{"id":2013,"date":"2010-03-11T23:07:07","date_gmt":"2010-03-12T02:07:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2013"},"modified":"2010-03-11T23:07:07","modified_gmt":"2010-03-12T02:07:07","slug":"campanella-tres-viagens-num-carrossel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/campanella-tres-viagens-num-carrossel","title":{"rendered":"CAMPANELLA: TR\u00caS VIAGENS NUM CARROSSEL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p><em>O segredo dos seus olhos<\/em>, melhor filme estrangeiro no Oscar 2010, de Juan Jose Campanella, \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a cl\u00e1ssica em tr\u00eas movimentos. \u00c9 um filme de amor dentro dos par\u00e2metros conhecidos, ou seja, um casal pr\u00f3ximo demais que n\u00e3o consegue se tocar durante o filme todo e s\u00f3 encontra uma solu\u00e7\u00e3o no final. \u00c9 um filme policial seguindo os trilhos do filme noir, onde um investigador solit\u00e1rio procura saber algo que todos querem esconder. E \u00e9 um filme pol\u00edtico, na linhagem das grandes obras do g\u00eanero, pois denuncia a origem da injusti\u00e7a nas tramas do poder, e n\u00e3o na natureza humana.<\/p>\n<p>A demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de um assassino estuprador diante de dois funcion\u00e1rios da Justi\u00e7a, num elevador fechado, \u00e9 a cena mais assustadora do filme. O bandido foi descoberto numa investiga\u00e7\u00e3o criminal, mas est\u00e1 solto gra\u00e7as aos bons servi\u00e7os de deduragem para a ditadura argentina. Quem treme n\u00e3o \u00e9 o criminoso, mas as pessoas pagas pelo Estado para fazer valer a lei. Essa \u00e9 a fonte da trag\u00e9dia: o pa\u00eds condena as v\u00edtimas e estimula os algozes. O resultado \u00e9 uma sociedade amorda\u00e7ada, amores frustrados, casamentos partidos, processos arquivados.<\/p>\n<p>Essa tr\u00eas viagens est\u00e3o imbricadas de tal forma que n\u00e3o se distinguem os limites de cada g\u00eanero funcionando na trama. Assim como n\u00e3o existe hegemonia de um vetor cinematogr\u00e1fico sobre o outro, n\u00e3o existe tamb\u00e9m o v\u00edcio fatal de focar tudo num s\u00f3 protagonista. Mesmo que a sobriedade, a seriedade, a gravidade e o carisma desse ator fundamental que \u00e9 Ricardo Darin, no papel do investigador Esp\u00f3sito, costure todo o filme, ao lado da performance avassaladora de Soledad Vilamil no papel de sua chefe Irene, cada personagem ganha status de protagonista no carrossel de Campanella, que gira o prato diante da c\u00e2mara e nos revela o quanto vale o indiv\u00edduo numa sociedade onde ele costuma sumir.<\/p>\n<p>Guillermo Francella no papel do companheiro de Esp\u00f3sito, o b\u00eabado Sandoval, \u00e9 o \u201cescada\u201d que toma as r\u00e9deas da trama quando decifra o c\u00f3digo do esconderijo do assassino. \u00c9 o companheiro desesperado e fiel que assume a identidade do amigo tanto para escapar da vida insuport\u00e1vel como para livrar o outro de um assassinato. Pablo Rago como o vi\u00favo Morales \u00e9 o alter ego de Esp\u00f3sito quando este se aposenta e resolve escrever um romance sobre o caso da bela esposa violentada. Assume o comando v\u00e1rias vezes no filme, quando desperta em Darin a intensidade da sua concentra\u00e7\u00e3o, em momentos de grandeza inigual\u00e1vel no cinema contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Javier Gondino como o criminoso G\u00f3mez \u00e9 o bruto que, por vaidade, se entrega na hora do interrogat\u00f3rio, quando Irene, de prop\u00f3sito, faz pouco de sua macheza. Ele se trai quando mostra, nas fotos, sua obsess\u00e3o pela v\u00edtima, pois os olhos falam e fazem Justi\u00e7a quando tudo mais falha. Jos\u00e9 Luis Gioia, como o vingativo Inspetor Ba\u00f1ez, o corrupto que se beneficia da ditadura, assume a cara monstruosa da repress\u00e3o no momento em que mais se precisava da lei.<\/p>\n<p>Cada momento do filme, que se desdobra em tr\u00eas caminhos entrela\u00e7ados, ganha assim a riqueza de personagens diferentes, assumidos por grandes int\u00e9rpretes. Os olhos s\u00e3o a pista que atrai o investigador, pois \u00e9 a radicalidade do amor revelada no rosto do vi\u00favo que o leva a perseguir o assunto at\u00e9 descobrir tudo sobre si mesmo.<\/p>\n<p>Mas devemos abrir um claro para falar mais de Darin. Notamos como os mais not\u00f3rios atores de hoje transparecem o esfor\u00e7o que fazem para trabalhar. De Niro extrai suas express\u00f5es no f\u00f3rceps. Brad Pitt tem valor, mas basta se distrair um pouco para sua massa f\u00edsica se diluir na tela. Bem Affleck \u00e9 um dos milhares bonecos de Hollywood que somem junto com o que faz. Phillip Seymour Hoffman \u00e9 brilhante, mas deixa a afeta\u00e7\u00e3o tomar conta dos seus pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Em contrapartida, vejam Ricardo Darin neste e nos outros filmes, como Nove Rainhas ou O Filho da Noiva. Parece f\u00e1cil fazer o que faz, mas tudo \u00e9 fruto de voca\u00e7\u00e3o, talento e intensa elabora\u00e7\u00e3o. Quando medita, quando v\u00ea, quando aguarda, quando est\u00e1 indeciso e, especialmente, quando se ilumina, ficamos em frente ao grande ator do nosso tempo. \u00c9 dif\u00edcil de provar essa afirma\u00e7\u00e3o, num universo que tem Al Pacino entre outras estrelas. Mas voto em Darin. Nunca decepciona e sempre comparece com o melhor de sua arte. N\u00e3o \u00e9 pouco, neste mundo vazio que clama por esp\u00edritos habitados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O segredo dos seus olhos, melhor filme estrangeiro no Oscar 2010, de Juan Jose Campanella, \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a cl\u00e1ssica em tr\u00eas movimentos. \u00c9 um filme de amor dentro dos par\u00e2metros conhecidos, ou seja, um casal pr\u00f3ximo demais que n\u00e3o consegue se tocar durante o filme todo e s\u00f3 encontra uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2013"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2013"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2013\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2014,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2013\/revisions\/2014"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}