{"id":202,"date":"2005-05-26T22:58:17","date_gmt":"2005-05-27T00:58:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=202"},"modified":"2010-08-12T23:33:13","modified_gmt":"2010-08-13T02:33:13","slug":"hatari-a-narrativa-de-cristal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/hatari-a-narrativa-de-cristal","title":{"rendered":"HATARI, A NARRATIVA DE CRISTAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Implico com a cr\u00edtica de cinema que tenta devorar a obra de arte como se fosse um chocolate no arm\u00e1rio, um bibel\u00f4 de a\u00e7\u00facar na estante, um objeto de consumo pessoal. N\u00e3o \u00e9. Costuma ser tratada como tal. Chega-se at\u00e9 a enfeit\u00e1-la para adquirir mais valor, especialmente o intelectual, a pose de sabedoria em rela\u00e7\u00e3o ao que foi feito com maestria. O que conta n\u00e3o \u00e9 a posse sobre qualquer objeto que contenha a obra, a exibi\u00e7\u00e3o de conhecimentos eruditos ou rasteiros, mas o resgate feito pela mem\u00f3ria e a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um filme nos acompanha como um anjo da guarda, e se transforma em algo completamente diverso do que vemos escrito sobre ele. Sorte que vivemos na \u00e9poca do Google, em que tudo pode ser pesquisado. \u00c9 f\u00e1cil saber o que disseram Fran\u00e7ois Truffaut ou Rog\u00e9rio Sganzerla sobre Hatari!, de Howard Hawks. Eu prefiro v\u00ea-lo do meu jeito. Sua estrutura narrativa pode ser comparada a um cristal dividido em gomos luminosos, que confluem para o mesmo ponto. Cada gomo \u00e9 um cap\u00edtulo da aventura narrada e o ponto comum (e final) \u00e9 o amor que se concretiza entre seres desenraizados.<\/p>\n<p>CAPTURA &#8211; As palavras n\u00e3o trazem o filme de volta, nem fazem justi\u00e7a ao que ele \u00e9 (a obra como foi concebida e realizada). Podemos apenas lembr\u00e1-lo com nosso verbo escasso, depois de v\u00ea-lo, sem cansar, mais de um milh\u00e3o de vezes. A captura de animais selvagens na \u00c1frica \u00e9 uma frase que nada diz sobre Hatari! \u00c9 algo diverso. \u00c9 a composi\u00e7\u00e3o musical de uma saga, em que o alvo (o animal que precisa ser agarrado para o zool\u00f3gico) imp\u00f5e o ritmo e o perfil da narrativa. Assim, o filme torna-se veloz quando os ca\u00e7adores tentam pegar o felino, perigoso quando o jipe provoca o rinoceronte, c\u00f4mico quando se trata de enredar dezenas de macacos com a ajuda de um especialista em fogos de artif\u00edcio (Red Buttons, como Pockets, antol\u00f3gico). Cada captura (o gomo do cristal) \u00e9 um primor de estrat\u00e9gia. E as rela\u00e7\u00f5es humanas (um grupo de homens que v\u00ea-se surpreendido pela fot\u00f3grafa vinda de longe) rolam num ac\u00famulo permanente de algo que n\u00e3o tem lugar naquele saf\u00e1ri, os sentimentos (h\u00e1 apenas camaradagem, inevit\u00e1vel quando qualquer grupo enfrenta o perigo) .<\/p>\n<p>O amor se manifesta sem ser convocado e usa a chantagem para se consumar. A seq\u00fc\u00eancia final, em que todos os animais se soltam, pode ser vista como a representa\u00e7\u00e3o dessa manada de emo\u00e7\u00f5es guardadas dentro dos personagens, que diante da perda desandam como avalanche.<\/p>\n<p>SAVANA &#8211; Mas o mestre n\u00e3o deixa que esses fios soltos temporariamente arru\u00ednem a perfei\u00e7\u00e3o da narrativa ao longo de 160 minutos. \u00c9 preciso que tudo fique amarrado e isso se faz contra a vontade do personagem encarnado por John Wayne. Ele precisa assumir o amor, apesar de querer continuar com a mulher (a atriz Elsa Martinelli) sem dar bandeira dos sentimentos. O filme ent\u00e3o define o papel de cada um: o casal, que ocupa o centro, e os coadjuvantes, os que ajudaram a buscar na savana a emo\u00e7\u00e3o selvagem que era para ser guardada como rel\u00edquia. O amor n\u00e3o cabe numa jaula e \u00e9 preciso ceder para que ele ocupe seu espa\u00e7o. Homens turr\u00f5es como Hawks sempre foram sentimentais. Mas nunca deram bandeira. S\u00e3o esp\u00e9cimes extintos, como o primoroso cinema que inventaram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A captura de animais selvagens na \u00c1frica \u00e9 uma frase que nada diz sobre Hatari!, de Howard Hawks. \u00c9 algo diverso. \u00c9 a composi\u00e7\u00e3o musical de uma saga, em que o alvo (o animal que precisa ser agarrado para o zool\u00f3gico) imp\u00f5e o ritmo e o perfil da narrativa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=202"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2223,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/202\/revisions\/2223"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}