{"id":2009,"date":"2010-03-11T23:03:57","date_gmt":"2010-03-12T02:03:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2009"},"modified":"2010-03-11T23:03:57","modified_gmt":"2010-03-12T02:03:57","slug":"cameron-e-bigelow-codigos-da-dor-a-bomba-lacrada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/cameron-e-bigelow-codigos-da-dor-a-bomba-lacrada","title":{"rendered":"CAMERON E BIGELOW: C\u00d3DIGOS DA DOR, A BOMBA LACRADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO Oscar 2010 terminou com a vit\u00f3ria de Kathryn Bigelow, diretora de The Hurt Locker, que tinha sido desprezado, lan\u00e7ado direto nas locadoras e tardiamente inclu\u00eddo no circuito dos cinemas, de onde pulou para a sele\u00e7\u00e3o e a dupla vit\u00f3ria (filme e dire\u00e7\u00e3o). Seu ex-marido, James Cameron, diretor de Avatar, grande promessa da noite, saiu lambendo as feridas. De que tratam as duas obras? Sobre a dor provocada pela sinuca de bico onde os americanos se meteram com sua civiliza\u00e7\u00e3o voltada para a guerra. Duas abordagens opostas, que invadem a reflex\u00e3o contempor\u00e2nea, j\u00e1 que reflex\u00e3o n\u00e3o precisa de convite.<\/p>\n<p>The Hurt Locker significa uma dor intensa imposs\u00edvel de ser adiada. O filme trata dos esquadr\u00f5es especializados em desarmar bombas na guerra do Iraque e a dem\u00eancia que isso provoca. A c\u00e2mara no ombro e di\u00e1logos obsessivos revelam personagens insanos palmilhando o territ\u00f3rio conflagrado e tentando justificar a invas\u00e3o, como se a liberdade estivesse fazendo uma visita ao fundamentalismo obscurantista. Mas sabemos do que se trata: do arm\u00e1rio lacrado (locker) onde a dor, o ferimento, a m\u00e1goa (hurt) est\u00e3o encerrados. Trata-se de uma bomba que n\u00e3o pode ser desmontada. N\u00e3o h\u00e1 especialista que d\u00ea conta.<\/p>\n<p>Por ser completamente tomado pelo seu of\u00edcio, o oficial que desarma bombas torna-se prisioneiro da atividade e dela n\u00e3o consegue sair, mesmo depois de ter voltado para a fam\u00edlia. A vida dom\u00e9stica n\u00e3o faz sentido para quem est\u00e1 treinado para n\u00e3o deixar que os artefatos expludam destruindo tudo ao redor. Ele testa a adrenalina metendo a m\u00e3o na massa de maneira desassombrada, surpreendendo e enlouquecendo seus companheiros. Quando um dos seus parceiros \u00e9 gravemente ferido, o acusa de espichar o limite at\u00e9 o extremo s\u00f3 para satisfazer a vontade de a\u00e7\u00e3o compulsiva.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria desse soldado louco \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o americana no Oriente M\u00e9dio. Massa de manobra da pol\u00edtica e da ind\u00fastria petrol\u00edfera, as For\u00e7as Armadas desenvolvem no front uma percep\u00e7\u00e3o corporativa do conflito. Tudo se resume a bombas, explos\u00f5es, tiros, luta pela sobreviv\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 enfoque pol\u00edtico, territ\u00f3rio pantanoso onde a farda aparentemente n\u00e3o se mete. H\u00e1 o envolvimento institucional com a tal liberdade, mas o que impera \u00e9 o esp\u00edrito de grupo, ou de corpo, onde a obedi\u00eancia cega \u00e0s ordens \u00e9 o \u00fanico valor diante de um inimigo que se mistura a uma popula\u00e7\u00e3o pac\u00edfica.<\/p>\n<p>Avatar \u00e9 sobre o fim do militarismo tradicional americano, que por sua vez \u00e9 retratado no filme de Bigelow. Prop\u00f5e a substitui\u00e7\u00e3o por outro tipo de conflito, fundado na transfus\u00e3o gen\u00e9tica, nas ci\u00eancias ecol\u00f3gicas, na devo\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, mas sem abrir m\u00e3o do poder destrutivo das armas modernas. No fundo, quer que o velho coronel turr\u00e3o que adora mandar queimar tudo e promete pagar a primeira rodada depois da batalha seja substitu\u00eddo pelos jovens voluntariosos que engrossam as fileiras ecol\u00f3gicas da luta contra o desmatamento e a o aquecimento global. \u00c9 uma maneira de escapar do lugar onde est\u00e3o metidos hoje: uma arena onde, por compara\u00e7\u00e3o, o inferno n\u00e3o passaria de uma col\u00f4nia de f\u00e9rias.<\/p>\n<p>O inferno de James Cameron \u00e9 fazer parte de uma na\u00e7\u00e3o imperial que invadiu o mundo matando o Outro. Lan\u00e7ando m\u00e3o de todos os chlich\u00eas do v\u00eddeogame, da s\u00e9rie Guerra nas Estrelas, do faroeste (como a doma de p\u00e1ssaros gigantes), ele tece sua aventura fazendo sonhar quem que est\u00e1 acorrentado, a civiliza\u00e7\u00e3o em estado terminal representado pelo mariner de cadeira de rodas. No seu lugar est\u00e1 o mesti\u00e7o capaz de fa\u00e7anhas her\u00f3icas e que disp\u00f5e do corpo de maneira renovada, pois chupa toda a energia dos nativos, os homin\u00eddeos com orelhas de morcego e rabo.<\/p>\n<p>Os avatares s\u00e3o criaturas hibridas usadas para invadirem o n\u00facleo advers\u00e1rio que det\u00e9m a for\u00e7a dos recursos naturais, futuro para civiliza\u00e7\u00f5es doentias que precisam de terra, planta, \u00e1gua e tesouros minerais. O ex\u00e9rcito que aparece destruindo tudo \u00e9 o americano, mas Cameron finge que \u00e9 uma tropa mercen\u00e1ria, como se f\u00f4ssemos acreditar nisso. Os homin\u00eddeos seriam seres moralmente superiores, mas n\u00e3o passam de sub-ra\u00e7a (\u201cbaratas\u201d, diz o coronel\u00e3o) dedicada \u00e0 magia e que imita a ferocidade dos bichos.<\/p>\n<p>Os animais que aparecem em Avatar s\u00e3o inventados, j\u00e1 que os tradicionais &#8211; le\u00f5es, rinocerontes, elefantes \u2013 est\u00e3o no index politicamente correto. A sa\u00edda foi criar bichos que cruzam apar\u00eancias distintas para que a saga mantenha a rotina dos filmes americanos, em que a natureza \u00e9 sempre amea\u00e7adora, e seus habitantes precisam ser exterminados, ou no m\u00ednimo devem obedecer a um l\u00edder branco, tenha ele o disfarce que tiver.<\/p>\n<p>Ambos os cineastas trabalham a dor encerrada em casulos indevass\u00e1veis. Sabemos que por mais bombas que sejam desmontadas, ou por mais fofos que pare\u00e7am os habitantes da floresta, prevalecer\u00e1 a dor de participar do exterm\u00ednio. A dor tem um c\u00f3digo ainda n\u00e3o decifrado. Quem sabe eles come\u00e7am admitindo a exist\u00eancia de outros pa\u00edses? Eis a\u00ed um bom caminho para deixar de ver a Terra como o lugar nefasto que precisa ser enquadrado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O Oscar 2010 terminou com a vit\u00f3ria de Kathryn Bigelow, diretora de The Hurt Locker, que tinha sido desprezado, lan\u00e7ado direto nas locadoras e tardiamente inclu\u00eddo no circuito dos cinemas, de onde pulou para a sele\u00e7\u00e3o e a dupla vit\u00f3ria (filme e dire\u00e7\u00e3o). 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