos assim torcendo pelo rapaz, quase menino, que acredita no destino. Mas aos poucos vemos que seu objeto de desejo n\u00e3o passa de uma vigarista emocional, pois evita se envolver de maneira definitiva com o apaixonado (a quem trata de amigo, apesar de tudo o que rola entre eles) para cair na mais batida cantada do mundo, a do cara que se aproxima e comenta o livro que ela estava lendo (no caso, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde). A mo\u00e7a, Summer, acaba convencendo o menino que ele n\u00e3o dava mesmo no couro, j\u00e1 que se entrega para outro que lhe presenteia com um anel de diamantes e casa com ela. Mas eis que vem outro caso, Autumn, entenderam a sutileza (Outono depois do Ver\u00e3o, pois n\u00e3o?)? Haja.<\/p>\n<p>Como se as chances c\u00edclicas existissem no encontro da alma g\u00eamea, aquela que era pr\u00f3xima e ficou distante e que quando \u00e9 perdida exige um esfor\u00e7o acima dos limites para ser recuperada. A magn\u00edfica com\u00e9dia rom\u00e2ntica Forget Paris (1995), com Billy Cristal (tamb\u00e9m diretor) e Debra Winger quase nos convenceu de que o amor imposs\u00edvel n\u00e3o teria solu\u00e7\u00e3o. Mas est\u00e1vamos, felizmente, enganados. O \u00e1rbitro de basquete e a musa que escapa por entre os dedos em v\u00e1rios lances desesperadores s\u00e3o enredados na teia da narrativa que aos poucos resgata o desfecho que todos aguardam.<\/p>\n<p>Mas isso era no tempo em que havia honestidade no cinema. Hoje, o sujeito te enreda com uma hist\u00f3ria de conquista e paix\u00e3o e joga a mulher amada nos bra\u00e7os de um fantasma. Trata-se de uma trai\u00e7\u00e3o, da pior esp\u00e9cie, daquelas que acabam destruindo a f\u00e9 no filme rom\u00e2ntico. Mas a sorte \u00e9 que os espectadores acreditam no g\u00eanero e se apaixonam pelos filmes. O cinema \u00e9 o grande amor de nossas vidas e se algum diretor pisa na bola \u00e9 porque desconhece o b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m escapa do seu destino nem deixa de acreditar que o sentimento \u00e9 soberano e ele sempre tem raz\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O grande caso de amor numa com\u00e9dia rom\u00e2ntica \u00e9 entre o filme e o espectador. H\u00e1 uma fidelidade ao g\u00eanero que faria inveja aos amantes. De onde vem essa paix\u00e3o? Da f\u00e9 no destino ou na predestina\u00e7\u00e3o, que se consuma depois que seu oposto (a separa\u00e7\u00e3o, a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o) parece ter vencido. 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