{"id":2022,"date":"2010-03-21T20:37:36","date_gmt":"2010-03-21T23:37:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2022"},"modified":"2010-03-21T20:37:36","modified_gmt":"2010-03-21T23:37:36","slug":"abracos-partidos-a-grande-arte-de-almodovar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/abracos-partidos-a-grande-arte-de-almodovar","title":{"rendered":"ABRA\u00c7OS PARTIDOS: A GRANDE ARTE DE ALMOD\u00d3VAR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>O cinema foi destru\u00eddo, feito aos peda\u00e7os. Seus restos jazem na amargura da mem\u00f3ria, mutilada pela dor e o esquecimento. Precisa ser reconstitu\u00eddo, mesmo tardiamente e \u00e0s cegas. As pistas s\u00e3o as fotos rasgadas numa cesta, os negativos escondidos num arm\u00e1rio, um making of rodado \u00e0 revelia do diretor, um roteiro esbo\u00e7ado por algu\u00e9m que ressurge do passado, uma cena fora de sintonia, o n\u00famero de um telefone guardado na gaveta.<\/p>\n<p>Take 1: Um diretor que j\u00e1 n\u00e3o enxerga busca sua identidade perdida ouvindo os cl\u00e1ssicos e reencontrado a imagem em movimento do \u00faltimo beijo dado na mulher amada que se foi. Suas m\u00e3os enquadram a cena granulada e distorcida. Take 2: Um produtor espiona a amante gravando suas conversas de longe e pedindo para uma leitora de l\u00e1bios que fa\u00e7a a dublagem. Seu rosto disforme \u00e9 a senilidade tra\u00edda. Take 3: Uma agente desvirtua o filme do pai do seu filho e esconde o copi\u00e3o por 15 anos. Sua confiss\u00e3o mostra uma vida desperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p>O filme a ser resgatado \u00e9 uma com\u00e9dia kitsch, a exemplo dos primeiros filmes de Almod\u00f3var. O drama do tri\u00e2ngulo entre o produtor, o diretor e a estrela \u00e9 puro Hitchcock e filme noir, o sintoma de sua maturidade, em que v\u00ea o cinema como um soberbo espet\u00e1culo de mist\u00e9rio e suspense. Os raros momentos de amor s\u00e3o refer\u00eancias a grandes filmes rom\u00e2nticos. O mais impressionante \u00e9 que n\u00e3o se trata de uma colagem, mas de uma narrativa org\u00e2nica, que assume todos os riscos, como j\u00e1 foi notado pela cr\u00edtica.<\/p>\n<p>A grande arte de Pedro Almod\u00f3var estabelece as camadas deste filme sobre cinema. Voc\u00ea v\u00ea Abra\u00e7os Partidos, que por sua vez produz Garotas e Malas, com filmagens capturadas por um documentarista onipresente. O filme dentro do filme \u00e9 desvirtuado, por vingan\u00e7a, pelo produtor tra\u00eddo. Mas \u00e9 recuperado no final pelo autor que perdeu tudo, menos a capacidade de continuar trabalhando. Por um tempo, ele assumiu a personalidade de um roteirista com outra identidade, mas as revela\u00e7\u00f5es o levam de volta ao seu destino.<\/p>\n<p>Assim, a obra perdida, humilhada, \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do cinema fundamental de Almod\u00f3var, que busca a realiza\u00e7\u00e3o apesar do ass\u00e9dio da mediocridade e da superficialidade, que mant\u00e9m-se fiel ao que \u00e9, um cineasta de alta voltagem, capaz de se superar a cada lan\u00e7amento. Pen\u00e9lope Cruz detona como a secret\u00e1ria pobre que sobe na vida por meio da entrega a um milion\u00e1rio e que busca no cinema a realiza\u00e7\u00e3o que o vazio da sua vida nega. \u00c9 uma grande atriz, que faz passar por sua performance os rastros de Marilyn Monroe e Audrey Hepburn, sem se entregar \u00e0s imita\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma perform\u00e1tica com pleno dom\u00ednio do seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>Veja Abra\u00e7os Partidos. Faz parte do grande cinema do nosso tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s O cinema foi destru\u00eddo, feito aos peda\u00e7os. Seus restos jazem na amargura da mem\u00f3ria, mutilada pela dor e o esquecimento. Precisa ser reconstitu\u00eddo, mesmo tardiamente e \u00e0s cegas. 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