{"id":2024,"date":"2010-03-21T20:39:19","date_gmt":"2010-03-21T23:39:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/?p=2024"},"modified":"2010-03-21T20:48:58","modified_gmt":"2010-03-21T23:48:58","slug":"corrupcao-e-ruptura-em-salve-geral","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/corrupcao-e-ruptura-em-salve-geral","title":{"rendered":"CORRUP\u00c7\u00c3O E RUPTURA EM &#8220;SALVE GERAL&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o no Brasil atinge todas as classes sociais, o que elimina a ilus\u00e3o de uma classe m\u00e9dia fora desse circuito, vista como a base de um pretenso conv\u00edvio harm\u00f4nico. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto da quebra de paradigmas na economia ( empresas falidas em massa pela crise) nas institui\u00e7\u00f5es (judici\u00e1rio e pol\u00edcia se misturam \u00e0 bandidagem) e no comportamento (a promiscuidade dos corpos \u00e9 a vala comum da na\u00e7\u00e3o jogada no lixo). Sergio Rezende, o cineasta maior do Brasil contempor\u00e2neo, mostra em <strong>Salve Geral<\/strong> como as pessoas trabalham esse ambiente de corrup\u00e7\u00e3o e ruptura por meio de hist\u00f3rias pessoais que se cruzam a coletividades em p\u00e2nico (a popula\u00e7\u00e3o) ou em guerra (a repress\u00e3o e o crime).<\/p>\n<p>Rezende fala claro, uma raridade no pensamento obscurantista que atualmente nos domina em todos os estamentos e \u00e1reas de atividades. A cadeia em ru\u00ednas que amontoa pessoas abandonadas pelo Estado \u00e9 a estufa onde medra a flor da insurg\u00eancia organizada. N\u00e3o se trata de uma justificativa, mas de uma evid\u00eancia. O partido clandestino que trafega pelas celas dando ordens e que acaba incendiando as pris\u00f5es e a cidade de S\u00e3o Paulo, tem a mesma pr\u00e1tica dos partidos oficiais: amea\u00e7a, suborna, manda matar, rouba. S\u00e3o vasos comunicantes, o oportunismo pol\u00edtico e a solu\u00e7\u00e3o encontrada pelos condenados, que acabam for\u00e7ando as autoridades a sentarem na mesa de negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Rezende fala claro. A vi\u00fava professora de piano (interpretada por Andr\u00e9a Beltr\u00e3o, a atriz completa e segura, uma sobriedade cl\u00e1ssica num universo dominada pelo falso talento), formada em Direito mas que n\u00e3o exerce a advocacia, \u00e9 empurrada para a organiza\u00e7\u00e3o por motivos de sobreviv\u00eancia. Ela n\u00e3o pode deixar o filho a descoberto num lugar onde todos s\u00e3o marcados para morrer. Tamb\u00e9m n\u00e3o pode ficar sem dinheiro quando todos os caminhos passam pelo Caixa 2. Ela acaba se envolvendo profissional e sexualmente com o mundo da pris\u00e3o, levada pela m\u00e3o da Ruiva, uma advogada do tr\u00e1fico, interpretada pela excepcional Denise Weinberg, que praticamente engole o filme com sua performance.<\/p>\n<p>Rezende fala claro. O partido nasce das necessidades dos apenados, conquista o cora\u00e7\u00e3o dos jovens, que acreditam em suas grandes frases, se imp\u00f5e perante o sistema carcer\u00e1rio e a c\u00fapula de seguran\u00e7a, decidindo o terror na cidade que se descobre tamb\u00e9m abandonada, tanto quando os que foram para a cadeia. Ficou faltando a \u00faltima ponta desse processo: a participa\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos de grosso calibre, que na \u00e9poca (2006) estavam em feroz disputa pelo butim via campanha eleitoral. Mas isso seria pedir muito para um filme, que trata, como todos os outros, de cinema.<\/p>\n<p>E o cinema, nesta nova obra de Rezende, que nos providenciou Mau\u00e1, Zuzu Angel, O Homem da Capa Preta, Canudos, para que pud\u00e9ssemos continuar sentindo orgulho do cinema brasileiro, \u00e9 a cidade expropriada de sua identidade, \u00e1 merc\u00ea das for\u00e7as poderosas que medraram a partir da destrui\u00e7\u00e3o da soberania do pa\u00eds. O filho que escapa das m\u00e3os da m\u00e3e est\u00e1 irado com sua queda social e encontra nos rachas de carros envenenados o treinamento para futuras transgress\u00f5es mais pesadas. M\u00e3e e filho se corrompem porque n\u00e3o h\u00e1 outro caminho, sen\u00e3o ceder ao rompimento de todos os pactos sociais.<\/p>\n<p>Vemos ent\u00e3o esse piano, representando o status social perdido, sendo jogado para o ex\u00edlio do sub\u00farbio e nessa trajet\u00f3ria \u00e9 extra\u00eddo de seu teclado o som da cidade que naquele dia acordou sabendo que todos iriam morrer. No fundo, ali morreu definitivamente o pa\u00eds que nos formou. Outro est\u00e1 em seu lugar e mergulhamos no pesadelo marcados por um novo pecado de origem, adquirido nessa saga sinistra de uma civiliza\u00e7\u00e3o assassinada. Resta a individualidade ferida, capaz de enxergar o drama com nitidez, como faz Sergio Rezende e sua brava equipe, mantendo a \u00fanica virtude que nos manter\u00e1 vivos: a coragem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s A criminaliza\u00e7\u00e3o no Brasil atinge todas as classes sociais, o que elimina a ilus\u00e3o de uma classe m\u00e9dia fora desse circuito, vista como a base de um pretenso conv\u00edvio harm\u00f4nico. 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