{"id":2017,"date":"2010-03-21T20:31:09","date_gmt":"2010-03-21T23:31:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2017"},"modified":"2010-03-21T20:31:09","modified_gmt":"2010-03-21T23:31:09","slug":"claroescuro-o-esporte-desarma-o-conflito","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/claroescuro-o-esporte-desarma-o-conflito","title":{"rendered":"CLARO\/ESCURO: O ESPORTE DESARMA O CONFLITO"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>The Blind Side, de John Lee Hancock, Oscar de melhor atriz para Sandra Bullock, e Invictus, mais uma obra cl\u00e1ssica de Clint Eastwood, ambos de 2009, s\u00e3o dois filmes sobre rela\u00e7\u00f5es raciais e esporte, no caso o chamado futebol americano e rugby, respectivamente, duas modalidades irm\u00e3s, mas n\u00e3o id\u00eanticas. As diferen\u00e7as entre os dois filmes, afora a qualidade cinematogr\u00e1fica, que em Clint sobra, s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>Invictus, que \u00e9 t\u00edtulo de uma belo poema do brit\u00e2nico William Ernest Henley (1849-1903), sobre a vontade que decide o destino, aborda a for\u00e7a pol\u00edtica do perd\u00e3o. Narra a costura do estadista Nelson Mandela da \u00c1frica do Sul, na\u00e7\u00e3o dividida e rec\u00e9m sa\u00edda do apartheid, nos anos 90. A fragilidade da situa\u00e7\u00e3o, em que tudo apontava para a vingan\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o pobre que pela primeira vez era representada na pol\u00edtica via voto direto, exigiu que o novo presidente adotasse uma postura reguladora das rela\u00e7\u00f5es entre as duas fac\u00e7\u00f5es. \u201cVoc\u00eas me elegeram seu l\u00edder, me deixem que os lidere agora\u201d, diz Mandela interpretado por Morgan Freeman, contrariando os que queriam destruir o time de rugby, que significava a hegemonia branca no auge da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>The Blind Side (que se refere ao lado cego do atacante do futebol americano, que deve ser protegido por um player poderoso, de grande massa f\u00edsica) trabalha a favor da pol\u00edtica de inclus\u00e3o social estabelecida nos Estados Unidos por meio do esporte. Convidar atletas negros para as universidades que precisam refor\u00e7ar suas equipes \u00e9 um expediente exposto a in\u00fameras cr\u00edticas, mas o filme cuida de justificar tudo. Sandra Bullock cresce ao longo da trama no papel da esposa do bem sucedido empres\u00e1rio de lanchonetes populares. Ela vive com a fam\u00edlia sem conflitos numa mans\u00e3o, mas n\u00e3o fica satisfeita sem ajudar os outros exercendo a caridade crist\u00e3. Republicana, chega a contratar uma professora particular democrata para que o filho adotivo, Big Mike (interpretado por Quinton Aaron), possa ser aceito no time da escola.<\/p>\n<p>Clint prova que \u00e9 o grande herdeiro dos mestres do cinema de autor da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica americana ao iniciar seu filme com uma cena antol\u00f3gica: a passagem de Mandela libertado numa estrada que divide dois campos esportivos, um do rugby branco e outro do futebol negro. Em poucos segundos, ele mostra o apartheid representado pelo esporte e foca o filme na necessidade de romper a barreira, para que a na\u00e7\u00e3o \u201ccom fome de grandeza\u201d, como diz Mandela, pudesse cumprir o seu destino. E esse destino era ganhar a copa do mundo da modalidade, que seria realizada na \u00c1frica do Sul em 1995. O filme \u00e9 esse projeto de rompimento de barreiras por meio de costura valente e l\u00facida, empreendida por um her\u00f3i do nosso tempo. A cena final, em que os negros jogam rugby, mostra o sucesso desse esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>O hero\u00edsmo da rica dona de casa americana, que se destaca entre suas amigas indiferentes e vazias por meio de atitudes corajosas, \u00e9 de outra natureza, j\u00e1 que faz parte do voluntarismo pessoal e n\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (embora tudo seja pol\u00edtico, como todos sabem). No fundo, o filme coloca Big Mike como uma for\u00e7a da natureza, com defici\u00eancia de entendimento, e que s\u00f3 compreende as coisas por meio de demonstra\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas, como gestos e frases curtas. O n\u00edvel infantil do personagem gigantesco \u00e9 representado pela grande amizade com o novo irm\u00e3o branco, que \u00e9 um d\u00e9cimo da sua altura e um ter\u00e7o de sua idade.<\/p>\n<p>O gesto solid\u00e1rio da protagonista \u00e9 colocado em cheque por uma investiga\u00e7\u00e3o que cede \u00e0 primeira frase sorridente do investigado, mostrando que a narrativa tem a clara inten\u00e7\u00e3o de justificar a pol\u00edtica de inclus\u00e3o por meio do esporte contra todas as cr\u00edticas. Esses defeitos podem colocar o filme para baixo, ainda mais que usa o velho expediente do clip na fase de treinamento do atleta. Mas o aspecto aparentemente bizarro da hist\u00f3ria intensifica a carga dram\u00e1tica do filme, que come\u00e7a chocho e sobe para um patamar emocionante. \u00c9 uma grande qualidade que n\u00e3o deve ser menosprezada.<\/p>\n<p>O esporte \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do conflitos que, nos dois filmes, serve para desarmar os esp\u00edritos. Esse paradoxo \u00e9 o que os torna interessante, no caso de The Blind Side (traduzido aaqui pelo batido Um Sonho Poss\u00edvel), e magistral, nas m\u00e3os de Clint. Li algumas reparos de que o grande diretor usou uma s\u00e9rie de clich\u00eas. O que Clint faz, em alguns momentos, \u00e9 o uso pessoal de solu\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas consagradas. O ponto final filmado em c\u00e2mara lenta e arrancando o del\u00edrio esperado da plat\u00e9ia \u00e9 um deles. Funciona, emociona. Quem resiste?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que devemos justificar truques de cinema. \u00c9 preciso estabelecer diferen\u00e7as. No claro\/escuro das rela\u00e7\u00f5es raciais intermediados pela representa\u00e7\u00e3o do conflito via esporte, vale a compet\u00eancia de fazer cinema. Ambos os filmes n\u00e3o caem nos v\u00edcios da edi\u00e7\u00e3o da c\u00e2mara nervosa e s\u00e3o enxutos, limpos, com uma narrativa consagrada e objetiva. Isso destaca a grande performance dos atores. Morgan Freeman, costumo dizer: vejo tudo dele, o cara \u00e9 um im\u00e3. E Sandra, depois de tantos pap\u00e9is \u00f3timos, merecia seu Oscar, mesmo que possamos duvidar das boas inten\u00e7\u00f5es do filme. Vale o que aparece na tela: a fr\u00e1gil falsa loura enfrentando preconceito para adotar seu gigante e a alegria de v\u00ea-lo bem sucedido.<\/p>\n<p>S\u00e3o duas hist\u00f3rias reais que inspiraram obras com um encantamento raro hoje, quando tudo explode e os scripts obedecem a gambiarras narrativas toscas. Voc\u00ea pode n\u00e3o concordar com o que esses dois filmes, muito bem amarrados, querem dizer, mas n\u00e3o pode deixar de se encantar com o que eles mostram e s\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s The Blind Side, de John Lee Hancock, Oscar de melhor atriz para Sandra Bullock, e Invictus, mais uma obra cl\u00e1ssica de Clint Eastwood, ambos de 2009, s\u00e3o dois filmes sobre rela\u00e7\u00f5es raciais e esporte, no caso o chamado futebol americano e rugby, respectivamente, duas modalidades irm\u00e3s, mas n\u00e3o id\u00eanticas. 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