{"id":2007,"date":"2010-03-11T23:01:24","date_gmt":"2010-03-12T02:01:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2007"},"modified":"2010-03-11T23:01:24","modified_gmt":"2010-03-12T02:01:24","slug":"repressao-e-permissividade-contra-a-disciplina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/repressao-e-permissividade-contra-a-disciplina","title":{"rendered":"REPRESS\u00c3O E PERMISSIVIDADE CONTRA A DISCIPLINA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Dois filmes opostos dizem a mesma coisa. <em>A Onda<\/em> (2008), de Denis Gansel, baseado no livro de Morton Rhue, por sua vez inspirado num epis\u00f3dio real acontecido em Palo Alto, na Calif\u00f3rnia, quando o professor de hist\u00f3ria Ron Jones tentava explicar o nazismo para seus alunos, em 1967, \u00e9 sobre a necessidade da permissividade para evitar a repress\u00e3o. <em>Harry Brown<\/em> (2009), de Daniel Barber, \u00e9 sobre a necessidade da repress\u00e3o para evitar a permissividade. Ambos s\u00e3o contra a disciplina, base da liberdade.<\/p>\n<p>Os alunos de <em>A Onda<\/em>, criados no caos do excesso de liberalidade, tanto em casa como na escola, ficam fascinados pelos lugares comuns que formaram a juventude at\u00e9 a minha gera\u00e7\u00e3o, ou seja, a ordem integradora e o respeito \u00e0 coletividade. Mas isso, segundo o filme, leva ao fascismo. O velho fuzileiro aposentado Harry Brown, farto dos assaltos no gueto onde mora, resolve fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Isso, segundo o filme, leva \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da criminalidade. A solu\u00e7\u00e3o, no primeiro, \u00e9 manter o caos na forma\u00e7\u00e3o dos alunos para n\u00e3o cair na tenta\u00e7\u00e3o nazista. E no segundo \u00e9 tocar fogo no gueto para que os cidad\u00e3os possam cruzar livremente o t\u00fanel para pedestres.<\/p>\n<p>Sentar-se em aula como se voc\u00ea estivesse no sof\u00e1 da sua casa \u00e9 um v\u00edcio de comportamento que estimula a pregui\u00e7a e a arrog\u00e2ncia. Vi isso quando, tardiamente, freq\u00fcentei a faculdade de Hist\u00f3ria. Um dos alunos rodeava-se de cadeiras para colocar os p\u00e9s, a pasta, o casaco, os bra\u00e7os, enquanto se estendia quase como numa cama no lugar feito para sentar. Como um sujeito desses vai levar a s\u00e9rio a educa\u00e7\u00e3o? Cansei de falar aqui: se voc\u00ea transforma o ensino em algo l\u00fadico, o que a meninada vai fazer no recreio, dar tiros?<\/p>\n<p>O professor que d\u00e1 um curso sobre autocracia confunde tudo em <em>A Onda<\/em>. Ele corrige postura, comportamento e exige disciplina. Era o que acontecia no meu col\u00e9gio. T\u00ednhamos tamb\u00e9m uniforme, n\u00e3o farda fascista nem nada, apenas uma camiseta com o logo da institui\u00e7\u00e3o e cal\u00e7a a gosto. Mas a uniformiza\u00e7\u00e3o eliminava as diferen\u00e7as sociais, como \u00e9 dito no filme. Mas isso jamais levou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de gangs e a Hitler. O que leva \u00e0s gangs e Hitler \u00e9 exatamente o oposto, a permissividade. Quando voc\u00ea aceita que meia d\u00fazia de bandidos uniformizados imponham comportamentos para a massa e acha tudo muito bonito at\u00e9 que multid\u00f5es comecem a ser levadas em trens imundos para a c\u00e2mara de g\u00e1s, a culpa n\u00e3o \u00e9 da disciplina.<\/p>\n<p>Trata-se de um crime contra a juventude incentivar a promiscuidade, o desleixo e a falta de cobran\u00e7a. Quem est\u00e1 em forma\u00e7\u00e3o precisa de par\u00e2metros e isso s\u00f3 se consegue com disciplina. N\u00e3o se pode deixar a meninada \u00e0 merc\u00ea de traficantes, como acontece em <em>Harry Brown<\/em>. Racismo, indiferen\u00e7a e pol\u00edticas p\u00fablicas de exclus\u00e3o levam ao desespero as novas gera\u00e7\u00f5es, que reage contra tudo e todos, de maneira ca\u00f3tica, sem ideologia nem finalidades. O \u201crem\u00e9dio\u201d usado \u00e9 a brutalidade policial, a incompet\u00eancia das investiga\u00e7\u00f5es e a vingan\u00e7a pura e simples. O filme poderia ser encarado como uma den\u00fancia da situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o cola. Celebra o que mostra e que deveria condenar.<\/p>\n<p>Mas disciplina n\u00e3o \u00e9 fascismo? Claro que n\u00e3o. As gera\u00e7\u00f5es criadas na disciplina lutaram n\u00e3o pela anarquia, mas pela seriedade no ensino. Fomos \u00e0s ruas em 1968 n\u00e3o porque quer\u00edamos nos locupletar, mas porque faltavam vagas nas universidades p\u00fablicas, porque a educa\u00e7\u00e3o brasileira estava sendo pautada por um acordo com os Estados Unidos (o MEC-Usaid). Quer\u00edamos a disciplina com que fomos criados e v\u00edamos a trai\u00e7\u00e3o impetrada pela ditadura. O resultado est\u00e1 ao nosso redor hoje: analfabetismo geral, evas\u00e3o escolar, viol\u00eancia em sala de aula, decep\u00e7\u00e3o dos professores.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a repress\u00e3o nem a permissividade, mas a boa e velha disciplina, a que nos ensinava desde cedo a respeitar os outros e a entender melhor como funciona o mundo. Se algu\u00e9m \u00e9 criado como se n\u00e3o houve qualquer limite para nada, o resultado for\u00e7osamente \u00e9 o tiro a esmo que atinge crian\u00e7as, mulheres e idosos, como vemos em <em>Harry Brown<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s Dois filmes opostos dizem a mesma coisa. 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